No segundo dia do projeto palco giratório do SESC, ouvi de um jovem ator sergipano, dirigindo-se a um colega:”Vá assistir ao espetáculo “O Dragão” da Cia. AMOK, é imperdível, foi o melhor a que assisti até este momento da minha vida.” (fecha o pano)
(abre o pano) No último dia do encerramento do palco giratório, conversando com uma jovem atriz do teatro sergipano, ela propôs nos encontrarmos antes da apresentação de “O Dragão”, para conversarmos sobre um projeto que estamos empreendendo.
(depois desse diálogo, vejo no fundo da cena aberta dentro da minha mente o seguinte:) “É incrível a força que as coisas têm quando elas precisam acontecer.”
E, para confirmar essa afirmativa, a quarta-feira foi o dia escolhido pelos professores de todo o Brasil para realizar uma paralisação em favor de mais investimento em educação, terceira razão para motivar minha ida ao teatro naquela noite.
Dito isto, lá vou eu acompanhado da minha filha de 15 anos ao teatro Tobias Barreto para assistir a “O Dragão”.
NAS ENTRANHAS DO DRAGÃO
Ao sentar na poltrona, os atores já estavam em cena e dialogando em árabe. Minha filha disse logo que chegou: “Se os meus colegas estivessem aqui, estranhariam bastante”, ao que respondi : “não só eles...”
Logo depois, os diálogos começaram em português. A trama é construída com base em depoimentos pungentes e dolorosos. Os atores conseguem nos transportar para dentro do coração das mães e jovens palestinos que perdem tudo, inclusive os sonhos e a vontade de viver.
O depoimento do jovem palestino que descreve a morte de toda uma família de civis, inclusive de diversas crianças, é lancinante.
Em um dado momento, quando descreve um menino correndo de um míssil, que parecia ter olhos, cria-se em nossa mente um quadro tenebroso.
Outro momento doloroso é quando o protagonista refere-se a uma pedra encharcada do sangue de alguns de seus amigos e parentes.
Dessa família, o único sobrevivente emudeceu e ficou com o olhar distante, mirando o horizonte por sobre o local outrora perfilado por inúmeras casas e gente cheia de vida.
A mãe descreve alguns aspectos do cotidiano do filho que encheu seu corpo de bombas e o fez explodir em um ônibus cheio de civis israelenses. Em dado momento, a mãe faz a leitura de uma carta com palavras que ferem como navalhas nos rasgando a carne. Fora deixado pelo filho, e lhe tinha sido entregue por um membro de uma das várias organizações que compõem a jihad islâmica.
Um momento impactante no depoimento da mãe foi o bombardeio da aviação israelense sobre uma área residencial de um vilarejo palestino.
Para completar o ataque, promoveu-se, por meio de escavadeiras, a destruição do que restou, levando e enterrando pessoas vivas em meio aos escombros. Após a saída das escavadeiras, ela disse que os coveiros não reviravam a terra para enterrar os mortos, mas para trazer os corpos inertes de quem estava nos escombros.
Na segunda parte, o texto reflete sobre o drama dos civis israelenses. O primeiro depoimento é do motorista israelense que ficou paraplégico no mesmo atentado que vitimou o jovem homem-bomba palestino e civis israelenses.
Da mesma maneira, uma mãe israelense, que perdeu sua filha no mesmo atentado, encerra o espetáculo lançando um conjunto de palavras que saem do fundo d’alma de todos aqueles (as) que desejam e constroem a paz.
Reafirmou o que milhares de civis palestinos e israelenses dizem: “Esta guerra insana não tem sentido, faz sofrer principalmente as mães e as crianças dos dois lados do conflito. Os dois povos precisam aprender a aceitar que tantos israelenses e palestinos têm o direito de viverem em paz” (palavras minhas com base naquilo que retive na memória).
(Fim da apresentação) Elenco aplaudido de pé. Depois, um aviso: “ quem quiser permanecer para um bate papo com os atores aguardem cinco minutinhos .”
