ARY TOLEDO E O TESTAMENTO DO PADRE CÍCERO

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Abílio Neto · Abreu e Lima, PE
13/6/2011 · 6 · 5
 

“Num tenho capacidade
Mas sei que num digo à toa
Padre Cícero é uma pessoa
Da Santíssima Trindade

Perdido no Ceará
Lá no meio do sertão
Existia um bom padre
Chamado Cícero Romão
Doença, miséria havia
Doutor nem tinha por lá
Nem remédio em Juazeiro
Só as coisas que Deus dá

Tinha erva pelo mato
Muita fé no coração
Pois isso já lhe bastava
Ao bom padre Ciço Romão
Muito doente sarou
Só de ouvir a pregação
Pelos conselhos o padre
Não cobrava nem tostão

Sua fama correu mundo
E vinham todos ouvir
Também em questões de terra
Cabia ao padre decidir
Era o padre homem de bem
Que a paz muito prezava
E os camponeses armado
O padre sempre acalmava

Esse homem mendicante
Que de graça trabalhava
Vivia da caridade
Daquilo que o povo dava
Findou-se um dia o velhinho
Foi grande a consternação
Juntou-se o povo sofrido
Na mais comprida oração

Piedoso testamento
Ouviu com todo respeito
Querendo saber do padre
Um pouco do seu direito
Fez-se leitura bem alta
Começando por fazenda
E cinco foram contadas
Que tinha ganho de prenda

Lá na rua de São Pedro
Possuía um quarteirão
Fora mais quinze sobrados
Esse bom Padre Romão
Trinta sítios bem cuidados
Era sua propriedade
Mais alguma casa ou lote
Também tinha na cidade

Muita vaca, boi e ave
Cabra, cavalo e carneiro
Que se perdeu logo a conta
Depois dos vinte milheiro
Essa estória vem provar
E o testamento também
Como sempre sai lucrando
Quem na vida faz o bem...”

Corria o ano brabo de 1966 quando o grande artista Ary Toledo fez um show no auditório da TV Record de São Paulo. Pra quem não sabe, Ary canta bem e é bom violonista. Pois bem, naquele show que se transformou em disco apareceram várias obras primas. Uma delas era o “Testamento do Padre Cícero”, do grande diretor de teatro Augusto Boal e Gilberto Gil. A outra, a música que mais gozou o nordestino até hoje: Pau de Arara, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, que ficou conhecida popularmente como "o comedor de gilete".

Augusto Boal é considerado um dos maiores talentos em teatro de todo o mundo. Foi o criador do famoso "teatro do oprimido". Era homem de esquerda assim como Gil em início de carreira. Em 1971, Boal foi preso, torturado e exilado, passando a morar na Argentina. Faleceu em maio de 2009.

O que quase ninguém conhecia é o lado de compositor do famoso diretor teatral. É inegável que ele e Gil ridicularizaram com o Padim Ciço. Mas até hoje falam que o testamento daquele religioso sempre gerou muitas polêmicas até porque surgiram vários e dizem que um sempre modificava outro que lhe era anterior.

Como no disco surgiu outra gozação com o pau de arara cearense, é fácil saber a quem eles queriam atingir: o presidente Castelo Branco que naquele ano de 1966 fez cassação de mandato aos montes.

O próprio Ary Toledo na turnê que fez com esse show chegou a fazer piada com o regime militar desta forma: "quem não tem cachorro, caça com o gato e quem não tem gato, cassa com o ato". Chegou a ser detido por isso.

Mas se a música foi injusta com o santo do Juazeiro eu não sei. Sei é que ela comprova o grande talento de Gil como compositor (musicou os versos) e ofereceu a oportunidade de conhecer o lado poético de Augusto Boal em grande dose de ironia.

Entre 1966 e 1969, eu escutava muito essa música, até para esquecer a coisa ruim que era viver no regime militar. Reconheço que naquela época os artistas que faziam MPB produziam muita coisa boa. Hoje, parece que vivemos em tempos de vacas magras, pelo menos para aqueles que gostam de uma música bem trabalhada e que traga uma mensagem.

Então, com vocês, o talento de Ary Toledo interpretando “Testamento do Padre Cícero”. Boa audição!

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Remisson Aniceto
 

Caro Abílio, um prazer ouvir o "Testamento do Padre Cícero", depois de ler a bela poesia e o texto complementar sobre o Ary, de cuja arte sou admirador de longa data. Obrigado por compartilhar.
Remisson
www.nossomundo.bligoo.com.br

Remisson Aniceto · São Paulo, SP 15/6/2011 09:25
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Abílio Neto
 

Caro Remisson, eu tenho um compromisso com a cultura conforme você viu neste artigo. Tanto a música quanto a poesia tem berço. São coisas velhas e já esquecidas pela fraca memória do nosso público ouvinte. Eu sou um renitente! Obrigado.

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 15/6/2011 12:13
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ayruman
 

Um primor de contribuição amigo. E viva nossa tão ignorada raízes culturais!

Saúde e Paz!

ayruman · Cuiabá, MT 15/6/2011 16:46
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Abílio Neto
 

Obrigado, meu querido Ayruman. Você irá me encontrar sempre neste espaço. E sempre defendendo aquilo que eu considero a boa música brasileira.

Normalmente sou muito ocupado, mas espero visitar suas contribuições no Banco de Cultura. Será um prazer.


Abraços do

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 15/6/2011 17:49
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VitorC
 

Adorei o post, tanto a música quanto os comentários. O link para o 4shared, contudo, não é válido. Gostaria muito de escutar de novo essa música, que só conheço dos vinis da minha avó! Poderia disponibilizar um link?

VitorC · Colatina, ES 20/5/2014 15:57
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