Apresentação de "QUASE NADA..."

AMAZÔNIA - celeiro de artistas variados, abandonados e ignorados por quase todos
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"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA
11/12/2007 · 184 · 21
 

Considerações sobre "QUASE NADA..."
Em se tratando de livros 'QUASE NADA..." será a primeira publicação deste Autor, embora já tenham sido lançados em edição artesanal (em xerox) os livretos "Palavras ao Vento" -- de poesias, com 200 cópias, em Belém, 1985/87 -- e um "Quase Nada" com variados textos (músicas, crônicas, poemas, contos, ilustrações), este último com tiragem de 80 exemplares, entre 1988/1990.
Minha obra atual contém apenas contos, englobando o que de melhor produzí nos últimos dez anos, boa parte deles com pitadas de non-sense e de absurdo, mas algo também baseado em minha vivência no que ainda resta da outrora exuberante Amazônia, em 24 anos de convivência com suas coisas, pessoas, hábitos e... tradições.

Os originais de "QUASE NADA..." se compõem de 95 laudas com 36/38 linhas datilografadas em espaço 2, papel ofício A4, com 70/74 toques por linha. Constam do futuro livro os 25 contos abaixo discriminados em breve RESUMO, além de prefácio do próprio Autor e uma Apresentação (ou Crítica), estando previstas capa/contracapa em policromia.
SUMÁRIO
01 - MANJAR CELESTIAL - os primeiros missionários que povoaram o Brasil enfrentaram muitos inimigos; pajés invejosos, costumes adversos, as tentações da carne e também fiéis... canibais. Frei Barnabé Tello lutou para superar tudo isso.

02 - UM PRESENTE ESPECIAL - a vida nos garimpos pode mudar de um dia para outro mas, mesmo assim, sorte e azar são como irmãos siameses... andam sempre juntos !

03 - O IMPASSE - o terreno atrás da igreja-matriz era só um brejo, contudo os dois fazendeiros mineiros viviam às turras por causa dele. Nem o vigário local conseguiu resolver a pendenga. Foi preciso contratar um Juiz de Paz de outra cidade para desfazer o impasse.

04 - TIRO E QUEDA / QUEDA E TIRO - a partir de fatos e notícias do dia-a-adia, principalmente de jornais, surgem minicontos onde o inverossímil impera e a fantasia é mais real que a própria realidade.

05 - A ÚLTIMA CHANCE - jogos de azar são a única oportunidade que a maioria tem de mudar de vida. Um jovem nissei também teve, com a Lotomania, sua derradeira chance. Só mesmo um terremoto (no Brasil ?!) poderia arrasar sua sorte.

06 - MERCADORIA DE NATAL - dezembro é tempo de visitar amigos e parentes que não se vê durante o ano inteiro. É Natal... tempo de vender quase tudo, inclusive um filho !

07 - O FANTASMA DO SINO - estradas, à meia-noite, são terreno propício para o surgimento de almas penadas, bruxas e fantasmas. Dessa sina não escapam nem as rodovias amazônicas.

08 - O LABIRINTO - "quem tem um, não tem nenhum", diz velho ditado popular. O aposentado Orinaldo pensava assim, quando invadiu o lote desocupado de um seu vizinho de posses. Recebeu em troca uma lição i-nes-que-cí-vel.

09 - MINIDRAMA EM 2 ATOS - temas distintos em dois minicontos com um pé no fantástico e final-surpresa.

10 - UM SINAL DO ALÉM - os deuses sempre escrevem certo mas nos negamos a ver seus sinais. O "médium" Dr. Nicolau cometeu o maior êrro da sua vida ao desdenhar o jovem pivete "Didi". Ah, se arrependimento matasse!

11 - O SAL DA TERRA - finalmente a centenária castanheira tombou, ferida por machados e serras elétricas. Morreram com ela os sonhos e os devaneios sentimentais de meia cidade, soterrados sob cimento e pedras.

12 - O ÚLTIMO PESADELO - curtindo a sesta debaixo de frondosa mangueira o caboclo parauara sonhava feliz. Acordou apenas para assistir ao maior pesadelo de sua existência.

14 - SOLUÇÃO CRIATIVA - definitivamente, o Céu estava uma bagunça e nem o Criador conseguia dar um basta naquela baderna. Então, Deus convocou São Pedro, que intimou São Benedito, que reuniu o pessoal... daí, surgiu a solução!

15 - MANCHETE FATAL - êle "bolara" e executara o crime perfeito. Houve apenas um senão... a manchete fatal !