DESNUDANDO O DRAGÃO
Dito e feito, fui o primeiro a fazer perguntas: “Como se deu o processo de criação dos personagens, como foram realizados os estudos e pesquisas neste sentido? Alguns atores e atrizes estiveram pessoalmente na região do conflito?”
Um dos diretores, Stephane Brodt, respondeu que além das muitas leituras e conversas com estudiosos sobre o assunto, e entrevistas com pessoas de origem israelense ou palestina, eles utilizaram bastante a internet. Que maravilha! Pensei com meus botões, entusiasmado que sou pelo imenso potencial de humanização que a internet pode proporcionar e, pasmem : (a surpresa) nenhum dos atores e atrizes tinham se deslocado até a região do conflito !
Ou, em palavras mais poéticas : “ O que trouxeram à tona é o israelense ou o palestino que está dentro de cada um deles e de cada um de nós”, lembrando-me do que disse, certa vez, a uma pessoa que postou no facebook um comentário de que estava cansada de ser ela mesma, sempre a mesma pessoa. Sugeri: “Faça teatro !” E o paradoxo: a jovem é uma atriz em fase de formação
A segunda pergunta que formulei se referia à receptividade do espetáculo pelos palestinos e israelenses. A resposta foi de que tem sido sempre positiva, mesmo com momentos de certa tensão, principalmente com a comunidade judaica. Por outro lado, a comunidade palestina, radicada especialmente na região de Foz de Iguaçu, recebeu muito bem o trabalho.
Houve outras intervenções importante como, por exemplo, a forma impactante como a música está presença no espetáculo. O comentário do diretor, foi que a música, tanto a de origem árabe como a israelense, participam do espetáculo como um quinto elemento ou um quinto personagem. (abrindo um parenteses) A música árabe/palestina traz à tona sentimentos de dor e sofrimento daqueles povos.
Outra lembrança trazida pela música de Israel, foi referente às danças circulares israelitas, que aprendi com William Valle e Alvaro Pantoja, melodias e trançados coreográficos, belos, alegres e, ás vezes, com pitadas fortes de melancolia. Desde que as conheci, passei a admirá-las, mas, vez em quando, irrompe a pergunta que não quer calar: “Por que um povo capaz de criar coreografias e melodias saborosas e alegres é tão belicoso?”
Durante o espetáculo, outra constatação e perplexidade: “Oh ! Israel, porque impõe a seus irmãos palestinos o mesmo que sofrestes nas mãos de egípcios, babilônios, assírios e romanos, conforme registrado na Bíblia e confirmado, em muitos casos, por estudos das ciências da História, da Arqueologia e afins".
Por último, a confirmação de que a boa obra de arte nos conecta com o mais profundo de nosso ser individual e coletivo, ou com a nossa humanidade mais genuína e, mesmo, com algo maior, a que damos o nome de Deus. (fim do primeiro ato ou primeiro texto)
Para saber mais sobre o AMOK, clique aqui
A foto principal é da autoria de Olivia Proença
Esta foto foi tirada de uma apresentação em Goiás, em 5 de julho de 2011, usando uma Nikon D90. Quem quiser conferir outras fotos da apresnentação desde dia, pode conferir no link indicado
O SESC E A DEMOCRATIZAÇÃO CULTURAL NO BRASIL.
No decorrer do espetáculo “O DRAGÂO” fui transportado ao teatro SESC de São João de Meriti, cidade onde vivi minha adolescência e local em que assisti à montagem do texto “Quanto mais gente souber melhor”, realizada pelo grupo dia-a-dia (salvo engano). O texto tratava da perseguição e dor impingida pela ditadura civil militar àqueles que ousaram sonhar e lutar por um Brasil mais justo e igualitário.
Essa lembrança tem a ver com uma observação que fiz ao representante da diretoria de cultura do SESC –Sergipe, Professor Bosco, quando lhe perguntei sobre quantos espetáculos foram levados para o SESC – Socorro, local com características similares àquele em que residi na adolescência. Foram dois espetáculos, disse ele, e, no próximo ano, haverá mais outros.
