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Artes visuais e o lento caminho do crescimento

Emerson Silva
Tela abstrata de Antônio Netto revista pelo fotógrafo Emerson Silva
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s. fontes · Palmas, TO
1/9/2007 · 156 · 2
 

Há pouco mais de dois anos, a França homenageou o Brasil com o evento “Ano Brasil na França”. Para quem não se lembra ao longo de meses centenas de atrações artísticas brasileiras, entre músicos e artistas plásticos convidados apresentaram-se em solo francês, enquanto exposições e apresentações representativas dos estados brasileiros marcaram presença no chamado Espaço Brasil, no Carreau du Temple, uma construção histórica parisiense. O Tocantins era um destes poucos estados participantes – ao todo sete –, já que a organização do Ministério da Cultura não foi das melhores, os valores cobrados para esta participação foram alterados e o retorno real, medido pelo sucesso ou não das rodadas de negócios, era incerto, o que afastou estados importantíssimos nos contextos cultural, turístico e econômico, como São Paulo, Bahia, Ceará, Rio Grande do Sul.

Apesar dos estados estarem pagando para participar do evento internacional na Cidade Luz, curadorias tanto do MinC quanto da organização francesa cuidaram para que o Espaço Brasil mantivesse uma mesma linguagem ao longo das participações de cada estado. Abrigar “diferentes manifestações: exposições de arte contemporânea, arte popular, arte indígena, espetáculos de música e teatro reunindo artistas de todo o Brasil cujo denominador comum é a força criativa de suas obras”. Esta era a proposta do projeto, ou seja, realizar em outro continente algo que nunca foi feito dentro do próprio País.

Os tocantinenses trabalharam muito para entrar no projeto. Curadorias regionais foram organizadas para pré-selecionar propostas e artistas, editais para selecionar vídeos e fotos foram lançados, mas a verdade é que o Estado, apesar da pagar para participar do Espaço Brasil, não teve liberdade para definir o que considerava significativo em sua produção cultural, seja popular ou contemporânea. Subir aos palcos do Carreau du Temple foi privilégio para poucos, e não participar do evento trouxe decepção a muita gente. O retorno institucional deste grande investimento cultural para o Estado do Tocantins não foi lá essas coisas, e houve uma rala valorização de alguns poucos currículos, todos voltados para o segmento das artes populares e da cultura indígena. E só.

Mas, como tudo é aprendizado, lembremos que a produção artística contemporânea tocantinense foi a mais prejudicada. O curador Evandro Salles não selecionou sequer um artista, um trabalho para o Espaço do Tocantins na França. Segundo ele, a produção local era insipiente. A reclamação foi geral. Os artistas plásticos se sentiram excluídos, os gestores culturais da época informaram que pediriam revisão da decisão, mas a coisa parou aí.

Recentemente acompanhei um curso de História da Arte realizado de forma itinerante pelo programa Rumos Itaú Cultural Artes Visuais, com parceria local da Fundação Cultural do Tocantins e da Prefeitura de Palmas. Agora consigo perceber melhor a opinião do curador que provocou tanta revolta. “Vivemos uma crise de ausência da percepção da realidade”, apontou uma das professoras, Angélica de Moraes. “É uma questão de entendimento das novas idéias”, disse ainda referindo-se a comentários correntes sobre uma suposta crise da arte contemporânea. E nossa realidade é esta: quantos artistas – de qualquer segmento - que vivem há anos no Estado têm condições de estudar, se reciclar, analisar com clareza os caminhos da arte e buscar uma linguagem que ao mesmo tempo seja contemporânea – no sentido se sintonia com a produção artística nacional e internacional – e ao mesmo tempo trabalhar a realidade e as referências culturais tocantinenses neste contexto?

Se levarmos em conta estes dois últimos anos, desde a participação tocantinense no Espaço Brasil, em Paris, é possível que o curador ainda não considerasse a produção regional “consistente”. Ainda falta essa “liga” de maturidade entre o tradicional e o contemporâneo, é lenta a conscientização sobre a necessidade de buscar mais informação. A participação de artistas, professores, gestores culturais, arquitetos dispostos a dedicar três dias de suas vidas ao conhecimento teórico da arte deve ser vista como positiva, pois é um conhecimento a ser levado para os seus respectivos cotidianos. Ou não terá valido em nada.

Por outro lado, é importante observar que no contexto das artes visuais tocantinenses, a Fotografia realmente conseguiu conquistar mais espaço nestes últimos dois anos. O edital lançado para selecionar trabalhos fotográficos para exposição no Espaço Brasil teve pouca procura e o resultado não revelou quase nada das belezas, da cultura, do povo tocantinense. Depois disso, e não necessariamente motivados pelo Ano Brasil na França, um pequeno grupo de fotógrafos radicados em Palmas, a Capital Tocantinense, encabeçados por Manoel Jr, Emerson Silva e Gustavo Sá deixou os meros registros jornalísticos para o dia-a-dia profissional e investiram em trabalhos artísticos, elaboração de projetos voltados tanto para a reciclagem quanto para a formação de público, por meio de exposições.

Exposições como a recente “Tocantins P&B”, que além destes três profissionais contou com trabalhos de Tharson Lopes e Viviane Asevedo, demonstram que há um ideal artístico a ser perseguido também na fotografia, mesmo que a maioria dos trabalhos ainda seja documental.

Mas, como me disse recentemente um professor universitário, não se trata se um “fim” a ser alcançado, mas de um novo “processo” criativo a ser adotado, mesmo que o imediatismo bata à nossa porta e exija respostas urgentes.

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Labes, Marcelo
 

Que discussão bacana, S. Fontes. Afinal, como ser contemporâneo sendo, ao mesmo, tradicional? Acho que muitas vezes procura se situar o artista dentro de um espaço-tempo (fulano de tal que morava no ano tal em tal lugar) e se esquece de tentar perceber a sua obra. No entanto, é verdade que por diversos motivos o artista acaba não sendo ouvido porque o que quer dizer já é comum. Esperarei outros comentários para ver onde vai dar o debate.

Abraço.

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 30/8/2007 16:27
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Helena Aragão
 

Tomara que esse baque em relação à coisa da França faça os artistas daí efetivamente acharem respostas sobre os caminhos da produção.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 31/8/2007 19:01
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