16 - O "RABO" DO TATU - uma curiosa estória sobre caçadas, tatus, caboclos, seus patrões da cidade e de como preconceitos arraigados influenciam a vida de quase todos, no interior.

17 - CINEMA DE VANGUARDA - êle foi prestigiar o cinema nacional, nos anos 70, num pulgueiro em Botafogo. Quase apanhou do "lanterninha" e acabou sendo atropelado pela "carrocinha".

18 - O ETERNO COMBATE DOS VENCIDOS - breve alegoria a respeito da medicina, sobre médicos e sua luta para salvar vidas.

19 - A ÚLTIMA CEIA - o imperador Nero estava intrigado: seus magníficos leões recusavam-se a devorar escravos africanos. Sua Majestade ordenou que descobrissem porquê !

20 - PAISAGEM AMAZÔNICA - todos se foram, só êle ficou ali, entre matas e águas. Mas, a bem da verdade, nem êle estava lá !

21 - BENÉ, O "DENTE DE OURO" - nas Minas Gerais dos inconfidentes "Bené" era somente um jovem escravo a serviço do ideal de libertar seus irmãos de côr. Até que seu senhor descobriu...

22 - O OLHAR PENETRANTE DA NOITE - a Noite na floresta tem alma, olhos hipnóticos, mãos geladas e sussurra convites aos mais incautos.

23 - REVELAÇÃO DO ANO - o marceneiro desesperançado decidiu mudar de ramo e de vida. Pelas mãos de seu casal de filhos de 10-12 anos virou pintor, artista de renome nacional e, por fim, criou uma ONG milionária para formar no morro outros tantos "gênios" mirins.

24 - UM ASSASSINO EM POTENCIAL - os passarinhos da garotada do vilarejo estavam sumindo misteriosamente. Era preciso achar o ladrão o mais rápido possível... e matá-lo, se necessário.

25 - JARDIM DE SONHOS - metáfora lírica que versa sobre os amores (platônicos ou verídicos) do Autor quando jovem.

26 - "CONTOS" DE UM CANTO... SÓ! - mantendo o "estilo" iniciado em Tiro e Queda, trata de re-visões do dia-a-dia do homem comum, além de textos nascidos das notas & notícias (re)tiradas de jornais e revistas.
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HISTÓRIAS COM SEIVA DE BRASIL
Nelson Hoffmann