Reiterei a necessidade apresentada como palestrante do palco giratório, edição 2007. Na ocasião afirmei a necessidade do SESC construir teatros em municípios e/ou regiões afastadas do centro ou da zona sul de Aracaju.
No decorrer do espetáculo, lembrei-me também de muitos alunos e alunas da escola onde trabalho, na periferia de Socorro. Eles merecem ser mais lembrados pelo prefeito Fábio Henrique, autoridade simpática, sensível e de boa conversa. A construção de, por exemplo, uma praça dos esportes e da cultura, ou outro espaço cultural multimeios e multilinguagem, seria uma ótima oportunidade de resgatar a dívida com aqueles jovens.
DE VOLTA PRA CASA
Chegando em casa, lembrei-me que nos tempos atuais, em Aracaju, retornar para casa de ônibus, em certas horas, é pouco prudente, mesmo que a distancia do bairro onde moro e aquele onde o teatro está localizando não seja muito grande.
Quando morei no Rio de Janeiro, encarava esta mesma situação, quando chegava em casa de “busão”, entre as 12 e 2 horas da manhã, encontrando minha mãe acordada , depois de já ter rezado bastante para que os anjos e santos protetores me acompanhassem.
Desde então, e até hoje, continuo defendendo que a oportunidade de fazer e apreciar arte de qualidade não pode ser privilégio de uma minoria da população.
“VIAJANDO” ATRAVÉS DA ARTE
Na certa, se os governantes simpáticos e de boa conversa, pensassem e agissem assim, diminuiriámos bastante o numero de jovens e adultos que nos espreitam nas esquinas para nos roubar alguns trocados para comprar cocaína , crack e outras drogas ilícitas, assumindo o risco de levar até nosso bem mais caro, a vida.
Se fazem isso, por que estão cansados de serem eles mesmos, sempre a mesma pessoa, e utilizam alguns tipos de substâncias químicas que possibilitam “viajar”, porque não criar as condições para fazerem isso através do teatro, da dança, da música, do grafite, do audioviusual, etc., como no exemplo da resposta à pergunta que fiz ao diretor de “O dragão”.
NOITE DE PURO ÊXTASE ARTISTICO
E, para completar o êxtase - não confundir com o ecstasy – assisti, na companhia da “minha” mulher companheira, à retransmissão do programa manos e minas da TV Cultura de São Paulo, apresentando CRIOLO, sentindo a vibração positiva emanada dos apresentadores, produtores e equipe técnica do programa, e em especial da meninada presente ao local.
Concluindo. Não me venham dizer que a arte não pode fazer muito pelas pessoas !
Não me venha dizer que a juventude, o AMOK, uma companhia com uma presença expressiva de jovens, não pode produzir beleza, alegria e dar a sua contribuição para a construção da civilização da paz!
Se quiserem comprovar é só investir mais em educação, arte e cultura (junto e misturado).
Não é brincadeira, estou falando sério!
"Dedico o texto acima a todos (as) que fazem o SESC, na pessoa do Danilo de Miranda, um intelectual e gestor cultural de grande importância para a cultura brasileira, em especial nestes tempos em que os brasileiros voltaram a acreditar que é possível construir outro país, menos injusto e menos desigual.
Também dedico ao presidente LULA, que está passando por um momento bastante delicado em sua vida, em razão da descoberta de um tumor na laringe.
Por último não posso esquecer do querido Gilberto Gil, o ministro Nº 01 da cultura.
Quem produz e consome cultura nas periferias, quebradas, pequenas cidades e rincões desse imenso e belo país, re(conhece) a importância dos três para o desenvolvimento humano, social e econômico de nosso país.
Porque sem a dimensão cultural, não há desenvolvimento integral e sustentável."
Bravo! Belo texto.. teratro mexe com a alma tem sempre que ser democratizado principalmente para jovens que no seu cotidiano vivem também diversos tipo de operssões..
Sábias palavras Zezito... o bom Overmundo... preciso passar mais aqui!
Rapaz, voce nos envolve e come mais que tudo, ficamos presos a narração como se estivessemos no local.
