Ars Electronica premia inclusão digital brasileira

vídeo institucional Cyberelas
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Vivian Caccuri · São Paulo, SP
29/5/2006 · 141 · 7
 

A Cidade de Linz, na Áustria, tem uma tradição tecnológica de alguns séculos. Foi ali que em 1571 nasceu Kepler, o físico que elaborou as primeiras fórmulas das órbitas elípticas do sistema solar. Nos dias de hoje, se você passar pelo Rio Danúbio à noite, com certeza verá um sofisticado edifício de vidro, iluminado de dentro para fora por lâmpadas fluorescentes que mudam de cor lentamente. Ali é realizado um dos maiores e mais importantes eventos de Cultura & Tecnologia do mundo, o Ars Electronica, responsável por divulgar e disseminar o que há de mais recente na produção cultural em meios eletrônicos em Artes Visuais, Música e Sociedade.

Muito longe dali, na América do Sul, Brasil, Estado do Alagoas, cidade de Campestre, Betânia Buarque senta na frente de uma casa de tijolo queimado, na frente de uma câmera, relatando como foi seu primeiro contato com a tecnologia:
"Meu primeiro contato com as máquinas foi de espanto. Vinda da cidade de Campestre, onde nem se falava em Internet ou computador, e onde nem as fotos chegaram direito ainda."

Campestre é uma das cidades que abrigam um telecentro do projeto Cyberela, e já sentiu muitas mudanças depois da chegada da Internet e dos equipamentos de informática. A Prefeitura, por exemplo, já emite todos seus documentos por esse telecentro que é essencialmente gerenciado por mulheres.

A capacitação e profissionalização tecnológica feminina sempre foi a preocupação principal da ONG Cemina, que iniciou o projeto Cyberela há 5 anos. O grande objetivo da iniciativa é criar telecentros em comunidades pobres sem acesso comercial à Internet, monitorando e educando mulheres e homens que nunca tiveram contato com a linguagem eletrônica. As cyberelas, mulheres responsáveis pelo telecentro, após adquirirem um conhecimento mínimo, já podem criar redes de troca de informação com outros telecentros de outros Estados do Brasil, estabelecendo um intercâmbio de estratégias de auto-sustentabilidade e experiências.

Esta rede de comunicação acontece por programas de rádio transmitidos na Internet no site www.radiofalamulher.com.br, e nas rádios comunitárias das cidades do projeto que também veiculam a produção regional dos telecentros.

"Quando eu cheguei na rádio universitária com aquele computador e falei ao conselho diretor que aquela descoberta que eu tinha feito podia fazer a vida da gente muito mais fácil, nós resolvemos fazer uma mudança e digitalizar toda nossa estrutura. Mas o chefe da operação era um homem muito preconceituoso e não gostava de mulher nenhuma mandando em nada na rádio. Não gostou da idéia ter sido minha, não gostou da idéia ter sido aceita e proibiu a entrada de qualquer computador no estúdio dele. Era ou ele ou o computador. E ele terminou tendo que sair porque o computador teve que entrar." conta orgulhosa, a cyberela Leogivilda Bezerra, de Fortaleza -CE.

As rádio comunitárias e os telecentros têm um trabalho conjunto no projeto Cyberela. Para a população criar uma intimidade maior com os termos "estação digital" , "telecentro" e nomenclaturas simples da informática, as integrantes do FalaMulher criam programas educativos com este conteúdo. Desta forma, o conhecimento digital chega às casas da comunidade por qualquer rádio de pilhas. Estes programas visam encurtar o caminho de homens e mulheres necessário para a inclusão digital, que não é só feita pela simples compra de equipamentos, coisa que as cyberelas sabem muito bem.

A ONG Cemina obteve apoio da Fundação Kellogg, Microsoft, Banco Mundial, Unesco e do governo brasileiro para levar o acesso à Internet via satélite e equipamentos para as comunidades.

* * *

Voltemos à Áustria. No site do Ars Electronica é possível ver a lista dos contemplados pela premiação anual. Dentre eles, muitos projetos artísticos que usam de sensores hiperdesenvolvidos, programação computacional avançada e rede de comunicações complexas. Um dos premiados, por exemplo, foi um grupo de universitários que desenvolveram um peixe-robô capaz de avaliar diversas propriedades da água onde está nadando. Mas uma categoria que premia projetos exclusivamente voltados à sociedade, olhou com admiração o projeto liderado por Silvana Lemos, que não possui todo esse aparato tecnológico.

O comitê da premiação concedeu à ONG Cemina, o "Distinction Award" pelo projeto de inclusão social. O festival de exibição dos projetos premiados acontecerá ao final de Agosto a início de Setembro, na cidade de Linz, e será prestigiado por pessoas do mundo todo.

A cidade de Campestre, que não foi berço de nenhum físico que pode se encontrado nos livros de História, nem é sede de eventos mundialmente reconhecidos, está provavelmente vibrando com o feito. As pessoas que vivem ali, como em outras diversas cidades do projeto, não são artistas digitais ou sequer foram tocados pelas mesmas preocupações homem-tecnologia que atingem suecos, alemães ou japoneses.

O que o Ars Electronica reconheceu nas cyberelas foi a brilhante execução do dedicado trabalho envolvido na resolução de problemas quotidianos, questões de todo dia como a comunicação; e talvez as mais difíceis que mulheres e homens possam ter.



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Sergio Rosa
 

muito massa. acho que os programas de inclusão digital ganham outro vigor quando são construidos a partir de contextos locais e, mais importante, gerenciados e organizados pela comunidade.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 29/5/2006 15:07
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Daniel Pádua
 

Só acrescentando, do Brasil também recebeu uma menção honrosa em Digital Communities pelo projeto Metareciclagem (www.metareciclagem.org), que nasceu de uma lista de emails em 2002 e tornou-se uma rede de apropriação tecnológica em ações sociais emergentes (de baixo pra cima), agitando hoje dezenas de ações no Brasil e em países como a Índia.

Daniel Pádua · Brasília, DF 29/5/2006 18:42
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Hermano Vianna
 

Daniel: seria bacana alguém escrever algum texto explicando o que é metareciclagem aqui no Overmundo, não seria? O textos daria os links para tudo que está se fazendo no país e no resto do mundo em termos metarecicleiros

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 29/5/2006 22:41
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Daniel Duende
 

Poisé DPadua... acho que já está mais do que na hora de algum metareciclento colocar alguns textos sobre metareciclagem por aqui.

err... pq estão todos olhando para mim? ;)

Poisé. Alguém tem que fazer isso. O Hermano tem toda a razão.

Daniel Duende · Brasília, DF 30/5/2006 17:38
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Thiago Camelo
 

Opa Daniel e Hermano. Fui no site de Metareciclagem e entendi mais ou menos como é o trabalho, embora não tenha entendido direito em que área essa galera atua. Daniel, o que seria realmente "ações sociais emergente"? Você pode me dar um exemplo? Acho que aqui pode ser um espaço bacana pra explicar melhor a Metareciclagem.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 30/5/2006 19:05
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Hermano Vianna
 

Duende: seu texto aqui é uma boa reflexão sobre a metareciclagem. Excelente!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 30/5/2006 19:44
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LTT
 

e entao, ces vao explicar ou nao?
tamo aguardando....

LTT · Rio de Janeiro, RJ 31/5/2006 20:11
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