Como foi não me lembro, mas contaram-me, há tempos:
- Olha! Tem um cara, lá no Pará, que é fã de tuas letras.
Fã? Essa era boa... Quem seria?
Passaram-me nome e endereço. O nome, Cincinato Palmas Azevedo, era-me estranho; mais estranho ainda ficou-me o nome da cidade: Ananindeua. Em todo o caso... É tão difícil encontrar leitor!
Escrevi-lhe.
E foi o desate de um turbilhão. Senti-me, de repente, num redemoinho. Fui envolto em rodopio, eu não sabia o que estava acontecendo. Parecia-me alucinação, eu estava sendo arrastado, tragado, para um mundo inexistente. Sobre mim desabaram informes, informações, notícias, panfletos, recortes, jornais, revistas, excertos, desenhos, cartuns, fotos, cartões, um mundo fantasmagórico. Velho barranqueiro do Ijuí, eu não concebia o mundo que se me apresentava. E vieram poemas, poesias, trovas, reportagens, crônicas, contos, tudo instruindo-me sobre uma Amazônia que não viajava na mídia oficial. E tudo era-me enviado por Cincinato Palmas Azevedo, grandíssima parte de sua própria autoria. E o que não era, confirmava o autor.
Cincinato Palmas Azevedo é escritor e assina como Nato Azevedo. Carioca de nascimento, perambulou por este país quase inteiro. Vida de andarilho e alma de cigano, tanto rodou por aí que, um dia, foi dar com os costados na longínqua Belém do Grão-Pará. Lá, por endereço, fixou a cidade de Ananindeua, na região metropolitana, onde reside.
A formação literária de Nato Azevedo é de mundo e não de academia. Suas leituras são de revistas em quadrinhos e de aventuras e nada têm de canônico. De nossa elite intelectual, simpatiza com Monteiro Lobato, Aluísio Azevedo e alguma coisa de Coelho Neto. Prefere Jorge Amado a Machado de Assis. Deste, no dizer do próprio, pode ser que vá levar alguns volumes em meu esquife, talvez assim...
Assim é Nato Azevedo, um escritor brasileiro. Veterano de mil peripécias literárias, e outras nem tanto, o autor está lançando “Quase Nada...” , um livro de contos. Este é uma reunião de alguns dos seus melhores trabalhos, muitos já publicados, acrescidos de um bom número de inéditos.
Os contos de “Quase Nada...” espraiam-se pelo Brasil e não são todos rigorosamente contos. Alguns ingressam no terreno da crônica, outros tecem comentários, terceiros adentram o relato de experiências vividas. Mas, todos são histórias que prendem o leitor até o fim. Esta, aliás, uma característica muito forte: o suspense dos textos, sempre com um impacto final.
As histórias de Nato Azevedo podem ser distribuídas por três cenários: a) de fundo histórico, b) de ambientação urbana e c) de paisagem amazônica. Alguns outros extrapolam a divisão, o que serve para confirmar a base.
As histórias que visitam a nossa História desenvolvem-se em períodos bem diversos e focam assuntos os mais diferentes. Assim, temos o canibalismo e a atuação missionária dos padres em “Manjar Celestial”, o surgimento do nome da cidade mineira de Juiz de Fora em “O Impasse”, a escravidão e a mineração em “Bené, o Dente de Ouro” e outros. E é de chamar a atenção para “O Sal da Terra”, um belo relato da simbiose terra-gente do Grão-Pará, centrada na árvore-símbolo, a castanheira.
Já na ambientação urbana, as histórias acontecem, de preferência, em cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo. A ação de “Manchete Fatal” desloca-se, em movimento de vaivém entre as duas cidades, o que é fundamental ao desfecho. “A Última Chance”, por sua vez, acontece inteira em São Paulo e foca um problema tão nosso conhecido: a febre das loterias, horóscopos, cálculos, rezas, palpites, benzeduras, mandingas, tudo por uma chance na sorte grande. Mas, “Um Sinal do Além” e “Cinema de Vanguarda” são destaques da vida urbana carioca. Situadas na década de 70, tem-se reflexos, conseqüências e produtos do regime político implantado em 1964, do início da tevê, da agonia do cinema nacional. A proliferação de seitas religiosas, a massificação da comunicação, a resistência por uma arte nacional é um pouco do muito que aparece. E a total ignorância de nossas elites na apreciação de uma obra artística é desmascarada em “Revelação do Ano”.
O melhor da obra de Nato Azevedo, porém, está nas histórias que envolvem cenários amazônicos. Ali o autor é vigoroso e está em casa. Como vem do Sul, tem olhos para ver e ouvidos para ouvir e nariz para cheirar e tato para apalpar e gosto para sentir nuanças que o caboclo da aldeia não percebe. Como tem vida e mundo no lombo e muita argúcia na cabeça, o autor nos conta histórias que raiam pelo absurdo e são de pura humanidade. A gente sente uma gratificação toda especial com o final feliz de “Um Presente Especial”; participa da epopéia dos transportes rodoviários em plena selva amazônica, com “O Fantasma do Sino”; e sofre a angústia de quem mora nessa “Paisagem Amazônica”. E o ser humano integra-se/desintegra-se, funde-se inteiramente com a selva, a natureza amazônica, em “O Olhar Penetrante da Noite”. A Amazônia é um redemoinho, um turbilhão que arrebata, prende e engole.
Toda essa temática é trabalhada em estilo intencional do autor. Nada de inovações ou pirotecnias. Sempre um modo narrativo tradicional, naturalista: a interação meio x homem, homem x meio. A realidade é subvertida de forma irônica e, por vezes, acusatória. Mas, é sempre muito brasileira, com seiva de Brasil.
Ainda, um último detalhe: o curioso processo de metalinguagem que atravessa todos os textos. O processo diverte e chama a atenção, servindo de esclarecimento, alerta ou questionamento. É uma bem-humorada e inteligente maneira de prender o leitor e instigá-lo a reflexões não previstas.
Nato Azevedo arrastou-me para o seu mundo. Fui sugado como por um redemoinho. E mergulhei numa Amazônia devastada, sofrida, explosiva, primitiva, exuberante, selvagem, judiada, desmatada...
Hoje, Nato Azevedo tem um fã em mim.

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Autor de Eu Vivo Só Ternuras

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C O N F I T E O R (trechos do Prefácio original)
(...) Sinceramente, não sei porque escrevo! Alguns dos grandes nomes de nossas letras já afirmaram que o fazem por angústia. Outros mais, quando o momento de inspiração os invade e a vontade de escrever se torna irresistível. Affonso Romano de Sant'Anna deixou para a posteridade definição magistral:
"quem escreve, o faz para não morrer; quem lê, lê para imaginar que vive" !
De minha parte, o que me move são dois sentimentos tanto opostos quanto indistintos. O intuito, mesmo velado, de apontar êrros, de corrigir o Mundo e, paralelamente, um desejo sutil de "vendetta" diante da impotência (ou inconsciência) geral frente aos fatos da Vida.
Escrever se torna bem menos prazer e lazer do que desabafo indignado (e, por vezes, virulento) por tantos "sapos" e "pepinos" que o Destino nos põe no prato da existência, mesmo quando se está farto. (...)

