Essa matéria foi escrita em setembro de 2006, para o jornal da universidade onde sou assessora de imprensa, mas, para começar, acho que vale a pena posta-la.
Cenário: X Feira Pan-Amazônica do Livro, setembro de 2006. Mais de uma hora antes da aula-espetáculo, uma multidão, formada em sua maioria por jovens, já se acotovelava para garantir seu lugar. Segurar as rédeas do público não foi fácil... E então, depois de uma tumultuada espera, ele chegou, Ariano, o famoso Suassuna, todo de branco e lançando beijos para o público que, mesmo antes de escutar qualquer palavra, o aplaudia de pé.
Passada a euforia, o deleite. O polêmico escritor, nascido na Paraíba, no dia 16 de junho de 1927, sentou-se ao lado do filósofo Benedito Nunes, que o apresentou à platéia. Bastaram alguns minutos para Ariano surgir como o personagem falastrão Chicó, de O Auto da Compadecida, e desatou a falar sobre poesia, cultura popular, literatura e a contar causos, do alto de seus 79 anos, com um ímpeto e um saber de fazer inveja. “Um dia, lá no Recife, uma mulher que não gostava de mim, perguntou, já com a resposta pronta: - De que signo você é? Respondi que sou do signo de gêmeos. E ela disse: - Você sabe que as pessoas que nascem sob o signo de gêmeos têm duas caras? Eu disse: - Oxi, a senhora acha que se eu tivesse duas caras, teria o mau gosto de usar essa?”.
Ariano é assim, espirituoso, naturalmente engraçado, e, ao mesmo tempo, uma figura controversa. Muitos o idolatram, outros zombam de sua resistência às influências estrangeiras. Não gosta de rock, acha Elvis Presley um idiota, nunca viajou para fora do Brasil e é avesso a qualquer elemento da cultura norte-americana. “Chamam-me de ultrapassado porque eu defendo a cultura brasileira. Se para defender a cultura de meu povo, preciso ser chamado de arcaico, então eu assumo”. Mas o escritor faz questão de explicar que tradição não pode implicar em rotina e diz que o perigo dos chamados tradicionalistas é cair na repetição. “Não cultuo as cinzas dos antepassados, mas a chama imortal que os animaram”.
Não por acaso, esse apaixonado pela tradição da cultura popular brasileira fundou o Teatro Popular do Nordeste e o Movimento Armorial, na década de 70, que buscava criar uma arte erudita brasileira baseada nas raízes da nossa cultura. Em toda sua vida de romancista, dramaturgo e poeta, Suassuna retratou em suas obras, de forma universal, essa tradição.
Sua vida de escritor, aliás, começou cedo. Aos 12 anos de idade escreveu seu primeiro conto que considera “horroroso”, mas que já indicava sua tendência para o trágico, justificada por um problema difícil que diz ter passado na infância. Provavelmente, a morte de seu pai, assassinado durante a Revolução de 30, quando tinha apenas 3 anos. “Meus irmãos até brincavam comigo. Eles diziam que eu era um assassino horrível porque quando eu não sabia o que fazer com o personagem, o matava”.
Com peculiar poesia nas entrelinhas, Suassuna disse que sua veia cômica foi descoberta apenas mais tarde, aos 17 anos, graças ao encontro com Zélia, sua esposa, que começou a namorar no dia 20 de agosto de 1947, conforme sua memória prodigiosa faz questão de lembrar. “Foi o encontro com Zélia que me desatou para a alegria, para o riso e para a beleza do mundo”. E continuou a contar sua história de amor, digna de um de seus belos romances, e eternizado no livro “Fernando e Isaura”, que inicia com as primeiras palavras com as quais Ariano se dirigiu à Zélia. “Eu a vi na rua e pensei que não poderia perder essa oportunidade. Então, eu disse assim: você se incomoda de me conhecer sem ninguém nos apresentar? Ela disse que não e até hoje estamos juntos”.
Embora só tenha sido lançado nacionalmente em 2006, o romance “Fernando e Isaura” é um livro de 1956. Ariano conta que o escreveu como um exercício já que, até então, só tinha escrito poesia e teatro. A obra é uma versão brasileira da estória de “Tristão e Isolda”, de Joseph Bédier. Mesmo assim, acredita que sua essência como escritor está na poesia. “Minha poesia é a força profunda de tudo o que eu escrevo”.
COLETIVA – Apesar de visivelmente incomodado com as luzes, flashes e a roda de jornalistas que se formou em sua volta ao terminar a palestra, Ariano Suassuna não deixou a simpatia de lado e aceitou dar uma entrevista coletiva.
Apesar de reconhecido como um dos maiores escritores brasileiros, Ariano nunca tinha provado do sucesso até ter a sua peça “O Auto da Compadecida” adaptada para a televisão e o cinema. Ele revelou, no entanto, que não considera a obra como a mais importante da sua vida literária. Diz que, na verdade, nem no teatro é a sua predileta. “De tudo o que eu escrevi até agora, se eu tivesse que salvar uma só obra salvaria A Pedra do Reino”. O romance, inclusive, será a próxima obra adaptada para a TV pelas mãos do diretor Luis Fernando Carvalho. “O universo do teatro é muito limitado e foi nele (o romance) que expressei de modo completo meu universo interior”.
E, então, depois de duas perguntas, ele recuou, deixando claro que a entrevista estava encerrada. Apenas um detalhe em se tratando de Ariano Suassuna...
Muito bom! Admiro muito esse cidadão!
Abraço!
Helaine, muito boa a matéria.
Um texto leve e de boa leitura.
Parabéns!
Pedro e Carlos, obrigada!
Se o entrevistadi não fosse tão bom, a matéria não teria a mesma graça...
Vida longa a Suassuna!
És assessora de que faculdade em Belém?
Pedro Vianna · Belém, PA 5/3/2007 18:28
É sempre muito bom ler algo sobre Ariano. É meu pensador xodó.
Ilhandarilha · Vitória, ES 7/3/2007 19:28
ótimo ler aqui no overmundo sobre o ariano...
todos conhecem as peças e romances mas eu vou dar a dica da poesia de ariano, que é belíssima.
sei de apenas um livro que reúne sua produção poética. chama-se "poemas" e é uma seleção e organização de newton junior, lançado pela editora universitária da universidade federal de pernambuco.
comprei o meu, há alguns anos, numa loja de discos na gávea, a tracks. não sei se ainda está em catálogo, mas vale a pena procurar.
para finalizar, tive a alegria e privilégio de ser alunos de ariano (história da arte), quando estudei jornalismo na federal de pernambuco. foram verdadeiras aulas, em todos os sentidos. um grande ensinamento de vida e arte.
Valeu pela dica, Toinho!
Vou procurar esse livro.
Abs
Já tive o grato prazer de vê-lo falar. É realmente invejável a disposição do Ariano para o saber. E o seu texto Helaine também foi muito bom de ler.
Andreia Costa · Belo Horizonte, MG 28/4/2007 15:49Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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