Arte para degustar

Rodger Savaris
"Macarrão aos frutos do mar", obra de Elisa Queiroz
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Erly Vieira Jr · Vitória, ES
27/4/2007 · 214 · 7
 

O trabalho de Elisa Queiroz caracteriza-se, há mais de uma década, por levantar discussões, de forma bastante intensa e coesa, em torno de uma não-identificação da artista com os padrões estéticos da cultura de consumo contemporânea. Em suas obras predominam imagens do corpo obeso (principalmente o feminino), cujas fartas adiposidades assumem um subversivo significado de sensualidade, contrariando a hegemonia das formas esguias, alongadas e siliconadas, tidas como padrão único de beleza.

Essa investigação acerca de uma “adiposidade sedutora” começou em meados dos anos 90, quando Elisa, na época estudante de Artes Plásticas na Ufes, percebeu que a presença de formas arredondadas e amplas nos trabalhos artísticos produzidos durante sua pesquisa de iniciação científica eram na verdade uma tradução das formas presentes em seu próprio corpo. Ela passou, então, a pesquisar, dentro da história da arte, representações de beleza feminina que fugissem aos padrões estéticos do século XX, como as gordinhas da pintura barroca e os seios, nádegas, barrigas e vulvas exuberantes das esculturas paleolíticas (como as Vênus de Tan-Tan, de Berekhat Ram e, principalmente, a de Willendorf). A partir daí, Elisa encontrou um fértil terreno para aplicar sua experiência e seu universo pessoais em sua produção artística.

Em 1997, uma exposição dividida com Lecko Magri, no Centro Cultural Palácio do Café (Vitória-ES), apresentava objetos acolchoados que lembravam gigantescos seios e nádegas. Objeto obeso, individual realizada no Espaço Universitário (também situado em Vitória) em 1998, ampliava esse discurso então nascente, ao costurar ampliações fotográficas de partes do corpo da artista (transferidas para tecidos) em almofadas e biscoitos doces, contando ainda com intervenções de miniaturas plásticas de cavalos trotando ao redor de um mamilo, por exemplo.

O texto do catálogo da exposição, assinado pela artista, traduz essa profusão de planos detalhes de protuberâncias e reentrâncias: “Construo peças para discutir minha identidade e meu poder de sedução, usando a ludicidade para reler a percepção do desencaixe que minha corpulência sugere à sociedade contemporânea ocidental, recondicionando o olhar do espectador.”

Em 1999, Elisa participa da coletiva Sedução, realizada no Espaço Universitário, com curadoria de Neusa Mendes. A instalação Namoradeira consistia num par de cadeiras de madeira, anatomicamente esculpidos a partir das formas obesas masculina (nádegas, genitais) e feminina (inclusive com um apoio para seios fartos) dispostas sobre um tapete rendado arredondado, repleto de estampas de botões de rosas vermelhas de onde, vez por outra, surgiam imagens eróticas capturadas de páginas da internet. Há ainda um pequeno banco de madeira, sobre o qual repousa um pote com dezenas de balas de canela.

Namoradeira percorreria o Brasil, nos anos seguintes, com a seleção da artista no mapeamento realizado em 2001 pelo Itaú Cultural, dentro do projeto Rumos: Artes Visuais. Essa obra já demonstrava uma clara intenção de Elisa em aliar a sensualidade ao paladar, no que a crítica de arte Kátia Canton classificaria como uma “equação de encantamento e erotização”. Ainda segundo Kátia: “A artista conjuga desejo e necessidade de abrigo. Constrói uma sala onde formas, cores e sabores prometem aconchego e gozo eterno”.