Por que escrevo... quando na realidade deveria estar procurando um trabalho ou uma ocupação que me desse o sustento? Por que escrevo... se acredito, como o personagem de William Shakespeare, que "palavras são palavras e nada mais que palavras"? Por que escrevo... se sei que os livros não mudam sequer as pessoas, quanto mais esse vasto e miserável Mundo? Por que escrevo... se ninguém (exceto eu mesmo) me lê, como sucedeu a tantos antes de mim, como sucederá "per omnia saecula" se o Mundo continuar seguindo seu imutável curso?

Sinceramente, não sei porque escrevo !
Há, é claro, a satisfação do texto bem escrito, do conto bem acabado, com comêço e meio... que o fim é sempre uma incógnita, mesmo para o escritor, acreditem se quiserem. Pode existir até uma pontinha de inútil vaidade, quando momentâneamente se atinge a tão almejada perfeição, mas tudo acaba logo que se fecha a gaveta, assim que guardamos a pasta de originais, registro & memória que só o Tempo tocará dali por diante, com seus dedos apodrecidos. (...)

Para o bem ou para o mal a AMAZÔNIA -- seja lá o que o têrmo signifique -- fez de mim um escritor. Numa terra com raras empresas de porte e cujo comércio é essencialmente familiar (com emprêgo de parentes próximos e seus agregados) nos sobra a todos um imenso tempo para não se fazer nada.
Quem não é empregado de alguma entidade oficial (federal, estadual ou municipal) está literalmente "na rua da amargura", vivendo de expedientes, com ou sem aspas, muito embora numa terra tradicioanlmente "de meio expediente" o "dolce far niente" é geral depois da "meia hora", como se diz por aqui. (Bem, após os dois parágrafos acima, sei que já perdi quase todos os leitores fanáticamente paraenses !)

De qualquer forma, bom, razoável ou ruim, sou um escritor... que me importa se isso pouco ou nada signifique? E, no coração da Amazônia, cuja "capital" é toda arborizada com exemplares que a floresta original não possui, faço destas páginas meu "confiteor", numa visão que pode parecer a alguns parcial ou apressada mas que é visceral e legítimamente minha, sem empréstimo de opiniões (ou de obras) alheias. Um trabalho quase tão árido quanto esta devastada Amazônia, decantada em prosa e verso, cuja exuberância se imagina mas não se vê. Sou um escritor amazônico, quer isso me agrade ou não, mas (ainda) não amazônida porque esta agradável vivência próximo (ou dentro) de um pará-íso se transforma, graças a um regionalismo equivocado, numa existência onde as decepções, como as chuvas locais, são diárias, com hora marcada e não falham jamais. (...)

Aqui estou... e, este livro, que camufla em despretenciosos "contos" muito mais da minha vida (e dessa estupefaciente experiência) do que eu gostaria, tem a decidida intenção de registrar o sucedido. Claro está que, como criador, é meu dever moldar o real, dar-lhe nova roupagem e "com a liberdade que o devaneio proporciona" (obrigado, João de Jesus Paes Loureiro!) redirecionar uma realidade mesquinha e por vezes angustiante para o terreno da arte literária, da metáfora, do imaginário.

É do poeta insígne de "Altar em Chamas", mais amazônida do que nunca, a explicação definitiva: "Na cultura paraense-amazônica o ilógico explica o lógico, o possível revela o real, o devaneio torna-se meditação, a relação maravilhada com as coisas converte-se em método criador. A arte no Pará é o lugar privilegiado dessa TRANSREALIDADE, que está no âmago de nosso pensamento, como coincidência de opostos: do real e o imaginário. (...) A realidade torna-se incrível e o imaginário credível. Vivendo no particular, temos o prazer do desmedido". (in "Arte e Desenvolvimento", pag. 20, Cadernos IAP, vol. 2, Belém/1999)

"QUASE NADA..." é um modesto escrito, sem pretensão à grande obra literária, de um Autor que só estudou até o 2º ano do antigo Curso Ginasial (agora, 6ª série). Entretanto, nem por isso deixou de aprender na "universidade da vida", que dá conhecimentos mas não confere diplomas.
Hoje, sou espécie de coruja de olhos arregalados para os seres (e os fatos) da Vida, tentando se possível fazer alguma prêsa. Se você vai aventurar-se por entre estas "espinhosas" páginas esteja atento mas, mesmo assim, chegará ao fim da jornada com alguns "arranhões". Em certos casos, deixará pelo caminho algum pedaço... do cérebro ou do coração.
Siga em frente! Contudo, cuidado com os cachorros... êles costumam ser mais humanos que seus donos e isso é insuportável !

