Artistas performáticos em disco

internet/divulgação
Karine Alexandrino pagando de rainha
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Marcelo Mendes · Brasília, DF
20/9/2006 · 139 · 5
 

Tenho em mãos três discos de artistas conhecidos pelas performances em palco, às vezes, muito mais do que pelo resultado musical de suas empreitadas: Karine Alexandrino (Querem acabar comigo, Roberto, de 2004, independente), Repolho (Vol. 3, de 2005, independente) e Rogério Skylab (Volume V, de 2005, encartado na revista Outracoisa). Ouvindo o disco da cearense Karine e lendo a seu respeito é que veio a idéia dessa pauta: como não conhecia muito sobre a artista, a principio fixei-me apenas no lado musical e, depois, ao saber da relevância de suas performances, pensei que o melhor é quando o lado musical, excluindo aí todo o lado extra-musical (importante, obviamente, mas quase impossível de captar em disco), fica também privilegiado, diria até independente desse outro.

O que, definitivamente, é o caso de Karine Alexandrino, com seu mix anos 60, brega e eletrônico. Seu disco de 2004 é, pelo menos na minha perspectiva, injustiçado. Trata-se de uma belíssima coleção de canções, com letras inspiradas e arranjos bem resolvidos, que passam bem até mesmo sem a imagem da artista (que, inclusive, ilustra a bela capa, com um clima anos 60 bagaceiro, e o encarte). Logo de cara, a música “Mulher Ioiô” não só cria uma interessante imagem para a personagem da canção (“um ioiô vagabundo/ de barbante barato e sujo”), como a artista simula um sotaque indefinível, porém nitidamente estrangeiro (latino? Americano? Italiano?). Algo, nessa simulação, é transportado do universo performático para dentro do disco – o sotaque percorre quase todo o disco, criando um incomodo, acredito, e uma questão na cabeça do ouvinte.

O disco consegue outros pontos altos, como em “Amor e glória é só boato”, com uma introdução à Raul Seixas/Odair José (escolha, desde aquele lugar onde esses dois artistas se encontram) e voz fanha (“para de se preocupar comigo/ faça um curso de inglês”), ou na versão da música de Yoko Ono, “Kiss Kiss Kiss”, ou mesmo na infame “O Elefante”, de Robertinho do Recife, brilhantemente resgatada e, digamos, salva. Em tempo, e para justificar minha empolgação com a musica de Karine, nunca assisti a um show da artista, ficando apenas com os comentários a respeito – e, a se tirar pelas músicas, o show realmente deve ser muito bom.

No caso do Repolho, com seu Vol 3, temos um bom exemplo de banda performática que consegue colocar o lado musical de seu trabalho à altura de seus shows. Dessa banda não apenas vi alguns shows, como tive a oportunidade de acompanhar a preocupação do quarteto com a performance. No entanto, nos atenhamos, como no caso de Karine, ao lado musical. Não só nesse CD, mas em todos os discos, a banda consegue trazer isso que chamei de incomodo, de estimulo ao ouvinte, para dentro das canções. “Benga na alemanha”, uma das minhas prediletas, faz uma mistura inusitada: marchinha de banda alemã, com a linha de baixo executada em trombone e batida eletrônica, cantada com sotaque alemão falsificado. Mais uma vez, o sotaque serve aqui como elemento extra-musical (por serem do interior de Santa Catarina, serão os músicos alemães?), além de, nesse caso, ser muito divertido.

Outro bom exemplo é a canção “Não fui eu”, que traz como personagem um psicopata (a música é cantada em primeira pessoa) e toda sua trajetória assassina, incluindo aí, a dúvida a respeito da autoria do crime e o final em que o, digamos, “eu-lírico” da canção realmente enlouquece, balbuciando coisas ininteligíveis. Você quase pode imaginar o personagem encarnado no vocalista e emoldurado pelo arranjo de teclado de Júpiter Maçã. Outra canção que merece destaque, “Meu coração é assim mesmo” é uma falsa balada jovem-guarda, falsa canção romântica, pura ironia (exacerbada pelo arranjo desencontrado): “Meu coração é assim mesmo/ volta e meia ele se lembra/ e se esquece de você/ Mas também quando se lembra...”.

No último caso, Rogério Skylab, apesar de nunca tê-lo visto em ação – a não ser em uma canção executada no programa do Jô Soares, há algum tempo –, é notório o aspecto performático do artista, patente, inclusive, em sua bizarra figura (nesse Volume V o artista aparece travestido na capa, quase irreconhecível). O disco, lançado pela revista Outracoisa, infelizmente, fica aquém de sua fama em cima do palco. Os resultados musicais que Skylab consegue estão entre algo como o metal (em sua versão mais “new”) e letras escatológico-adolescentes, sobre mortes de animais fofos e entes queridos, que tem seu ápice na iggypopiana/édipiana “Semana Passada”: “Semana passada/ Esquartejei meu pai/ Botei sua cabeça na sala de jantar”. Em termos líricos, o artista acerta na música “22x2=43”, em que brinca com a relação entre o ideal de perfeição matemática (no caso uma matemática aleatória, digamos, “errada”) e o ideal de perfeição insípida da bossa-nova. É, talvez, o único momento do disco em que Skylab põe algo em xeque, fato que pode, inclusive, empatar com suas performances ou seu visual. Curioso é o discurso do artista, em entrevista à própria revista, falando sobre a caretice musical de seus contemporâneos – o que destoa de sua prática, extremamente tradicional, muitas vezes óbvia.

