Sempre que eu passava à frente da Catedral Metropolitana da Igreja Católica de Porto Alegre, à Praça Marechal Deodoro, que também chamam de Praça da Matriz, eu engasgava com uma coisa, um medo, um espanto, um terror, que não sabia bem o que era, desde pequenina.
Minha avozinha Marinalva é muito católica.
Reza pela manhã, todos os dias, não perde missa de domingo, confessa, comunga, foi batizada, fez primeira comunhão e crismada.
Uma santa velhinha que já ganhou lugar no céu um milhão de vezes e ainda continua dando ajuda a uma porção de gente aqui na terra.
Ela paga, também religiosamente, um dízimo na paróquia dela, e ainda, aos 83 anos, repete que o que cura é a fé, não o pau da barca, distribuindo quando pode do pouco que ganha da pensão do falecido uns troquinhos e uns ranchinhos pequenos, até pra gente que não é da família, que ficou no Maranhão e no Piauí.
Entrava na nave gigantesca da catedral meio que forçada, presa a mão de vovó, ela reverente, em sinal da cruz, que eu sempre chamei de cruzetinha, sei lá porque.
To zoropeando desde o fim das Olimpíadas em que quase perdi os couros de fora e menos íntimos do corpo, aproveitando a sobrevida da alta repentina do dólar garantida pelo capitalismo de estado (livre iniciativa com as burras de banco central é mingau).
Dá uma corporação dessas pra mim também, mais um trezentos bilhões de dólares que eu também gerencio até quebrar).
Dei-me aqui por conta da razão de meu medo ancestral.
Sou um terço negra, um terço índia, um terço branquinha (dá quase um rosário) e, depois de Beijing, um tantinho china, que chinoca eu já era nos pampas farrapos (de pé: foi o vintê de setembroooooo, o precursooooor, da liberdadê!).
Reparem só nas fotinhas da catedral.
O projeto é do arquiteto João Batista Giovenale, responsável também por trabalhos executados em Roma, tais como a cripta da Igreja de Santa Cecília e o novo Museu Petriano.
Linda abóbada, só menor que a de São Pedro, quase finalizada (obra nunca termina em igreja) com mais um milhão de reais de repasse pela Lei de Incentivo à Cultura no governo anterior a esse dessa senhora da casa grande.
Tem chovido um eito na capital gaúcha e as hortas expostas estão uma lama só.
Maravilhosos afrescos, colunas portentosas (é um portento de fortaleza essa palavrinha: um palavrão!, diga-se de passagem, de ida e volta).
Tem um meu parente esmagado no pé de cada colunão de granito e ferro e cimento e fé desta catedral.
Que minha vovó Marinalva não me ouça, mas eu acho que devia estar ali era uns dez papas em cada pilastra, pra que eles mostrassem de fato a força da cruz, porque quem botou os índios ali foi a espada e a pólvora.
Tenho percebido que as catedrais aqui nos meus poucos passeios andaluzes e venezianos não explicitam a sanha do poder que assombrou nas terrinhas d’além mar.
Mas não é por vergonha., como possa alguém pensar. Não, eles não têm vergonha de ostentação, eu já percebi.
É apenas porque as catedrais daqui são mais antigas, de antes da imposição da fé de europeus aos naturais de outras terras.
Vou reparar melhor pra ver se não tem alguma bruxa ou herege queimando no pé das colunas das catedrais européias.
Bom trabalho amiga.
que venham mais.
Você tecla com as unhas sem o esmalte que sempre maquiou
grandes cruzadas das religiões e da política. Traça com ironia
Machadiana sobrê a inocente hipocrísia e costumes impostos
aos novos povos.
Obrigado.
Quero aprender coisas com você.
Beijos.
Vó Marinalva sae porque faz assim Juliaura. E você, com essa raça toda, faz mais um excelente texto nesse estilo de quem brica e fala a verdade de mansinho, na graça. aqui você diz muito sobre todas as contradições desse imaginário brasileiro colonizado. gosto cada vez mais de seu trabalho.
Aos pés da santa cruz você se ajoelhou, em nome de Jesus...rsr(cada coisa que me lembro!!)
Juli, acho linda a sua veneração pelos seus entes, por suas raízes e a maneira com que vc se refere a eles. Certa vez, li um artigo muito antigo que falava de templos, templos que somos, templos que vemos, os quais vamos, ou não. O sagrado imperfeito e imposto de paredes de pedra, paredes de carne, edificações e edificados...
Assusta mesmo saber das barbáries ocorridas no passado. E de pensar que o rigor fora ainda maior n'outros cantos do mundo, dá até um embrulho no estômago. E de pensar que nunca houve poder na cruz, nem amor algum... O poder não habitava o instrumento, templo do castigo. O poder estava sim, e ainda está naquele que foi crucificado.
Vc é Boa!
Seria ali eternizada a hipocrisia...
Juli, num faz mal não, o Templo mais bonito
é o Céu, este muitos não entraram e não entrarão...
Fogo neles! (inquisitória eu kkkk)
Valeu Juliaura! Texto bom de se ler, humorado, enxuto. Fiquei com imensa vontade conhecer tão expressivo monumento à fé de milhões de gaúchos.
Eloy Santos · Rio de Janeiro, RJ 23/9/2008 11:47Gosto muito das intervenções que vc faz no texto. Dá um tempero muito interessante. Um abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 24/9/2008 21:42Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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