Todo mundo já ouviu a história de alguém - um tio, um vizinho, um personagem de novela - que saiu pra comprar cigarro na padaria e nunca mais voltou. A peça 121.023J, em cartaz no Teatrix, revoluciona esta história ao falar sobre um jovem que saiu de casa para comprar, em vez dos cigarros, pão. Mas a revolução pára por aí: trata-se de um espetáculo que nos mostra, ou melhor, nos relembra tudo o que já estamos cansados de ver sobre campos de concentração, sobre preconceitos, sobre a guerra. São os mesmos campos de concentração da Lista de Schindler do Spielberg, d'A Vida é Bela do Benigni e até mesmo o da Olga, do noveleiro melodramático Jayme Monjardim.
Na trama, o rapaz em questão é surpreendido na rua por um soldado nazista que o prende, e sem saber do que está sendo acusado, é levado a um campo de concentração. Qualquer semelhança com O Processo de Kafka é mera forçação de barra de alguns textos que li por aí, de autores preguiçosos que sequer se deram o trabalho de ver o espetáculo para perceber que a acusação seja talvez um dos pontos menos explorados no espetáculo. Na dramaturgia, o elemento mais curioso é o personagem que interfere no pensamento do protagonista o tempo todo, em um diálogo improvável que amarra todo o espetáculo no final (dá vontade de contar, mas eu vou me segurar). Mas que não é suficiente para que o texto que Renata Jesion escreveu inspirada na vida de seu pai traga algo de realmente inovador.
Os elementos que dão a maior força ao espetáculo são, na verdade, os recursos cênicos e lúdicos utilizados na encenação. Aviõezinhos, maquetes, mini-beliches e pequenas cerquinhas de arame farpado dão conta de trazer um bocado de novidade para um universo já tão explorado. A excelente e criativa utilização destes elementos complementa o desempenho do elenco encabeçado pela própria Renata Jesion, que cria um personagem cômico distanciado do universo tratado, gerando um estranhamento e um desconforto tão pertinentes que ajudam a minimizar a sensação de dèja vu (embora em alguns momentos seja praticamente impossível de não se lembrar de Benigni).
No final das contas, vale questionar a forma como o passado recente da humanidade vem sendo contado com base nas mesmas referências (que eu não saberia dizer quais são). Logicamente é sempre importante que a arte se proponha a discutir e a observar o mundo em que ela se insere, mas é desejável que ela seja sempre renovada, em sua formaou conteúdo, para não correr atrás do próprio rabo. Nestas horas, particularmente prefiro alguma dramaturgia mais ousada ou uma encenação que ao menos compense essa falta de ousadia.
Publicado originalmente na Revista Bacante.
Maurício Alcântara · São Paulo, SP 27/6/2007 14:13Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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