"O som é seco como o chão sob os pés calçados em sapatos simples (ou no chão). Pelas ruas, com repiques de tambores e chiados de gungas, brasileiros cantam a própria fé " Murilo Gontijo
A comunidade 'Arturos' mantém viva tradições negras do Brasil, em pleno coração da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Assim é criado um belo contraste entre os monumentos e modos urbanos e a centenária tradição negra. O grupo tem a origem ligada ao negro Artur Camilo Silvério, nascido em 1885 e sua esposa Carmelinda Maria da Silva. Arthur, hoje são Arturos (descendentes), dessa forma, a família é mantida e alimentada pela raiz inicial, o pai. Já no nome pode-se atestar a força da ancestralidade: filhos, netos e bisnetos. Desde então, são mais de 108 anos de tradição.
Atualmente os Arturos constituem um agrupamento com cerca de 400 negros, que habitam uma propriedade familiar, no local denominado Domingos Pereira em Contagem. A comunidade é representada juridicamente pela Irmandade Nossa Senhora do Rosário de Contagem. O papel principal da Irmandade é cuidar da organização das festas. Foi fundada em 1972, é composta das guardas de Congo e Moçambique. A guarda de congo é responsável por abrir os caminhos nos cortejos. O moçambique é responsável por conduzir os reis e rainhas, guardar e proteger o Reinado, são os últimos no cortejo. Os capitães ditam o canto e são autoridades. Entre eles, a autoridade máxima é do capitão-mor. Embora o presidente da Irmandade seja um capitão, ele apenas assina as documentações necessárias. Os idosos decidem tudo dentro da comunidade. Conforme a tradição são muito respeitados e são considerados de valor fundamental na cultura vivenciada pelo grupo. Eles são os responsáveis pela bonita e orgulhosa comunidade negra, também são eles que transmitem os ensinamentos e a devoção a Nossa Senhora do Rosário, manifesta através do congado, herança deixada pelos pais. Os costumes são transmitidos de pai para filho, pelas conversas e contação de histórias, sendo assim, repassado o modo de ser Arturos. O grupo expressa fundamentalmente as realizações artísticas culturais com a celebração do sagrado.
A cultura negra é mantida por meio de manifestações do grupo. No Batuque, os participantes dançam descalços. No Candomblé, na tradição dos Arturos é um ritual interno, conduzido pelos principais capitães do grupo. Nesse ritual eles estabelecem o contato com Nossa Senhora do Rosário e com os antepassados, mantendo um elo entre os vivos e mortos. Esse é um dos movimentos que destaca o culto das raízes africanas dos negros. Nos altares, entre coroas e bastões existem imagens de santos católicos, pretos velhos, São Cosme e Damião, Iemanjá e São Jorge.
AS FESTAS
Nas festividades até as roupas utilizadas pelo grupo conservam as tradições negras. Elas são no estilo das utilizadas na época da escravatura. Os eventos são marcados ao som dos tambores e o contato dos pés no chão. Os Arturos mantém um calendário festivo anual. As principais comemorações do grupo são: a Festa da Abolição da Escravatura. Nela, é comemorada a Lei Áurea. Este é também o momento no qual a Irmandade rememora a escravidão. A Festa de Nossa Senhora do Rosário, é considerada a comemoração mais importante da comunidade e representa o amor máximo da grande mãe. A tradicional Folia de Reis, em janeiro, relembra o ato bíblico dos três reis magos. É uma das mais belas manifestações deles.
A importância desse grupo étnico, no contexto cultural, extrapolou nossas fronteiras ganhando reconhecimento internacional. Atualmente a comunidade é considerada pelos estudiosos como uma das manifestações mais genuínas da cultura negra tradicional no Brasil, pela música, roupas e encenações. Recentemente o grupo participou do filme Filhas do Vento, do diretor Joel Zito Soares. Além disto, a Irmandade é um recorrente objeto de estudos acadêmicos.
CD LIVRO
'Cantando e Reinando com os Arturos', foi um cd – livro lançado pelo grupo. Concebido e realizado por mestres de Congado da comunidade, o trabalho foi muito bem conduzido por uma equipe técnica que envolveu pesquisadores, técnicos de som e designers. O cd – livro divulga uma das mais importantes expressões da cultura religiosa afro-brasileira presentes em Minas, representada pela comunidade quilombola.
Os diferenciais do cd - livro são a autenticidade e beleza. Tanto a concepção, quanto a realização é da própria comunidade. 'Cantando e Reinando com os Arturos', evidencia fielmente a visão que os membros têm de si e que desejam divulgar. O livro conta a historia dos Arturos contém belas imagens. Na capa e contra capa, existem dois cds com 52 faixas de áudio compostas por músicas cantadas nos festejos do grupo e dois admiráveis depoimentos, com a narração de Antônio Maria e do falecido Capital Mor Geraldo Artur Camilo. Para não deixar esse trabalho "morrer" os Arturos já planejam uma nova edição.
Calendário Festivo:
Janeiro
- Folia de Reis
- Encerramento da Folia de Reis
Março/Abril
- Sábado de Aleluia, abertura do Ciclo de Reinado (o ciclo se estende até dezembro, período em que eles participam como convidados em festejos das demais comunidades congadeiras).
Maio
- Festa da Abolição da Escravatura
Outubro
- Festa de Nossa Senhora do Rosário
Dezembro
- Realização do Ritual da Festa João do Mato
- Encerramento do Ciclo de Reinado
- Abertura do ciclo Natalino
Saiba mais sobre os ARTUROS:
Cantando e Reinando com Arturos, Contagem. 2007
ALVES, Regina Helena & BORBA, Denísia M. Projeto quilombos: Comunidade negra dos Arturos. Belo Horizonte. Anais do 7º Encontro de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais. 2004
GOMES, Núbia Pereira de Magalhães & PEREIRA, Edmilson de Almeida. Negras Raízes Mineiras: Os Arturos. Juiz de Fora: Universidade Federal de Juiz de Fora, 1988.
LUCAS, Glaura. Os Sons do Rosário: um estudo etnomusicológico do congado mineiro – Arturos e Jatobá. Escola de Comunicações e Artes da USP: 1999.
SANTOS, Erisvaldo Pereira dos. Religiosidade, identidade negra e educação: o processo de construção da subjetividade dos adolescentes dos Arturos. Dissertação de Mestrado em Educação: Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, 1997.
SABARÁ, Romeu. A Comunidade Negra dos Arturos: o drama de um campesinato negro no Brasil. Faculdade de Filosofia, Ciências Sociais e Letras da Universidade de São Paulo, 1997.
SILVA, Júnia Bertolina. O Congado na Comunidade dos Arturos: Catolicismo ou Culto Africano? Monografia para obtenção de bacharel no curso Ciências Sociais: Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, 2002.
Grande colaboração Grazimaia. Obrigado pela aula.
Higor Assis · São Paulo, SP 5/11/2007 16:00Muito interessante mesmo. Só fiquei com pena de ver as fotos meio fora de foco ou apertadas. Será que não foi só uma dificuldade de postagem? As fotos têm que ter entre 600 e 1000 px de largura. Se você quiser tentar mudar, ainda tem tempo de edição. Abraço e parabéns!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 5/11/2007 17:58
Obrigada Higor. O trabalho do grupo é muito gracioso.
_____
Valeu a dica Helena modifiquei o formato e melhorei a nitidez.
Creio que melhorou muito.
Abs
Makuiu Sacerdote do Candomble de Angola e fico feliz em ver grandes manifestações de tradição do povo banto
Kiguá Angolense
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