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APRENDENDO COM OS ÍNDIOS KRAHÔS

Sinvaline
Familia krahô

APRENDENDO COM OS ÍNDIOS KRAHÔS

Ainda existem as comunidades que insistem em preservar seus costumes, como os índios Krahôs no município de Itacajá, Tocantins. Na permanência de oito dias entre eles, pude observar detalhes dessa resistência que eles mantêm mesmo já convivendo com o homem branco.

Vivem de forma ordenada em 20 aldeias do território Krahô, numa área de 302 mil hectares no nordeste do Tocantins. Sobrevivem da plantação de mandioca, milho, banana; alguns criam porcos, galinhas e ainda utilizam a caça para completar a alimentação. Contam também com a ajuda da FUNAI e do governo com as aposentadorias. Mas o destaque do trabalho dos krahôs está no artesanato: eles produzem cestas, bolsas, colares, brincos, pulseiras e outros. Para isso usam palhas de coqueiro, sementes variadas do cerrado. Confeccionam peças raríssimas com muita habilidade.

Nas escolas aprendem o português e o krahô que é uma língua muito complexa e diversificada. A comunidade infantil é enorme, devido à sua cultura ter como riqueza as crianças para a preservação da tribo.

Cada aldeia tem um cacique que conduz as decisões sempre resolvidas coletivamente e este tem o olhar atento no sentido de preservação dos costumes. Até o horário da televisão é controlado, ele me explica que as crianças não podem se envolver muito com a TV e esquecer os modos indígenas.

Pela manhã eles se reúnem em círculo para discutir o que vai ser feito no dia e nessa discussão entram os sonhos da noite anterior, que pode ser uma previsão importante. Com muita calma decidem o que cada qual vai realizar naquele dia.

As vozes krahôs se confundem: Impej (bom, ótimo, bacana), Wamaramõ (até mais, vou me embora) ... No meio do bate papo, muito sorriso, a índia Krãmpej levanta, vai logo perto abre as pernas, a urina adentra a terra, sem cerimônia ela segue altiva, dona do seu mundo de pequena extensão e tão grande em qualidade!

As crianças, os jovens, os velhos sorriem muito, são felizes, livres; nada é proibido. No rio todos nus nadam, gritam e sorriem. A água é sagrada, não podem contaminá-la.

O índio Xorxor viu um brinquedo na cidade e o reproduziu em madeira. O filho, o neto, os adultos todos brincam com a novidade, o indiozinho o empurra ensaiando os primeiros passos naquela espécie de triciclo com rodas de pau. Incrível como eles descobrem nas pequenas coisas grandes vivências.

Na hora da foto Xorxor tira o chapéu, sorrindo escancaradamente, peço-lhe para ajeitar o cabelo, mas ele assanha-os mais ainda e diz:

-Deixa assim, eu sou homem do mato!

Hora de falar sério, o velho índio junta os pés, todos se calam e de cabeça baixa o ouvem. Fala do seu sentimento com voz pausada, dos sonhos voando nos cabelos brancos. Os olhinhos apertados brilham, ele passa às gerações futuras como ser sempre índio krahô. O índio mais novo sabe onde estão os nós, é preciso desatá-los um a um, diz ele e eloqüente dita os passos sob os olhares atentos, nada se perde.

A riqueza maior do índio krahô são os filhos, eles garantem a perpetuação da nação krahô e assim as crianças são tão importantes quanto os velhos, todos participam das brincadeiras, o respeito pelo outro se faz em tudo.

Na reunião da manhã a esposa do cacique não pode comparecer, este ouve tudo atentamente, opina e se vai. No dia seguinte demora a aparecer, lhe pergunto o que aconteceu, ele calmamente diz:

- Fui durmi muito tarde, a lua já alta...

Insisto:

- Mesmo, perdeu o sono?

Ele traga o cigarro e com voz firme responde:

- Não, foi purquê minha muié num tava na runiao e ai tive que contá pra ela tudo cunversa lá, ela gosta saber tudo que fala todo mundo...

A seriedade na convivência entre eles se vê na voz firme do cacique, é na importância dos detalhes que deixam transparecer esse respeito.

Um índio tem a esposa doente, leucemia. Sofre com ela, tem os olhos tristes, pede aos deuses para curá-la e a trata com um carinho especial como se fosse uma criança...

A índia Pokwýj amamenta o filho, o leite é farto, os bebês passam o dia dependurados nas mães. As crianças não recebem ordens, apenas pedidos. Quando questionada sobre o castigo dos filhos, a índia diz séria:

- Foi papã (Deus) que deu, não pode maltratar a criatura que papã deu, saiu da barriga, eu não espanca a criatura que papã dá, eu cuida dele!

Fomos pescar, eu,Xorxor e Abílio. Sol quente, poucos peixes, só eu conseguia fisgar algum pequeno de vez em quando e exibia para os dois que me olhavam desconfiados de longe.

Daí alguns minutos Xorxor senta bem perto de mim calado e continua pescando. Ouço algo se debatendo dentro do mocó dele, curiosa pergunto:

- O que está mexendo ai?

Ele deita de tanto rir e depois exibe o peixe grande que havia pegado, assim mostrando vantagem em sua pescaria.

Dia de festa, o Kã está lotado de índios, todos juntos sempre em círculo iluminados pela lua que nasce. Começa o ritual: um índio alto, cabelos longos, semi nu sacode o corpo marchando pra lá e pra cá, a voz forte canta na língua krahô um som que enche a aldeia, é um clamor aos céus. Outro velho índio faz um chamado cantado, sua voz é marcante, repercute em toda a aldeia e outros vão se juntando ao círculo. Vozes femininas fazem segunda voz e os sons adentram pela noite, um espetáculo se faz sob olhares e ouvidos atentos...

Trouxe comigo o olhar apaixonado do índio pela vida, a firmeza na voz buscando ser feliz na íntegra. A continuidade da etnia se faz no olhar que vê a beleza interior, na escolha do macho que vê a fêmea na grandeza dos seios prometendo mais leite para amamentar os filhos, enchendo a aldeia do mesmo sangue...

A jovem índia olha os músculos do moço, a força para plantar a roça e não seus cabelos negros que brilham seduzindo ao sol; no olhar criança ela imagina a perpetuação de sua raça...

O suspiro do índio, o olhar desconfiado da índia... Todos buscam o sonho, querem preservar a memória, numa vida livre, sem regras, sem horários,nas suas terras e águas sagradas.

Não há pressa, há uma harmonia ameaçada pelos costumes civilizados que invadem a aldeia diante do olhar sereno e forte do cacique impondo a conservação da cultura de seu povo.


Sinvaline, aldeia Krahô, novembro de 2006

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A famosa pescaria zoom
A famosa pescaria
Índio Xorxor mostrando sua obra (as ilustrações) zoom
Índio Xorxor mostrando sua obra (as ilustrações)
Indio Tito zoom
Indio Tito
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Cacique, eu e as crianças
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Mostrando a palmeirinha que segundo os krahôs é afrodisíaco

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