As arapucas do menino

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Resenha publicada originalmente no jornal O Povo
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
17/5/2008 · 52 · 3
 

Com pouco fica-se sabendo que “mutum quer dizer mudo” e vêem-se, numa ligeireza, os paralelos: porque mutum também é ave noctívaga, de pio agudo; é vivente do sertão, pois. Que nem Thiago, Felipe, a mãe, o pai, o tio Terez, a Rosa, a avó Izidra e o restante da meninada (gente aparentada dum certo Manuelzão e dum certo Miguilim, personagens da novela Campo Geral, de João Guimarães Rosa, escrita ainda nos anos de 1950). Antes de ser ave, ou depois, não se sabe, Mutum é espaço, lugarejo, torrão espalhado de terra nos sertões mineiros, roseanos. E, por fim, é narrativa cinematográfica — sem espetáculo, sem música que estronde, sem luz que arrebente, sem dramas existenciais excessivos além dos tantos que já cercam o dia-a-dia. Mutum, o filme de Sandra Kogut (Um passaporte húngaro), é silente.

Sem som, apenas o que vem de si. Embalado pelo envivecer da noite, os silêncios da cozinha na hora do de-comer posto em pratos de alguidar; os sulcos abertos no roçado de milho, as arapucas montadas no meio do mato, as pernadas veredas adentro, o cavalgar sertão afora. Mutum é assim: cru. Meio documentário, meio ficção. Uma ficção que, não sendo real, assusta. Mutum se abeira do real assustadoramente. Em vez dos planos abertos do sertão cinematográfico, o filme vai é no encalço do menino Thiago (Thiago da Silva Mariz), 10 anos, irmão mais novo de Felipe (Wallison Felipe Leal Barroso), cuja idade desconhece-se. Mutum persegue-o, amiga-se do menino, escuta-lhe as queixas, encosta-se, ao seu lado, às portas da casinha onde mora com o pai (João Miguel, de O céu de Suely e Cinema, Aspirinas e urubus), a mãe (Izadora Fernandes) e um magote de gente. Serve-lhe de ouvinte, pois. Esse o propósito. “Acho que onde fomos mais fiéis ao Guimarães Rosa foi na maneira de nos relacionarmos com o sertão, com as pessoas. Foi uma relação muito orgânica”, aclareia a diretora Sandra Kogut em entrevista publicada no site oficial do filme.

Dizer do roteiro é fácil. O mundo vasto do sertão visto sob as lentes de uma criança, o Thiago. As intrigas, a violência, a morte, o gostar, o odiar, as relações entre pai e mãe e filho e pai novamente. A amizade, por fim. As crenças, os mistérios — porque Mutum, o lugar, está prenhe deles. Guimarães Rosa assegurou: nessa história está o germe de tudo que fez e que ainda faria. Coalhada de elementos autobiográficos, era a sua predileta. Miguilim, seu alter ego. Nela, o menino é confrontado com um punhado de dissabores a um só tempo. É testado freqüentemente. Pela mãe, pelo pai, pelo tio, por Rosa (a negra que cozinha, lava e faz pipoca), pela avó. O mundo que cerca Thiago/Miguilim como que o apavora, imobiliza-o. Estático, o menino estranha. O pai reclama: diabo de menino calado. De passagem, o homem da cidade, por ventura médico, acode: o menino é normal, gosta de brincar, de sair? A mãe consola-o. Além dela, apenas tio Terez (Rômulo Braga) achega-se do menino, afaga-o. Thiago festeja, cobre-se do riso que vai, do início ao fim do filme, roubar a cena.

“A paisagem eram os rostos”, dissera Kogut. E o de Thiago não é árido, poeirento, ressecado feito a piçarra do sertão. É límpido. Montado numas canelas finas, o menino vai tanger a narrativa ao modo dos aboiadores. Mais que tanger, Thiago conduz. Em seu caso, roubar a cena passa ao largo do comum da expressão. Não é preciso, seguro falar-se em show de interpretação. Thiago interpreta? Sabe-se lá. Pensa-se um pouco mais e chega-se à conclusão: sim, o menino interpreta. Em alguns momentos. Na maior parte do filme de Kogut, Thiago vive. Com ele, a família. Na tela, apenas os atores interpretam — João Miguel assume os lundus do sertanejo calado e bruto, que arenga por besteira, destrói as coisas do menino apenas por achá-lo aquietado e sobranceiro. Os demais, não-atores, gente da terra, que vive uma Mutum diária — como Thiago da Silva Mariz, cuja primeira vez num cinema foi na estréia do filme no Rio, no final do ano passado — os demais a bem dizer vivem. Se lhes pedem que chorem, eles choram. Que riam, eles riem. Ao escovar os dentes, fumar um cigarro pé-duro, banhar uma cachorra, correr atrás do louro que se tinha escapulido e empoleirado numa árvore. Nessas horas todas, assiste-se não a uma ficção propriamente dita. Ficção, sim, mas feita por gente inteira.

Na mesma entrevista que pode ser acessada no site do filme, a diretora: a maior parte dos atores não é feita de profissionais. “Como eu venho do documentário, para mim era importante trabalhar as relações entre as pessoas e criar tensões dramáticas que não me parecessem artificiais.” Adiante, Kogut explica-se. “Tenho a impressão de que tem os filmes que se parecem com cinema e aqueles que se parecem com a vida. O segundo grupo me interessa mais.” Mutum pertence às duas categorias: é cinema, é vida.

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Nivaldo Lemos
 

Henrique,
uma pena que não vi Mutum à época de seu lançamento, mas se já tinha vontade, agora tornou-se um imperativo para mim assisti-lo. Seu texto é o culpado. Como a dita ave em extinção, ele é dessas coisas que a gente tem que guardar para ler com prazer nas horas de silêncio. A poesia que lhe transpassa também se nos arremessa (aos que viveram tempos assim) à infância sertaneja, marcada por cantos e encantos de outras terras e outra gente da mesma feitura roseana - e me refiro a mim, à minha infância no Piauí, onde vivi minha Mutum particular. Acho que este filme vai me levar às lágrimas. E o culpado é seu texto. Obrigado.

Agora - como ainda está em edição - sugiro-lhe colocar no texto um link para o trailer do filme e algumas fotos maravilhosas que encontrei no site institucional: www.mutumofilme.com.br O que você acha? Um abraço e, mais uma vez, parabéns.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 15/5/2008 11:44
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Bom, Nivaldo. Muito obrigado pela leitura do texto e também pelo comentário amistoso. Sei bem do sentimento ao qual você se refere. Embora não tenha nascido numa Mutum, conheço algumas espalhadas pelo sertão central cearense.

Agradeço também as observações. Coloquei o link do site oficial do filme no primeiro parágrafo. Para quem quiser, vale mesmo a pena. A íntegra da entrevista com a Sandra é uma maravilha.

Amanhã coloco mais fotos aqui. O tempo anda corrido.

Abraços...

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 15/5/2008 12:20
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Helena Aragão
 

Bonito filme, bonito texto. Pra mim Mutum foi uma das melhores surpresas cinematográficas dos últimos tempos. A única coisa que pegou (talvez mais por culpa do cinema onde vi do que do filme em si) foi o som, que parecia muito abafado no começo, a ponto de eu não conseguir entender alguns diálogos. Mas, talvez não por acaso, como para o personagem, as coisas foram ficando mais claras com o decorrer da história. Tudo em Mutum cheira a simplicidade, marcada pelo olhar sem tiques de criança-artista do Thiago.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 15/5/2008 16:21
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