O Brasil foi eliminado da Copa do Mundo. Tenho que reconhecer minha felicidade com o feito: é um assunto a menos para eu me informar. Não assisto futebol. Esses dias até andei chutando uma bolinha com uns amigos estudantes. Mas, depois da morte do Bussunda, decidi não me arriscar já que estou muito gordo para fazer esforços fÃsicos prolongados sem orientação. Mesmo assim, é impossÃvel explicar para japoneses e outros estrangeiros o fato de um brasileiro não ser jyoozu (habilidoso) com a bola. Homens do mundo inteiro - e algumas mulheres, como as minhas colegas alemã e sueca que não perdem uma partida da Copa - ao saberem que sou brasileiro, sempre me perguntavam acerca do jogo do Brasil, da atuação dos jogadores... Confesso que não vi nenhuma partida. Elas estavam ocorrendo no meio da madrugada aqui no Japão. E eu já andei relatando anteriormente minha dificuldade com esse verão onde amanhece as 4 e meia da madruga! No entanto, ao acordar, corria para o computador para me informar sobre o placar e ler comentários nos jornais brasileiros on line. Assim, tinha sempre uma resenha preparada para passar para os insistentes. Na verdade, meu único interesse era aproveitar-me desse momento para conhecer gente, principalmente japoneses que são tÃmidos à beça.
Agora, acompanho a repercussão da derrota para a França e a eliminação "precoce" do maior ajuntamento de craques do planeta. Comentários em blogs, conversas com amigos, páginas do Orkut dão conta de crucificar os 20 e tantos convocados para a tarefa de "salvar a Pátria" de sua sina de vexames! Sim, porque, apesar de temos o pior ensino fundamental da América do Sul, uma das maiores desigualdes sociais do mundo, um dos maiores indÃces de acidentes de trânsito, dentre outros tantos postos nada dignos de orgulho no ranking mundial das nações, a seleção brasileira de futebol masculino é a número 1 do mundo! Portanto, os 20 e tantos moços têm o dever cÃvico de manter esse nosso patamar. Em alguma coisa temos que ser os melhores, afinal.
As reações que eu venho acompanhando fariam Le-Pen, o mais famoso radical-nacionalista francês, corar diante da desfaçatez com que raivosos torcedores acusam os jogadores de "traidores da Pátria" e "vendidos!". Foi a mesma reação que os jogadores da Costa Rica assistiram no aeroporto de San José em seu retorno à casa. Com a diferença de que as frases de insulto eram, segundo a mÃdia, direcionadas principalmente ao técnico da seleção, um brasileiro e, portanto, estrangeiro. Mesmo o senhor Parreira insinuou o mesmo na Folha On Line dizendo que não há mais "mágica" ao vestir a camisa da seleção, que os jogadores não viajam nem retornam em grupo como no passado, quando disputavam uma partida de despedida e se apresentavam ao Presidente da República que os devia "investir" do poder de "representantes da Pátria". Não é à toa que se cunhou a expressão "Pátria de chuteiras" para a Seleção Brasileira de Futebol. E os 20 e tantos atletas passavam/passam a ser questão de honra nacional.
No entanto, as histórias de vida desses moços estão longe do que deveria ser considerado motivo para que eles se orgulhem do Brasil e do que o paÃs lhes ofereceu. Claro que o que eu passo a escrever é um sacrilégio, mesmo para os jogadores que, apesar da péssima atuação que tiveram na última Copa, sempre demonstram aceitar a responsabilidade que lhes imputam os fanáticos brasileiros. Oriundos da pobreza, quantos daqueles rapazes puderam estudar e ter uma vida digna até se tornarem atletas profissionais? E, mesmo com talento de sobra no manejo da bola, quantos deles tiveram à sua disposição uma orientação escolar ou esportiva proveniente de órgãos públicos? Quantos passaram pelas mãos de cartolas corruptos os quais a Justiça reluta em processar ou, quando isso ocorre, em dar a sentença a que têm direito? Em resumo, o que a República Federativa do Brasil, dentro de suas prerrogativas e obrigações legais, ofereceu a esses moços para que eles tenham orgulho de ser brasileiros ou mesmo defendam, de forma maior do que a da obrigação profissional, o orgulho ferido da Pátria? Fanáticos acusam esses atletas de mercenários porque grande parte deles joga em clubes no exterior os quais lhes pagam um salário que boa parte dos torcedores fanáticos faria qualquer coisa para ganhar, além de lhes oferecer um estilo de vida que nunca, mesmo que vivendo do futebol, eles teriam como conquistar no Brasil. E mesmo os valores que a Confederação Brasileira de Futebol paga a esses profissionais por sua atuação como jogadores da seleção brasileira de futebol não são - ou não deveriam ser - oriundos do Estado. Portanto, esses moços, que ainda pagam impostos no Brasil - incluindo aqueles que não vivem no paÃs -, não devem nada à Pátria e, portanto, é ilegÃtima a pressão do paÃs sobre eles.