Essa predileção pelas formas amplas ainda seria explorada de maneira bastante surpreendente em trabalhos como Odor de Femina (apresentado na coletiva 5031, também no Espaço Universitário, em 2002), no qual calcinhas e soutiens vestem manequins obesos, dispostos numa arara, recortados em couro de vaca (com direito ao quase nauseante odor característico, parte essencial da obra), ou na instalação Wonderbra, apresentada na individual realizada na Galeria Homero Massena (Vitória, 2003). Nessa ocasião, todo o teto do espaço expositivo foi revestido por uma grande rede de 74 soutiens interligados, com 148 bolas de futebol ocupando o lugar dos seios. Numa sala anexa, um televisor, revestido com pelúcia imitando estampas de vaca, exibia um vídeo, em que um grupo de homens (alguns obesos, outros magérrimos), vestidos com espartilhos e peças íntimas femininas, praticava um inusitado jogo de futebol, entremeado com imagens de animais aos quais são associados alguns estereótipos femininos (vaca, galinha, gata, cachorra, piranha) e por uma trilha de samba-rock setentista, enquanto busca-se o caminho certo para um gol perfeito. Dessa forma, Elisa explora uma explosiva conjugação de dois fatores predominantes no imaginário popular brasileiro: mulher e futebol.

Uma outra série de trabalhos explora essa subversão de padrões através da associação entre paladar, adiposidade e sedução sugeridos anteriormente pelas balas da Namoradeira: trata-se de um conjunto de imagens em que as figuras de Elisa e de pessoas obesas ligadas a ela (amantes, ex-amantes, amigos) são utilizadas em releituras irônicas de obras clássicas da história da arte, devidamente fotografadas e transferidas para suportes comestíveis e, portanto, tão perecíveis quanto o corpo humano (por mais sedutor que ele seja).

Essa presença inexorável do tempo, contudo, é dissimulada tanto através do humor escrachado quanto de uma dimensão lúdica proposta ao espectador. Sirva-se, instalação apresentada na coletiva Desiderata (Museu Ferroviário Vale do Rio Doce, Vila Velha, ES, 2002), vinha acompanhada das respectivas “instruções de uso”: numa caixa de acrílico, encontramos um gigantesco mosaico formado por saquinhos de chá (perfumando levemente o ambiente), que juntos compõem a imagem de Elisa deitada numa cama, acompanhada de seu poodle de estimação e vestida com roupas sensuais, semi-transparentes, oferecendo-se em meio a uvas, numa espécie de banquete erótico. Nesse convite à luxúria, cada espectador escolhe uma dentre várias chaves disponíveis, e tenta abrir a caixa. Se acertar, tem como prêmio a oportunidade de sorver o saquinho de chá de sua escolha (completam a instalação xícaras e uma chaleira com água fervente).

Essa evocação de uma antropofagia sinestésica ainda seria desdobrada numa série de outras imagens protagonizadas pela artista, transpostas para superfícies comestíveis através de impressão em transfer ou em papel de arroz, sempre em gigantescos mosaicos formados pelos alimentos, como em Álbum de retratos (2002, obra vencedora do I Salão de Arte de Vitória), em que uma variação da imagem de Sirva-se — que, por sua vez, é uma releitura das figuras femininas de Jean Ingres — é almofadada pelos biscoitos recheados com maria-mole (os “colchões de mola” do universo gastronômico infantil).

Piquenique na relva com formigas (2004) mantém os biscoitos para apresentar uma releitura do Almoço na relva de Manet; enquanto que Macarrão aos frutos do mar (2002, segundo lugar no IV Salão Capixaba do Mar) apresenta, sobre pedaços de massas para lasanha, uma debochada cena de uma sereia sendo resgatada por um pescador, enquanto Netuno surge do mar, enfurecido, na tentativa de reaver o objeto de seu desejo.

Ai, meu Deus
, obra de 2002, novamente explora o lúdico: parte-se aqui da fotografia de uma tatuagem feita por um ex-namorado no próprio púbis — uma letra “E” (inicial do seu nome) inscrita no corpo como espécie de prova de amor (e que é reconstituída através de um mosaico de chicletes cujas embalagens são dispostas lado a lado). Elisa propõe um novo jogo de erotismo e desejo, no qual o espectador deverá tatuar em si esse mesmo desenho, reproduzido na figurinha do chiclete, acompanhada das respectivas instruções de uso.

