Apocalipse: "Now" ou Não

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Gyothobat · Brasília, DF
18/2/2007 · 90 · 6
 

Ou Crash: a Kombi da família da pequena Miss Sunshine
trombou com a globalização
.

“Pequena Miss Sunshine” e “ Crash” têm em comum não só o fato de serem bons representantes do cinema independente americano contemporâneo. Os dois filmes têm o mérito de desconstruir a imagem fabricada de uma (Norte) América vencedora e pretenciosamente superiora, mas isto não é inédito. O cinema americano sempre produziu bons exemplos de filmes alternativos que criticam o “american way of life” e que, correndo por fora do esquema das grandes produções, conseguem se tornar sucessos relativos de bilheteria. Isto pode explicar o aumento de produções deste gênero, o que antes de ser sinal do crescimento de um movimento crítico, pode ser simplesmente uma estratégia de marketing. Aliás, o capitalismo, do qual os americanos são os melhores representantes e reprodutores, sempre acaba transformando em “money” até as críticas a si mesmo.

Mas há algo mais em comum nos dois filmes e que se relaciona também com outros fatos trágicos, que infelizmente não são ficção. As pequenas e grandes tragédias diárias de imigrantes pobres em países desenvolvidos e o crescimento da faixa de excluídos e pobres nestes países, que outrora pareciam imunes às mazelas do Terceiro Mundo, são dois exemplos mostrados nos filmes citados. Além do aspecto estritamente material do empobrecimento de percentual crescente da população mundial, poderíamos falar do crescimento dos sentimentos de frustação, impotência, apatia, indiferença, também retratados nestes dois filmes. Sentimentos que nascem da constatação de que as oportunidades (transformadas em ilusões vendáveis) se restringem cada vez mais (mesmo no país das oportunidades) e se tornam praticamente inexistentes nos países onde tradiconalmente sempre foram restritas a uma pequena parcela da população. E depois se transformam em sentimentos de revolta, frieza, desamor, crueldade e barbárie, cujos exemplos são frequentes.

O mundo, observado pelo aspecto econômico, andou para frente nos últimos anos. Crises econômicas da década de 1990 superadas; economias em grande expansão; comércio mundial aquecido; avanço tecnológico fantástico; comunicações cada vez mais rápidas e baratas; grande mobilidade de mercadorias, serviços e pessoas; empresas com lucros fantásticos, euforia nas bolsas de valores, saldo econômico final positivo, mesmo com alguns maus resultados ali ou acolá.

Mas no aspecto social o mundo nunca andou tão rapidamente para trás. Grandes contingentes de pobres nas cidades, aumento explosivo de favelas, sub-habitação, carência de saneamento mínimo, violência, caos na saúde, reincidência de doenças já consideradas erradicadas, degradação ambiental, poluição da água, do ar, do solo, etc. Uma sucessão de problemas socioambientais que se interrelacionam em um ciclo vicioso que se expande tal como uma espiral de tragédias sociais, que os poderes públicos, mesmo embuídos de boa vontade, seriedade e competência (o que já é muito raro) não conseguem enfrentar.

Sem falar nos conflitos étnicos e religiosos que misturados às tragédias sociais pre-existentes e aos interesses políticos e econômicos criam uma sinergia de problemas que resultam em imensos desatres sociais, econômicos, ambientais e psicológicos.

Sim, é o emocional da maior parte das pessoas que é afetado por esta mistura de êxtase e tragédia mostrada diariamente nos noticiários. Desequilíbrios emocionais que alimentam as estatísticas de crimes, loucuras e barberidades crescentes.

Uma cena assim só parece ser compatível com o inferno. Mas é o nosso mundo, criado por Deus e por Ele regido (ou seria apenas por Ele observado?). Uma situção próxima a do Apocalipse. E quantas vezes o mundo pareceu estar próximo ao Apocalipse? As grandes guerras mundiais do Século XX; as grandes epidemias; as guerras santas da Idade Média; a queda do Império romano; a era glacial. Todas estes e outros momentos cruciais da humanidade tinham jeito de Apocalipse e, de um certo modo, foram. Geraram transformações profundas, novos mundos, novas civilizações, humanidade renovada.