Aliás, o Brasil está sempre de mãos estendidas para seus cidadãos: desde que com o intuito de receber ou extrair deles algo. A carga tributária do paÃs está dentre as maiores do mundo. O voto é um direito compulsório. Os direitos trabalhistas encolhem e trabalhadores são obrigados a entender que a entrada no mundo global competitivo exige um preço. E, não obstante tudo isso, há sempre alguém dizendo que o paÃs é uma m...erda porque o povo deixou de fazer alguma coisa. Claro que a carapuça nunca serve para aqueles que realmente não fazem algo útil. Diante do nada que o paÃs oferece à grande maioria de sua população, aqueles que ainda trabalham e são honestos são mais do que nacionalistas. O Brasil está farto de gente que põe a camisa da seleção de quatro em quatro anos para apontar o outro como traidor da Pátria e que nos seguintes 1434 dias do perÃodo se comporta como se o paÃs não existisse. A verdade é que ninguém nos diz na escola - talvez em lugar nenhum - que o Brasil não é o Hino Nacional composto pelos filhos dos aristocratas que escravizaram boa parte de sua população; não é aquela bandeira cuja "filosofia das cores" seduz mas se contrapõe a um lema que sempre serviu para controlar os que tinham menos em favor daqueles que queriam sempre mais; tampouco, um desenho delimitado num mapa, o território conquistado com a morte de muitos nativos, cujos descendentes são tão brasileiros quanto quaisquer outros. Esses "nacionalistas" precisam com urgência de uma lição de Brasil. Precisam desbancarem-se de sua hipocrisia e ter a humildade de reconhecer uma coisa: para que alguém tenha orgulho de um paÃs, é necessário, antes de mais nada, que ele exista de fato. E, honestamente, a República Federativa do Brasil é apenas um emaranhado de órgãos e interesses, cuja função principal é arrecadar impostos e emitir documentos, com desdobramentos que os jornais estão, agora mais que nunca, repletos de exemplos. E, não se pode esquecer, com o objetivo de garantir a muitos desses "nacionalistas" endinheirados, a segurança que lhes permita continuar fazendo do resto da população um depósito dos seus dejetos. Creio que, como esse Brasil começa a falhar naquilo que sempre se propôs, esses senhores e senhoras "auri-verdes" estão pondo as manguinhas de fora e, claro, conquistando a adesão dos "bem-informados". Mas, enfim, no paÃs do futebol, tudo isso que está aqui escrito é muito difÃcil. E é tarefa igualmente complexa explicar a um brasileiro que um compatriota pode não ser bom de bola (nem de samba), sem ser 'ruim da cabeça' nem 'doente do pé'. O povo brasileiro não sabe ler e certas idéias ninguém entende. Mas, enfim, rumo a 2010! Sem mim, por favor.
Texto anteriormente publicado em Burajiru Kara Kimashita
Oi Roberto, tudo bem?
Vi que vc publicou o texto no seu blog. Você não acha que talvez seja legal colocar o link do seu blog no próprio texto, avisando que se trata de uma colaboração também postada por lá? Um abraço!
Plenamente coerente!
Acrescentaria o fato de que os jogadores, se nacionalistas realmente, teriam entregue o jogo propositadamente. Teriam percebido que o futebol, do modo como é tratado, aliena a população.
Talvez isso seria querer demais. Lembrando que eles estão todos felizes como beneficiários da polÃtica de circo em torno do futebol.
(Parabéns pelo texto... Se metade dos brasileiros residentes aqui tivessem sua consiência, você provavelmente não teria ido morar no Japão)
Abraço! Sorte! Do jeito que vão as coisas, logo, logo tb deixarei a pátria amada.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!