ANANINDEUA, Pará, BRASIL, dezembro de 2000

"NATO" AZEVEDO

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M E M O R A N D U M:
"aportei" em Belém do Pará na madrugada de 9 de dezembro de 1983... às 4 e pouco da manhã. Esperei sentado até as 6 hs para ligar para a esposa de meu irmão rico (minha cunhada?!), porque eu estava sem dinheiro para o táxi.
Autorizado, fui para a fila dos táxis, 10 ou 15 enfileirados... um deles arrancou a mala de minhas mãos e a levou para um carro lá no fim da fila. Os demais me "peitaram", queriam que eu fosse buscar a bagagem de volta. Ainda não conhecia o Estado, disse-lhes com frieza que êle que a trouxesse de volta.
Foram uns seis brutamontes para lá, arrancaram o cara e a mala no tapa e me botaram no primeiro veículo, rumo ao bairro do Jurunas, onde a esposa do mano me recebeu na rua quase nua.

Assim começou minha aventura amazônica... cheia de desventuras e aborrecimentos sem conta, a maior parte deles desnecessários e que denigrem o nome do Estado e a tradição de hospitalidade de seu povo, de boa parcela dele, pelo menos.
Passados HOJE exatos 24 anos neste "prrá-íso" o que ainda me motiva e comove nestas terras é a certeza de que não há no Brasil inteiro outra região com tantos e tão variados talentos artísticos natos/naturais, não aprendidos em escolas ou cursos específicos.

É impressionante a quantidade de pintores/escultores/artesãos da palha e do barro/músicos e escritores de todos os gêneros que nascem/crescem/morrem sem um mínimo de atenção e apoio de seus Prefeitos, sem nenhum interesse da parte de vizinhos e dos demais moradores de cada localidade.

São hoje 143 ou 144 municipios e praticamente EM NENHUM há quadros ou obras de arte de seus munícipes nos prédios públicos, nas escolas dos bairros, EM LUGAR ALGUM DA CIDADE. Escritores e poetas morrem à mingua, enquanto se gasta o ano inteiro com bailes & bingos regados a muita bebida, esse nefasto trio que atrasa o pregresso deste Estado, muito mais do que Prefeitos/Secretários corruptos, outra praga de monta por aqui.

Se um dia as coisas mudarem, a AMAZÔNIA poderá esportar CULTURA e não mais madeira ou bois ou ervas ou qualquer outro produto que não seja arte e talento e criarividade. OREMOS !

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 9/12/2007 17:37
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A D E N D O:
A história do taxista acabou contada num desenxabido "cordel" -- cujo título era O INFERNO DA CASA PRÓPRIA -- com o qual concorri no Edital 001/1990 da SECULT estadual, com a promessa de edição dos 3 melhores trabalhos.
Meu amigo e parceiro de dupla sertaneja (na mesma época) ABIEZER Eleutério da SILVA foi um dos vencedores... jamais foi publicado. Essa falta de palavra dos órgãos oficiais é um comportamento constante em Belém, atitude que parece não envergonhar prefeitos e nem seus Secretários ditos cultos.
Aqui em Ananindeua, 3º município em arrecadação no Estado, a PMA me negou míseros R$ 160,00 em 2005 para que o logotipo dela constasse em uma coletânea com um poema de minha lavra, no RS, verba essa prometida durante 3 meses.

A seguir, trechos do desarvorado "cordel" sobre as agruras de se conseguir uma casa própria e o inferno que segue para mantê-la:
I I I
Chamado por amigo cá do norte
que inistiu co'o cara um ano inteiro
um sujeito largou o Rio de Janeiro
onde tinha um barraco de bom porte
e mais praia, bom samba, muito esporte.
Chegou tomando chuva de verdade
desde que poz os pés nesta Cidade.
Assustou-se já na Rodoviária
quando um cara com cara ordinária
lhe arrancou a bagagem com vontade.