Talvez também as atuais dores existenciais do mundo sejam sinais de uma grande transformação em curso. Quanto tempo ainda durará, no entanto, não se sabe. Não sabemos, inclusive, em que ponto da onda de dor estamos. Podemos estar somente começando a experimentá-la e sequer atingimos o seu pico para depois começar a descê-la. Ou talvez, não seja nada disso. Desde que o mundo é mundo está em permanente transformação, assim como todos os seres viventes e não-viventes se transformam continuamente. Esta é a lógica da vida e também da não-vida. Pedra que se transforma em vida, vida que se transforma em pedra infinitamente. Talvez... “tudo não passe dos sinais iniciais desta canção... retirar tudo o que eu disse... reticenciar que eu juro...censurar ninguém se atreve...luar tão cândido”.

Na verdade, eu só queria comentar uns filmes que eu ví ultimamente.

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Egeu Laus
 

Gyothobat,
Suspeito que mais do que as do "Terceiro Mundo" as mazelas do "Primeiro Mundo" sempre estiveram lá e nunca nos foi dado vê-las (e poderemos quem sabe discutir o por que)
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 14/2/2007 23:33
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Gyothobat
 

Egeu, obrigado pelo comentário.

A raiz das mazelas sociais do assim chamado "Terceiro Mundo" certamente está na histórica exploração econômica deste pelo assim chamado " Primeiro Mundo" . Exploração que pode ser entendida como uma mazela ética no sentido de que a opulência de poucos só pode ocorrer pela miséria de muitos. Não é difícil ver isto, mas muitos se incomodam de vê-lo e admití-lo, porque não admitiriam abrir mão do seu alto nível de conforto material e poder em função de uma maior equidade socioeconômica global.

PS - As expressões " Primeiro Mundo" e "Terceiro Mundo" embora tecnicamente possam ser contestadas, pois o mundo contemporâneo não apresenta mais esta divisão político-ideológica, ainda são usadas para designar o conjunto de países ricos e pobres, respectivamente. Entretanto mesmo estes termos não expressam a realidade, pois há crescente pobreza nos países ricos e cada vez mais restrita riqueza nos países pobres.

Gyothobat · Brasília, DF 15/2/2007 01:07
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Egeu Laus
 

Por isso acho que os termos Centros e Periferias talvez sejam mais adequados, pois podemos encontrar "periferias" mesmo dentro de paises "centrais" (Washington e New Orleans?) e ate' mesmo dentro de cidades (Manhatan e Spanish Harlem?)...

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 15/2/2007 11:10
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Egeu Laus
 

Achei essa citação do historiador do design Rafael Cardoso:
(...) "A vantagem dos termos Centro e Periferia reside justamente na possibilidade de pensar essa relação em 3 dimensões, como se discutíssemos não um mapa plano, mas um modelo planetário em que diferentes núcleos agregam, cada um, os seus satélites e giram, em torno de núcleos mais poderosos, ocupando ao mesmo tempo a posição de centro do seu pequeno sistema e periferia do sistema maior" (...)

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 15/2/2007 11:20
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Divina Reis Jatobá
 

Assisti aos dois filmes, diferentes abordagens para um tema do cotidiano, uma crítica não só ao American Way of Live, mas do eu posso só. O "Eu-tu e Eu-Isso" é filosofia que precisa ser relembrada...
Sua lógica racional e sua sensibilidade te dão a direção e o mote para uma escrita agradável, rica e instigante. É raro abrir periódicos especializados em cinema e ler um comentário tão abrangente e sedutor como o que fizestes, isso é um diferencial entre ti e os "críticos especializados" . Cada vez que leio um "crítico de cinema" me pergunto se o mesmo realmente assistiu ao filme ou somente ganhou para esboçar uma resenha pobre, quer para enaltecer ou para rebaixar um filme do seu valor real. "Apocalipse: now ou não" foi concebido com excelente humor e trata de assuntos diversos: economia, urbanismo, globalização, antropologia, religiosidade... ou Não, como diria Caetano. O final da crítica é genial, a música do Gil caiu como uma luva, então vamos reticenciar, a luz da luz, senão alguém censura...

Divina Reis Jatobá · Brasília, DF 17/2/2007 16:37
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Joana Eleutério
 

Será que você é poeta e também jornalista, além de funcionário público? Parece....

Joana Eleutério · Brasília, DF 6/1/2008 18:18
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