Essa conjugação de guloseimas e luxúria também está presente em Sexo Animal (2003), onde porquinhos de plástico em miniaturas e inocentes balas de goma, em forma de ursinhos e jacarés coloridos — dispostos em grupos de dois, três ou mais espalhados numa série de escaninhos transparentes — reconstituem diversas posições do milenar Kama Sutra.

Elisa também ironiza o culto à própria imagem, através de intervenções bem-humoradas como a realizada na coletiva Plágio (Centro de Artes, Ufes, 2002), em que distribuiu faixas para os visitantes amarrarem em seus próprios corpos (especialmente na fronte), com os dizeres “Eu sou amigo dela”, e uma seta indicativa apontando para uma reprodução do rosto sorridente e gordinho da artista.

Outro suporte muito utilizado por Elisa Queiroz nos últimos anos tem sido o vídeo. A releitura cômica de ícones cinematográficos da sedução feminina é explorada em Free Williams (2004, inspirado na atriz-nadadora Esther Williams) e nA novilha rebelde (2005). Free Williams chegou a receber uma menção honrosa no XI Vitória Cine Vídeo.

Comelância (2005) é uma vídeo-instalação: através de um orifício em forma de coração, existente numa melancia, vemos seu interior — na verdade, um pequeno monitor de vídeo que exibe imagens da artista devorando toda a polpa da fruta, até restar somente a casca. E é nessa mescla saborosa entre gula e luxúria que Elisa continua seu instigante percurso. É como ela já dizia, em 1998, no texto de Objeto obeso: “Excedo em tudo”.

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Mestre Vilinba
 

Parabéns Elisa pela escolha de uma forma pouco comum de manifestar a sua arte. (Mestre Vilinba)

Mestre Vilinba · Arraial do Cabo, RJ 24/4/2007 22:16
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ylenia
 

lindo texto...linda Elisa! parabéns!!!

ylenia · Vitória, ES 26/4/2007 19:47
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adrianajacobsen
 

Elisa, você dividida em saquinhos de chá é inesquecível.

adrianajacobsen · Vitória, ES 27/4/2007 04:09
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Felipe carioca
 

Lindo....todos trabalhos, vc é uma artísta impar!!!!
Parabéns e cada vez mais sucesso!

Felipe carioca · Vitória, ES 27/4/2007 14:02
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Ilhandarilha
 

Muito bom vc falar do trabalho de Elisa, Erly! Ela é realmente uma artista de obra instigante e consistente. Valeu!

Ilhandarilha · Vitória, ES 27/4/2007 22:50
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Lorena Tonini
 

Adorei o texto Erly.
Elisa Queiroz é uma artista ímpar!

Lorena Tonini · Vitória, ES 3/5/2007 11:08
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John Lester
 

Adorei a coisa toda. A obra 'Macarrão ao fruto dos mares' deveria ser exposta junto à escultura de Maurizio Cattelan, representando a morte do Santo Padre, João Paulo II, ao ser atingido por um meteorito que teria caído no Vaticano.

John Lester · Vila Velha, ES 22/5/2007 02:32
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Cena do vídeo Free Williams (2004) zoom
Cena do vídeo Free Williams (2004)
Wonderbra (instalação, 2003) zoom
Wonderbra (instalação, 2003)
Detalhe: o vídeo de Wonderbra zoom
Detalhe: o vídeo de Wonderbra
Os saquinhos de chá de Sirva-se (2002) zoom
Os saquinhos de chá de Sirva-se (2002)
Piquenique na relva com formigas (2004), impressão sobre biscoitos doces zoom
Piquenique na relva com formigas (2004), impressão sobre biscoitos doces
Namoradeira (1999) zoom
Namoradeira (1999)

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