I V
Disparou o homem com ela pr'um carro
parado quase lá no fim da fila
e a galera da frente intranquila
imprensou o turista noutro carro.
-- "Mocinho, você está tirando sarro
com "motora" de táxi tarimbado.
A gente 'tá contigo muito irritado!
Tire a mala daquele indecente,
bote ela no carro lá da frente
se não vais sair daqui embolachado"!

V
O carioca achou tudo muito estranho
mas pensou: "cada terra tem seu 1stilo".
Foi falar com o cara sobre aquilo
sem saber da confusão o tamanho.
O "motora" vaciluo... (e se eu apanho!)
Devolveu sua mala sem problema.
Assim terminou este dilema!
Seguiu no carro até a redondeza
para a casa do amigo (que beleza!),
a mansão parecia de cinema.

V i
O "barão" o recebeu bem constrangido.
Logo botou o amigo "no batente"
junto com um pedreiro competente
prá trocar o ladrilho envelhecido.
O carioca quedou estarrecido
porque o outro era quase um irmão
e agora parecia (essa não!)
o Diabo disfarçado em gente boa.
Virara um ricaço bem à toa,
pão-duro, prepotente, espertalhão.

V I I
O amigo rico só pensava em dinheiro
e comprou um sítio no interior.
Era mato, cobra e muito calor,
areial, escorpião e formigueiro.~
l
Lá não tinha sequer um fogareiro
e nem mesmo um barraco prá morar.
Fazendeiro "benquisto" no lugar
deu pro outro barraca só de lona,
além de lamparina de mamona
e uma latas para o alimentar.

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 10/12/2007 17:27
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Benny Franklin
 

Nato,
Enfim, acabei de ler seu longo texto.
Sua vida exemplifica as demais...; Seus escritos
têm a amargura e a ternura aos pés.
Gostei.
É isso... Abração!
Benny Franklin

Benny Franklin · Belém, PA 11/12/2007 01:23
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Lili_Beth*
 

Querido Nato;

Tenho que retornar à luz do dia... Guardarei com meu Amor_Amigo.
Estou perplexa com QUASE_TUDO. Admirável sinopse de uma Obra de Arte!
Um de meus trabalhos que retratam: "Jóia é Arte". Representou o Brasil por esse mundão de Meu Deus, com ícones tribais. Trata do NADA que é Tudo. Quando a Arte chega a ultrapassar o artista é porque eles já se confundem e a presença do artista é dispensável. Penso que o difícil é exatamente isso... Deixar a Obra seguir estrada, sendo TUDO e suportar o ser NADA, do Artista. Mas quando Volpi pintou o Branco sobre o Branco... Foi para despojar-se dele em NADA. Cada peça, nessa mostra, era acompanhada de uma história_estoriada. Estou caminhando en_cantada por cada um de teus textos. Viajando com eles... Empolguei-me com as maravilhas. Onde estão as obras Completas desse meu povo amado e gentil?

Beijos_Meus*
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Lili_Beth* · Rio de Janeiro, RJ 11/12/2007 02:43
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crispinga
 

Publicado, querido! Que seu livro seja um SUCESSO!
Beijos
Cris

crispinga · Nova Friburgo, RJ 11/12/2007 12:53
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Andre Pessego
 

Nato, meu conista, observador de olhar profundo
Seja como for, crie um meio - conta corrente pare receber deposito etc. correio.. eu quero o meu exemplar garantido,
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 11/12/2007 15:05
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HUUMMMM... não convidei ninguém de Belém com receio de que o ufanismo local enuviasse a compreensão do texto em si. Não nego que é de protesto, mas não há uma vírgula a mais além do que sucedeu realmente. Se cada caso fosse narrado como fato eu passaria por mentiroso, tal o ABSURDO de algumas situações vividas por meu irmão e eu nesses 24 séculos... digo, anos! Grato pela visita! Retorno o... Abração !

Dona LILI... "vosmecê" escreve bem para cacete, apesar desse _ meio irritante em certos momentos, embora personalíssimo e oportuno quase sempre.
Não entendi (!?) seu e-mail para mim mas a mensagem acima é clara como fonte cristalina e nos alimenta da mesma forma. Grande comentário, criativo e lírico... quase tudo em QUASE NADA ! Bjs,

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 11/12/2007 19:40
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CRIS, minha enfermeira internacional... que prazer é revê-la! E logo classificando meu texto! "Bigado" moça !

