Texto originalmente publicado no blog: http://mascandocliche.zip.net
A estrada estava à frente, um sol de 30 quilates só faltava derreter aqueles dois viajantes postados em cima dos seus cavalos. Eles estavam acostumados com um clima ameno do mediterrâneo. Diferentemente dos outros dois em pé ao lado do Rocinante. Eles se criaram ali e tiveram o calor como companhia durante toda a sua vida. Eles dialogavam. Pela presença dos dois aventureiros, aquela cena não poderia ser mais Nordeste, nem menos Nordeste.
- Feliz idade e feliz século aquele onde sairão à luz as minhas famosas façanhas, dignas de entalhar-se em bronzes, esculpidas em mármores e pintadas em telas para a memória do futuro** - gritava o magricelo Dom Quixote em cima do Rocinante.
- Oxe! Mas de que façanha você está falando? – pergunta o pequenino João Grilo.
- Você nunca ouviu falar dos épicos da cavalaria espanhola? – rebate o gordo Sancho Pança.
- Não. Como é isso?
- Lá. Os heróis... – começa Dom Quixote.
- Oxente, João Grilo! Claro que você sabe o que é, eu mesmo já tive um cavalo bento. Não lembra? – interrompe Chicó.
- Que isso Chicó? Vai inventar história até para esse povo?
- Mas se eu tive mesmo um cavalo bento, João. O que eu vou fazer? Vou mentir, dizer que não tive? Hum! Cavalo bom como aquele nunca tinha visto. Uma vez corremos atrás de uma garrota das seis da manhã até as seis da tarde sem parar nenhum momento. Fui derrubar o boi já de noitinha.
- Oxe! O boi? Não era uma garrota? – rebate João Grilo.
- Era uma garrota e um boi.
- E você corria atrás dos dois juntos assim, de uma vez?
- Corria! É proibido? – se irrita Chicó.
- Deixa ele contar a façanha, senhores – defende Dom Quixote que sempre teve um ouvido ávido por bons causos.
- Proibido não é não. Mas eu me admiro deles correram tanto tempo juntos, sem se apartarem. Como foi isso? – pergunta novamente João.
- Não sei, só sei que foi assim... 17 horas montado e o cavalo ali comigo, sem reclamar nada – continua Chicó. Comecei a correr da Ribeira do Taperoá na Paraíba e quando me dei fé, já estava em Sergipe.
- Fantástico! – se admira Quixote.
- Sergipe? E o Rio São Francisco, Chicó? – duvida João.
- Lá vem você com essa mania de pergunta – rebate Chicó abrindo os braços.
- É claro! Eu quero saber, como foi que você passou?
- Não sei, só sei que foi assim.
- Toda vez é isso. Sempre que se pede uma explicação você vem com esse ‘não sei, só sei que foi assim’...
- Vamos Sancho? Adeus senhores – se despede Dom Quixote.
- Mas homi, tu vai pra onde com essa pressa toda. É de sete meses, é? – pergunta João.
- Não senhores. Preciso chegar em Taperoá e de lá seguir o rumo até Sergipe. Tenho uma façanha e um destino a seguir.
Dom Quixote levantou poeira do seco chão nordestino e junto com seu companheiro Sancho Pança, deixaram boquiabertos os dois maltrapilhos contadores de causos a refletir sobre sonhos.
Quatro séculos separam esses personagens. A arte seria melhor se eles se unissem. Ariano Suassuna está para a literatura brasileira e para o Brasil, como Miguel de Cervantes está para a literatura espanhola e para a Espanha. Abertamente ou não, inconscientemente ou não, ambos levantam a bandeira da defesa pela cultura popular. Cervantes usa o percurso desafiador do sonhador Don Quijote de La Mancha, Ariano serve-se da cavalgada de São José do Belmonte e das mentiras inexplicáveis de Chicó. Ambos utilizam uma arma simples e contagiante: a escrita.