Para finalizar, é bom saber que há artistas que se preocupam com sua performance, com suas músicas, visual e apresentações, que pensam em seus projetos de uma forma completa, sem, é claro, privilegiar um lado sobre o outro – o que torna essa matéria um tanto imprópria, já que é quase impossível dissociar alguma coisa, a não ser com um objetivo analítico, como foi o caso. Em minha defesa, o que posso dizer, é que, pela distância, ou mesmo impossibilidades financeiras, comuns ao mercado alternativo, podemos nunca ver um desses artistas ao vivo, o que faz com que seja interessante pensar esses discos para além do artista, como produto independente do todo que eles concebem.

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Helena Aragão
 

Há casos em que ver o show faz toda a diferença, que só o disco faz pensar que falta alguma coisa... Em tempos de youtube, sites temáticos e vídeos por email a distância pode até diminuir, mas nada tira o poder do "ao vivo", né... Ou não?
Só umas dicas, nada demais: no primeiro parágrafo você escreve "Alexandre" no lugar de "Alexandrino". Seria ótimo se você pudesse colocar links também. Certamente esses artistas têm sites, né? Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 18/9/2006 16:16
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Thiago Camelo
 

Um músico português - amigo meu - conheceu a Karine primeiro por meio dos Cds. Ele estava encantado. Só depois expliquei a ele sobre suas habilidades performáticas.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 19/9/2006 16:13
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Marcelo Mendes
 

Pois é, eu pensei na distância física da coisa - nem tinha pensado nessas outras alternativas. Aliás, já até vi um vídeo da Karine por aí, pea internet - e, como disse, vi o Skylab no Jô. Mas eu gostaria de ver shows desse povo todo aí... Às vezes, o CD é uma boa introdução ao artista. Manda o CD Repolho pro seu amigo portugues e verá! Valeu pelas sugestões e comentários!

Marcelo Mendes · Brasília, DF 19/9/2006 18:36
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Luisa Venturi
 

Marcelo, acho que vc foi infeliz nos comentários sobre o SKYLAB. Letras escatológico-adolescente???? Prática tradicional e óbvia??? Mas quando vc vai ouvir os discos da Karine ou do Repolho, aí sim que aparece com evidência o óbvio, o tradicional e o universo adolescente. Acho que pra se fazer uma crítica fundada, se deveria ao menos conhecer o conjunto do trabalho. No caso do Skylab é muito fácil se ter acesso, basta entrar no seu site (www.rogerioskylab.com.br). Ali vc teria contato com todas as suas letras, todos os seus discos, e uma parte de seus poemas/textos. É o mínimo que se deve exigir de um crítico, não é mesmo?

Luisa Venturi · Rio de Janeiro, RJ 20/9/2006 12:44
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Ana Cullen
 

Desculpe usar esse espaço para isso, mas você não aceita receber mensagem, como estou tentando avisar pra todo mundo que contribui pro Overmundo e é de Brasília desse encontro, só me restou essa alternativa, aí vai o recado:

Atenção! Atenção! Vai acontecer o 3º Encontro de Overmanos e Overminas de Brasília...
Vamos nos encontrar dia 20 de dezembro, no Bar e Distribuidora de Bebidas Piauí, na 403 sul, ao lado do Gate´s Pub, às 19 hrs. Só para terminar o ano... Presenças confirmadas: Ana Cullen (eu), Daniel Cariello e Ju Santana!
A idéia é se encontrar no bar, conspirar um pouco, trocar idéias, angústias, anseios e frustações, comer um churrasquinho, ou mandioca para os vegetarianos, beber uma cerveja para os que bebem cerveja, suco para quem bebe suco ou refrigerante, àgua... já deu para entender né? Depois ir para o Gate´s relaxar, pois dia 20 é uma quarta-feira, isso quer dizer: Quarta Vinil do Gate´s Pub! E o DJ convidado é o Daniel Cariello! Enfim, quem não estiver afim de esticar a noite, dá só uma passadinha no Piauí para conhecer a galera de Brasília do Overmundo ao vivo, a virtualidade tem suas vantagens mas nem tanto!
Os freqüentadores de Brasília no Overmundo aumentaram muito nos últimos tempos, estamos curiosos para trocar idéias e conhecer essas pessoas, compareçam! São todos mais do que bem-vindos! Os novos e os antigos...
Abraços e até!
Ana Cullen.

Ana Cullen · Brasília, DF 12/12/2006 12:47
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