Arte e práticas para o dia a dia

Claudia Rangel
Beijos nas Nuvens de Prata
1
Ilhandarilha · Vitória, ES
28/4/2009 · 23 · 4
 

Arte e práticas para o dia a dia é o nome da exposição de Andy Warhol que está no Museu de Arte do ES - Maes. Se considerarmos o universo da produção do cara, a exposição tem poucas obras. Mas, o que a gente pode ver lá é suficiente para mostrar a diversidade das atividades do inquieto artista. Papa da Pop Art, Warhol queria mesmo era ficar rico com sua arte. Inventou, para isso, um jeito de reproduzir com menor esforço suas criações e vendê-las para quem se dispusesse a pagar o melhor preço. Ser um mercenário da arte (coisa que ele próprio admitia), não o tornou artista menor. Suas criações são pesquisas profundas sobre a visualidade, a impermanência da arte e o simulacro da obra. Além disso, Warhol deu novo significado ao cotidiano ao utilizar objetos do dia a dia como tema e inspiração para suas obras.

A Exposição do Maes - "Andy Warhol - Arte e Práticas para o Dia a Dia" - deixa bem claro a diversidade dessas pesquisas de Andy Warhol: além das serigrafias já conhecidas de todos (e reproduzidas ad infinitum em todos os suportes possíveis), a exposição traz para Vitória trabalhos poucos conhecidos e difíceis de encontrar, tais como os filmes em 16mm e os retratos e autorretratos em polaróides (obras lindas). Num dos filmes, ele filma o Empire State por 8 horas seguidas, registrando as nuances das mudanças da luz do dia até a noite, num trabalho que lembra o impressionista Monet e as suas telas da Catedral de Rouen. Também podemos ver os famosos "screen test" com amigos e o filme Kiss (1963), além de horas do documentário com a banda que ele produzia, a Velvet Underground. A exposição reproduz, também, um pouco do clima da Factory, seu famoso estúdio, escritório e moradia, na réplica da exposição "Nuvens de Prata", de 1966.

Para quem quiser se divertir interagindo, a exposição conta ainda com uma mini oficina de serigrafia (que a gente pode fazer na hora), uma câmera que reproduz os teste de filmagem (screen test) e uma máquina Xerox que tem a função de recriar as cápsulas do tempo de Warhol. As cápsulas do tempo são caixas de papelão onde Warhol guardava várias coisas cotidianas e lacrava. Conta a lenda que após sua morte seu curador, fazendo o levantamento das cápsulas do tempo, encontrou dentro de uma delas dez mil dólares. Ele catalogou a quantia e lacrou novamente a caixa. Faz sentido: Warhol adorava dinheiro. Na exposição do Maes a tal cápsula do tempo xerocada tem um problema: os visitantes são obrigados a deixar seus pertences guardados antes de entrar no Museu e ai resta muito pouco a se preservar na tal cápsula xerox. Aliás, ter que deixar as coisas guardadas foi um problema para mim na exposição: deixei meus óculos da bolsa no armário e não pude ler quase metade das plaquinhas de identificação da exposição. Mas, fiz questão de levar a câmera fotográfica, apesar dos avisos insistentes de que era proibido fotografar. Vá lá entender por que o museu não deixa fotografar as obras do Andy Warhol, o cara que acreditava que arte é reprodução! Bom, não dei muita bola pra proibição e consegui umas poucas fotos furtivas do ambiente.

Além do filme Kiss, onde intermináveis beijos projetados na parede do museu nos despertavam sensações, adorei ver a série de polaroides. Tanto os autorretratos quanto as fotos de famosos (coisa mais linda o Mick Jagger novinho!!!). Os auto-retratos são verdadeiras preciosidades: Warhol, pelo jeito, adorava a própria imagem, e adorava a brincadeira de se transformar para posar para ele mesmo.

A curadoria de "Andy Warhol - Arte e Práticas para o Dia a Dia" é de Jéssica Gogan, do Museu Andy Warhol, em Pittsburgh, Pensilvânia, de onde vieram as obras. O curador brasileiro da exposição é Luiz Guilherme Vergara. A mostra fica até 2 de julho no Maes, o primeiro museu brasileiro a receber a exposição itinerante.

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Spírito Santo
 

Ilha,

Fantástico o Andy. Gosto também daquela parte da história dele que tem o Jean Michel Basquiat como protegido e apadrinhado. Se não fosse Andy quem hoje saberia quem foi Basquiat?
Gosto também da travessura das furtivas fotos, vivo fazendo isto com o meu discreto celular.

Só me incomoda mesmo é ver a palavra autorretrato grafada assim neste esdrúxulo novo português. Gente de Deus! Vocês não acham estúpido não? Tiraram um traço para colocar um 'r' no lugar, foi isto? Pra que, qual é a vantagem, podem me explicar? Será que foi só pra enfeiar a palavra?

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 29/4/2009 00:36
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Ilhandarilha
 

autorretrato é horrível mesmo! bom, mas a gente tem que se adaptar aos novos tempos (e às novas grafias), mesmo que isso doa um pouco. Pior que juntar as palavras com hífem (tão bonitinho, o hífem!) é tirar o acento de vôo. vc não acha um horror escrever voo? parece onomatopéia...

Na exposição tinha lá um retrato-polaroide do Basquiat, lindo. Esse lado empresário e produtor do Andy era ótimo: muita gente boa saiu do gueto underground (ou do gueto mesmo, no caso do Basquiat) para a mídia por conta disso. Mas acho que ele foi o melhor empresário para ele mesmo: ninguém soube se auto-promover (com hífem ou sem hífem?) tão bem quando Andy Warhol. Poucos artistas conseguem isso produzindo arte de verdade,como ele. Minha admiração pelo Warhol vem dessa sua capacidade aparentemente ilimitada de inventar novos conceitos, novas expressões e da sua criação compulsiva (tudo que o cercava era uma obra de arte, até a lata de sopa) e a sua capacidade de tirar do limbo artistas que ninguém valorizava.

Ilhandarilha · Vitória, ES 29/4/2009 10:06
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Spírito Santo
 

Pois é,

O auto retrato (bastava tirar o hífen) do Andy, além de ser eficiente pra caramba, foi bem mais complexo do que os retratos que ele fez dos outros. Queria gente inteligente e perpicaz como ele fazendo a nossa reforma ortográfica.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 29/4/2009 13:10
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Ilhandarilha
 

Na exposição do Maes tem uma série de autorretratos em que ele se travestiu - uma dragg nos anos 60. Muito bom. custei a descobrir que era ele mesmo (estava sem os óculos!). Interessante tb o retrato do Arnold... (o governador ator da California), novinho, todo orgulhoso daquela sua montanha de músculos deformados.
Eu acho que além de arte, o Andy Warhol soube fazer como ninguém um retrato da vida social e artística americana nos anos 60 e 70.

Ilhandarilha · Vitória, ES 30/4/2009 20:20
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