No caso de Ariano, verberam-se essa defesa de brasilidade e os gritos nordestinos em trabalhos como ‘Uma mulher vestida de Sol’ (1947), ‘Farsa da boa preguiça’ (1960), ‘Auto da Compadecida’ (1955) e ‘O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta’ (1971), para citar alguns dos bons resultados que essa sina que o Ariano persegue, produziu ao longo da sua vida. Uma outra obra de grande importância, mas que se restrigiu ao universo acadêmico, foi sua tese de livre-docência, defendida em 1976, intitulada "A Onça castanha e a Ilha Brasil: uma reflexão sobre a cultura brasileira".
Há uma semana, o imortal Ariano esteve em Belo Horizonte e concedeu uma entrevista coletiva. Nela, entre os vários ‘não é?’ e ‘tá certo?’, falou das adaptações de suas obras para a televisão, teatro e cinema, das críticas, do rótulo regionalista, de Hip-hop e, claro, não desperdiçou a oportunidade de defender verbalmente seus ideais sobre a preservação da cultura brasileira. Repare como ele sempre reforça que o cordel é a ‘literatura popular brasileira’. Ariano Suassuna, dono de cadeiras na Academia Brasileira de Letras, Academia de Letras de Pernambuco e na Academias de Letras da Paraíba, sentou-se ao lado de vários jornalistas e ainda conseguiu se sentir à vontade.
INSPIRAÇÃO
Eu digo sempre que todo o escritor tem um universo interior onde tumultua personagens e histórias e todos buscam encontrar uma saída para isso. Nesse universo existem muitas coisas adquiridas por influência de outros escritores. No meu caso, tenho grande influência das pessoas da minha família, dos tipos populares que eu conheci e dos folhetos de cordel, da literatura popular brasileira. Então é daí que vem isso que vocês chamam de ‘inspiração’, tá certo? Mas eu usaria outra expressão que eu acho muito forte. Pra isso, tenho que contar uma história (todos concordam com a cabeça – no fundo, era o que todos queriam ouvir: boas histórias). Tem um grande artista popular lá do Nordeste, o Dom Caboclo - descendente de índios, que dizia que todo o artista tem um córrego, a gente pode não prestar, não ser uma pessoa boa, mas tem dentro de si um córrego e acho que é esse córrego que é fundamental na criação.
INSPIRAÇÃO MINEIRA
Repetindo o grande brasileiro Alceu Amoroso Lima, ele disse uma frase que me impressionou muito. Ele disse: ‘do Nordeste para Minas corre um eixo que não por acaso segue o curso do Rio São Francisco, o Rio da unidade nacional, a esse eixo o Brasil tem que voltar de vez em quando se não quiser se esquecer que é Brasil’. Então, quando eu vejo uma escultura do Aleijadinho, quando ouço a música do Roberto Correia, Reinaldo Andrade, texto do grande Guimarães Rosa, poesias do grande Carlos Drummond de Andrade. Tenho orgulho de ter sido amigo dos dois, inclusive Rosa fez um poema pra mim onde me chamou de ‘jardim do mato regado a orvalho e rei do quinto naipe do baralho’. O que eu quero mais, não é?
REGIONALISMO
Não me considero um regionalista não, do mesmo jeito que não considero o Rosa um regionalista. Tanto Rosa como eu, recebemos uma forte influência do movimento regionalista, de Euclides da Cunha. Agora, o regionalismo mesmo... por exemplo, você pega um romance do Jorge Amado e do Graciliano Ramos e você vê que eles são neonaturalistas, e eu gosto da literatura mais reinventada, eu não gosto da literatura que pretende passar pela vida, que pretende imitar a vida. Eu quero uma comunicação com a vida real, mas quero essa comunicação recriada em termos poéticos e isso, encontro na literatura de cordel que é a literatura popular brasileira e também na poesia.