Doutor ANDRÉ... pêssego/maça/morango/abacaxi! (São as frutas que mais gosto!) Quanta honra! Mas nem sonhe com o tal livro! Se o dinheiro não aparecer pelas mãos do Destino, eu é que não vou me esfolar para conseguí-lo.
Batalhei muito aqui no Pará (entre 1986 e 93) atrás de verbas públicas e vi bem como a "coisa" funciona. Não pretendo perder mais tempo com "editais" de cartas marcadíssimas. Não tenho mais estômago nem coração para essas palhaçadas.
Mas publicarei quase tudo aqui mesmo no OVERMUNDO... e você não precisará pagar UM CENTAVO para me ler. AGUARDE !

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 11/12/2007 19:47
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Lígia Saavedra
 

Nato,meu lord carioca.
Como tudo que escreves são palavras banhadas à ouro essas suas memórias merecem ser lidas por muitos e se depender de mim a propaganda está feita.
Muitos abraços

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 11/12/2007 20:04
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Nydia Bonetti
 

Nato
eu, como André, ia te perguntar como adquirir meu exemplar.
Publicar teu livro aqui é um verdadeiro presente!
Convivi tão perto com esta coisa do artista que não é valorizado em sua terra. Meu avô foi um grande escultor, e nunca foi valorizado na sua cidade. Precisou um prefeito de um outro municipio (São José dos Campos SP) decobri-lo, já no final da vida, para dar a ele uma chance de mostrar seu trabalho. Hoje ele é nome da principal rua de uma universidade lá em São José e na cidade dele é nome de rua na periferia. Infelizmente é assim...
Abraços!

Nydia Bonetti · Piracaia, SP 11/12/2007 20:21
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BETHA
 

Nato,
desejo-lhe muito sucesso.
A indiferença aí no Pará se repete em muitos dos nossos lugares!
Espero também ver o livro publicado, além do overmundo...
abçs.

BETHA · Carnaíba, PE 12/12/2007 11:35
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LÍGIA, flor mais bela dos Saavedra, linda foto essa! Você continua maravilhosa, meu sabiá da Cidade Nova... pode divulgar à vontade, mas não esqueça de AVISAR que se trata de "um carioca que só vive a falar mal do Pará". E não estarás mentindo! BEIJOS,

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 12/12/2007 16:31
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Oi, NYDIA... esqueci de dizer que o jovem na foto é o próprio autor das belas telas, SÍLVIO GUEDES dos Santos, da cidade de Vigia, no extremo norte do Pará, a 120 km de Belém. Tinha na época, 15/16 anos, completamente autodidata em tudo, na música também, (excelente violonista e letrista de futuro), além de escultor, no barro e na madeira.

Fazia serviços de pedreiro e pintor, com o pai, enquanto a "panelinha" na Capital continuava a proteger e premiar sempre "os mesmos", sem 1/3 da criatividade & talento dele. Apresentei-o a alguns locais, expuz trabalhos seus na UFPA e até um diretor de artesãos (da Pça principal de Belém) interessou-se pelo jovem. Me fez trazê-lo para a Capital, com seus quaddros, ficou com 2 deles para mostrar ao Conselho da assoc. de artesãos e devolveu somente um. "Esquecera" o outro num táxi...

Recusou-se a pagá-lo, pressionado por mim foi aos jornais dizer que eu o estava chantageando e que êle pretendia mesmo ajudar o jovem talento. JAMAIS O FEZ! Levei o caso ao PROCON e perdi: a "juíza" aceitou sua desculpa de que não perdera a tela por dolo e êle alegou que... "ERA APENAS SACO DE AÇÚCAR E TINTA BARATA". Assim terminou a estória de divulgação do rapaz. O quadro em questão É O PRIMEIRO na fila inferior, à esquerda.

EM TEMPO: lamento pelo teu pai, reconhecimento pós-mortem é o "fim da picada", viu? NINGUÉM MERECE !

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 12/12/2007 16:44
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Dona BETHA... benvinda a minha humilde "choupana"!
Mas, pior do que a indiferença é o desprezo puro e simples, feito de má-fé e insensibilidade. E contra isso não há antídoto, o artista é prejudicado sem poder se defender.

EM TEMPO.: corrijo a informação sobre o quadro perdido. Era com o mesmo tema/figura, baseado na obra maior de DEJANIRA, o famoso "Abaporu", mas a tela era mais estreita e a figura da mulher montava um cavalo branco trotando nesse mesmo caminho psicodélico. Onde estiver... É ROUBADO !

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 12/12/2007 16:54
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Lili_Beth*
 

Olá Nato!