Muito obrigado por mais esse exemplo e por poder eu aprender mais e mais com voce e todos os sergipanos.
Agora, entendo que a paz pode voltar aquela área de Israel e Palestinos, somente atraves do AMOR E da COMPREENSÃO E DE ENTENDER QUE ESTAMOS NO mundo PARA AJUDAR O PRÓXIMO.
Thiago,
Valeu!!
Aracaju está vivendo um momento muito legal em matéria de circulação de espetáculos tanto os daqui, como os de outros estados.
Este ano já tivemos o festival de verão, o festival de teatro, a semana de dança, o festival internacional do cinema infantil, o festival de musica aperipê, o festival alumiar de músicas de forró, o festival de cinema da casa curta-se, o SESC canção, o palco giratório, o projeto de temporadas da Casa Rua da Cultura, a feira de Sergipe.
Em todos eles a participação do governo federal, governo estadual,SESC e SEBRAE. Dentre as empresas que se destacam temos a Petrobrás e o BANESE.
Pelo fato de passarmos tanto tempo sem um calendário anual de eventos com preços acessíveis ou gratuitos, a relação que citei merece um brinde! (tin-tin) nos enche de alegria, embora faça-se necessário estender a programação para as periferias e interior, sei que há esforços neste sentido, mas é preciso fazer mais, não apenas no aspecto da circulação, como também no incentivo com recursos humanos e financeiros no campo da produção cultural. Lembro como exemplo os Pontos de Cultura e editais de micro-projetos para iniciativas culturais nos bairros e nos povoados.
O Banco do Estado de Sergipe (BANESE) um dos poucos que não foram privatizados pode contribuir mais nesse sentido. Sem negar a contribuição que o BANESE tem dado a maioria dos eventos que citamos acima , além do investimento no museu do povo sergipano, equipamento a ser inaugurado até o final deste ano e cujas bases conceituais são similares ao museu da língua portuguesa, localizado em São Paulo.
Kfarias.
Grato pelas palavras e continuemos acreditando e lutando pela paz. Seja ela em terras distantes, como perto de nós. A sua poesia, os meus textos e o ativismo sociocultural, o espetáculo do AMOK, o overmundo e tanta coisa mais, estão a serviço disso.
Sigamos em frente!
Um texto recente no over e que dialoga com este.
aqui
Um texto recente no over e que dialoga com este.
aqui
Parabéns Zezito.
Vc mandando ver quando o assunto é cultura, muito bom.
Grato
Gteixeira
Meu caro, tú sabes dizer o que sentes e se fazer enteder, tua capacidade é impar. Mil abraços, mil beijos, mil...
Nildo Cordel · São Paulo, SP 5/11/2011 15:25
Bravo!
Meu amigo Zezito Oliveira, você é meu orgulho!
Eu quero lhe desejar
Através desta poesia,
Momentos alvissareiros,
Na noite, muita alegria,
Assim, seu sorriso possa
Despertar um novo dia.
Se quiserem comprovar é só investir mais em educação, arte e cultura (junto e misturado).
Salve Paladino da Arte e das Raízes Brasileiras. Sucessos!
Abraço fraterno.
Aracaju aplaude de pé "O Dragão" da Cia. Amok
Zezito de Oliveira · Aracaju, SE
Um Trabalho Maravilhoso que ajuda a elevar a nossa formação. Agiganta a nossa Humanidade.
Estou voltando devagar e a maior alegria e encontrar seus Trabalhor queridos e Educadores.
Abração Amigo para todos
Pedro e Azuir
Uma frase de uma canção gravada por Milton Nascimento declara:
“O destino de nosso povo é um dia se encontrar”
Acredito ser uma das melhores formas de dizer da minha alegria de (re)encontrar vocês.
Em termos presenciais fiz uma tentativa de planejar ir a São Paulo em janeiro de 2012, ainda não será possível. Todavia o importante é saber que vocês continuam produzindo arte, alegria e acolhimento para que se cumpra o que Reginaldo Veloso (Recife) diz em uma bela canção de sua autoria “Ser feliz é o destino da humanidade”.
Valeu!!
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