ADAPTAÇÕES
Eu resisti muito a permitir que uma obra minha fosse adaptada para a televisão, mas era porque queriam que eu me adaptasse a televisão, tá entendendo? Eu fui procurado pela primeira vez na década de 60, do século 20. Eu disse: ‘olhe, eu não tenho dúvida em permitir, agora tem uma coisa, do jeito que a televisão está andando um de nós dois vai ter que mudar a passada, e eu vou logo avisando que não serei eu não, tá certo?’ Eu não aceito, por exemplo, a caricatura do sotaque nordestino que se faz na televisão. Eu nunca vi aquilo, aquilo não é um sotaque nordestino não.
Que sotaque é aquele, né?
Pois é. Que sotaque é aquele? Até que passados 30 anos, já em 1997, fui procurado pelo grande diretor Luiz Fernando Carvalho. Com esse eu não tive dificuldade nenhuma. Fiz duas experiências com ele: ‘Uma mulher vestida de sol’ e a ‘Farsa da boa preguiça’ e recentemente fiz a ‘Pedra do Reino’. Com Guel Arraes que é meu amigo desde menino... quer dizer, desde ele menino (risos), porque ele é bem mais jovem do que eu, fiz o ‘Auto da Compadecida’. E não me arrependo de nenhum dos casos. Eu gostei muito.
E no teatro?
Sim, eu me esqueci. Eu falei nas adaptações do cinema e da televisão e não falei da adaptação do teatro, não foi? Pois bem, a adaptação do Antunes Filho eu gostei muito também.
Como o senhor recebeu as críticas da adaptação da ‘Pedra do Reino’?
Eu avisei desde o começo. As pessoas me perguntavam, quando se falavam que iria fazer a ‘Pedra do Reino’: ‘você acha que vai ser um novo Auto da Compadecida?’ Eu dizia: ‘nem espere’. Espere não porque é outra obra. É uma obra mais complexa e não é uma obra que tenha a comunicabilidade popular que tem o ‘Auto da Compadecida’ não. Veja bem, não sei se vocês já leram o Novo Testamento, se não leram, eu recomendo que leiam, tá certo? No Novo Testamento vocês têm os Evangelhos que são narrativos, não é? Por exemplo, o Evangelho de São Mateus começa: ‘livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, que gerou Abraão, que gerou a Isaac e por ai vai, tá certo?’ Uma coisa bem simples, bem narrativa. Ai você tem o Apocalipse, não é? Pois bem, aquilo é um poema. Eu não estou falando no sentido religioso não, estou falando no sentido literário. O profeta Ezequiel é um grande escritor, São João Evangelista é um grande escritor. Repare que beleza: ...e viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça... repare a imagem! Que coisa linda! Acho tão lindo que chamei minha primeira peça de ‘Uma mulher vestida de sol’, baseada nele. Então o Luiz Fernando poderia ter optado em fazer uma narrativa mais evangélica, mas ele optou em fazer uma narrativa mais apocalíptica. A meu ver, fez muito bem (risos). Gostei muito. Agora, tenho a lucidez suficiente para saber que o público comum não pode ter gostado da ‘Pedra do Reino’, como gostou do ‘Auto da Compadecida’.
CRÍTICA (ou o sumiço dela)
Nós estamos vivendo um momento que, infelizmente, a crítica teve que se refugiar somente nas universidades porque os jornais tiraram esse espaço. Antigamente você tinha críticos como Álvaro Lins, Alceu Amoroso Lima ou Antonio Candido, escrevendo nos jornais. Hoje os jornais viraram quase que os cadernos de anúncio de, de...
Festa?
Isso! De anúncio de festa. Agora se tem, no máximo, resenhistas, mas a crítica literária mesmo deixou de ser exercitada. Acho uma pena porque isso abria caminho junto ao público para compreensão do romance, das peças de teatro e do cinema.