De volta para uma atenção maior e ver se já constava a data do lançamento do livro Quase_Tudo, mas que por respeito a ti, chamarei de "QUASE NADA..." nessa tua cidade (maravilhosa) natal. Ah! Eis a questão: só me faltam mais algumas explicAções (Evitando o _ inevitável. Um pouquinho só pra te irritar...)
Agora, depois de algumas_poucas explicações, o título, em questão..., fica mesmo QUASE NATO... Muito bom! Um bom designer faz isso, muito mais fácil que as letrinhas azuis... rsrsrs
Então o menino é andarilho, cigano, sabe que tem escola nesse mundão de Meu Deus...
Mas diga lá! Como foi essa recepção de uma jovem senhora quase_nua? É costume e tradição? Teu irmãozinho, provavelmente aprovou essa pública explicAção... rsrsrs
Por qual definição tu te inscreves na proposição: Por que tu escreves?
Curiosidade. Coisa de carioca! Rsrsrs

Ratifico minha certeza de querer ler-te mais.


Beijos_Meus*
*

Lili_Beth* · Rio de Janeiro, RJ 12/12/2007 23:00
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Mansur
 

Eis que essa introdução, ao livro em questão
Deixa aquela água na boca
Apesar de tantas venturas e desventuras
NATO vive de vida, e a vida é mesmo muito louca

Tô aguardando os escritos Nato, esse "observador" que "mora em voce" é extremamente perspicaz, lê-lo é prazer informal, delícia.

Parabéns, grande NATO!

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 13/12/2007 10:00
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azuirfilho
 

Salve Nato Poeta.
Um Trabalho Profund[issimo.
Um orgulho para todos nós e o Overmundo.
Uma Grande Contribuição e referêmcia.
Receba meu humilde voto para sua obra tão completa.
Nosso Compromisso é de que cada obra seja para elevar e libertar nosso povo brasileiro para sua caminhada a uma existência de dignidade, amor, Justiça e Direito.
Parabéns e um abração Amigo.

azuirfilho · Campinas, SP 13/12/2007 10:45
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LILI-BETHINHA querida... aidéia de um "Quase Tudo" é curiosa e atraente, mas considero a literatura em minha vida um "pêso", uma "inutilidade" prazeirosa que me mantém razoavelmente são (em têrmos mentais) mas que vale muito pouco, daÍ o NADA do título. Dizia minha mãe mineiríssima que " escrever não dava dinheiro a ninguém", algo no tipo "falta do que fazer" e ISSO entranhou-se em meu subconsciente.

Mudando de assunto: quase 25 anos aqui e o Pará --- essa parte, pelo menos -- me é um ESPANTO permanente. Continua sendo costume local (chamo de "tradição") andar sem camisa por todos os lugares, desde a manhãzinha, indo à padaria, mercadinhos, levando as crianças aos colégios. São os... DESCAMISADOS !
Mulheres, senhoras já, 50, 60 anos ou mais saem à rua de rua de baixo, transparente mesmo, cueconas aarecendo... uma coisa muito esquisita. Algumas enrolam-se em toalhas, como se saissem do banho e lá se vão fazer compras com "aquilo", parecendo doidas, uma coisa muito esquisita mas comum em todos os lugares.
Citei DE PROPÓSITO o caso da esposa de meu irmão, porque seria o primeiro de centenas que veria/vejo ainda até hoje !

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 13/12/2007 16:51
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CORREÇÕES ao texto acima: 1) roupa de baixo (...) aparecendo, etc

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 13/12/2007 16:54
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MANSUR... a Vida pode ser muito louca em tantos e tantos lugares mas, no Pará, é também muito PERIGOSA. Mata-se por qualquer coisa e por nada, dívidas de 1 real, partidas perdidas de sinuca, cervejas não pagas, uma bicicleta velha roubada.
Um povo tido como pacato e hospitaleiro parece só saber resolver qualquer assunto na pedrada e/ou na paulada. É espantosa a agressividade natural (?!) de quase todos, uma coisa inacreditável para quem vive há pouco tempo no Estado. Adiante, a gente "se acostuma" e toma sempre cuidado com cada passo que dá.

AZUIR, não sei se esse trabalho é um grande orgulho para o OVERMUNDO... mas tenho em mente que cada palavra minha seja absolutamente verdadeira, independente das mágoas que tenho com a Vida aqui e com minha própria existência.

"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 13/12/2007 17:05
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touché
 

Amigo Nato, acompanho há tempos suas colaborações na imprensa alternativa e entendo suas (re)voltas..não sou inteligente o bastante prá me aprofundar no teu texto,é um mundo desconhecido prá mim e sou lento prá entender as coisas novas. não sei votar aqui,como faz ? abraços do amigo touché

touché · Guarulhos, SP 2/3/2008 02:34
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