HIP-HOP
Bom, eu faço uma distinção entre êxito e sucesso. O livro “O Triste Fim de Policarpo Quaresma’, de Lima Barreto é um êxito. Tem bem menos sucesso que qualquer hip-hop. Agora, daqui a 100 anos o livro de Lima Barreto continuará a ser um pilar para a cultura brasileira, para a literatura brasileira e para o próprio Brasil como país. Agora, eu não sei se o hip-hop ainda existirá daqui a 100, 200, 400 anos. Eu acho que todo o artista verdadeiro pensa em termos de êxito e não de sucesso, tá certo? O sucesso por natureza é efêmero, então o que por ai fizer sucesso, mas não for de boa qualidade, pra mim não tem importância nenhuma.
OSCAR NIEMEYER
Olhe, acho Oscar Niemeyer um grande arquiteto, só não acho um grande arquiteto brasileiro, principalmente porque falta cor nele, isso eu acho fundamental para a arquitetura brasileira. Eu acho a arquitetura do Niemeyer muito, muito brancosa, muito calvinista, isso não corresponde com o Brasil que é um país barroco, tem uma unidade de contrates e exige a cor, a alegria das cores. Eu acho que uma casa para ser brasileira tem que brilhar ao sol com cores fortes e quentes, fortes ao ponto que Deus pudesse avistar lá de cima com alegria. É essa alegria que acho que não existe na obra do Oscar Niemeyer. Veja bem, é curioso porque ele, aqui em Minas... ele é carioca, não é?
É.
Pois bem, mas aqui em Minas ele fez uma experiência que se ele tivesse levado a diante, a arquitetura dele seria outra. Ele fez uma experiência com o (Candido) Portinari na Pampulha, mas depois ele radicalizou mais. Ele passou a achar que arquitetura é unicamente combinações de espaço arquitetônicos e desterrou a pintura, escultura e a cor.
POVO BRASILEIRO
Eu sou entusiasta do povo brasileiro, tá certo? Eu admiro inclusive como é que um povo que passa as dificuldades que passa, mantenha uma capacidade de resistência, inclusive cultural, tão grande. Porque fazem de tudo para acabar com a personalidade cultural do povo brasileiro. Eu já vi muito profeta... eu moro no Nordeste, vocês sabem né? Já vi muito profeta chegando lá e profetizando a morte dos cordéis, a literatura popular brasileira. Pois bem, eu já vi muitos desses profetas morrerem e a literatura de cordel tá lá, viva, tá entendendo? Repare... quando o homem chegou a lua pela primeira vez, as imagens que chegaram pela televisão eram horríveis, tá certo? Eu nunca tinha visto coisa mais feia que aquela (risos). Era uma coisa horrorosa. E a literatura que se publicou no mundo inteiro sobre esse fato também achei de péssima qualidade. A única coisa que achei boa foi um folheto que foi publicado por um nordestino, chamado José Soares, o poeta repórter. Pois bem, aquele era um assunto inteiramente alheio a nossa cultural, não é? Ele incorporou e conseguiu uma descrição do astronauta belíssima. Repare que beleza, ele disse assim: ‘os astronautas trajavam calça, culote e colete, com um guarda-peito de aço desenhado um ramalhete e cada um tinha uma estrela de prata no capacete’. Veja que capacidade! Ele recriou tudo aquilo nos termos da nossa cultura.
FUTURO
Eu pretendo continuar fiel ao meu país e ao meu povo e fazer o que me é possível.
Vai Ariano com a sua sina, segue os passos do Dom Quixote e vai fazer felizes os séculos que conheceram suas façanhas e suas histórias. Segue Ariano e deixa que o povo brasileiro entalhe em bronzes, em mármores ou pinturas suas obras para um futuro melhor, para um Brasil melhor!
*Título gentilmente cedido por Israel do Vale
**Don Quijote de La Mancha, pág. 35 - edición del IV Centenário – Real Academia Española.
Adorei! Viva o "popular brasileiro". Se puder leia sobre a participação do negro na política do Brasil. http://www.overmundo.com.br/overblog/balanco-positivo-para-a-cultura-em-bh
abraço
Olá amigo.
Ariano é o que há de melhor na cultura genuinamente Brasileira.
Parabéns.
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