Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

AS DUAS VELHINHAS

Marcelo Uchoa
ilustração - Sem Título
1
Marcelo Uchoa · Aracaju, SE
17/10/2006 · 68 · 3
 

Contam que duas velhinhas moravam juntas. O povo não sabia se eram parentes ou possuíam qualquer outro tipo de relação, o que se tinha certeza é que elas moravam juntas e sozinhas.

Uma chamava-se Dolores e era conhecida como Dores. Em algum momento de sua vida alguém suprimiu a sílaba do meio de seu nome e desde então ninguém mais a conhecia por outro nome, somente por Dores. Era aposentada do INSS e recebia um salário mínimo por mês, o que quer dizer, uma miséria. Também, é bem verdade, não tinha muito com o que gastar. Sessenta por cento do que recebia era gasto com remédios. Eram comprimidos, xaropes, gotas. O idoso precisa viver sem ter o que fazer, pois grande parte de seu tempo é gasto controlando a hora, esperando o momento certo de tomar seus remédios. Poderia até ser cômico se não fosse uma realidade cruel. Os quarenta por cento restantes da miserável aposentadoria eram gastos com alimentação sua e de sua companheira.

Chamava-se Ruana, apesar de nunca ninguém a chamar assim. Ana era o nome pelo qual respondia quando a chamavam. Ana tinha problemas mentais. Era inquieta e acometida, de vez em quando, por crises. Essas a faziam gritar e rolar pelo chão. Não existiam remédios para a sua enfermidade diziam os médicos. Por isso, não lhe ministravam qualquer medicamento. Entretanto, quando não estava em crise Ana era uma pessoa quase normal. Trabalhadeira, ajudava Dores nas tarefas domésticas. Era comum passarem pela porta da casa delas e ver Ana a limpar, varrer, lavar.

Dolores, por força de seus problemas de saúde, vivia exaurida, sem disposição para quase nada. Sua tarefa diária era preparar a comida das duas e avisar Ana do horário de almoçarem. O restante do tempo passava em sua rede, armada na sala da pequena casa onde moravam. Quando escurecia, Dores levantava-se e, aproveitando o que sobrou do almoço, servia o jantar para as duas. Feito isso, voltava para a rede.

Dormiam cedo. Quando ia deitar-se Ana, respeitosamente, avisava Dolores que, gemendo, levantava-se da rede e pessoalmente verificava as trancas das portas e janelas.

Certo dia, ao passarem em frente à casa das duas, avistaram Ana lavando as portas e janelas. Fato visto como normal, pois Ana vivia a limpar, varrer, lavar. No dia seguinte, foi vista por alguns lavando as paredes da casa. Jogava grandes baldes de água nas paredes e esfregava-as com uma vassoura de piaçava. No terceiro dia os vizinhos alardearam que Ana havia colocado todos os poucos móveis da casa para fora e lavava um a um com água e sabão.

A essa altura a notícia dos últimos feitos da Ana já havia se espalhado e uma pequena multidão formou-se ao longe para observá-la e tecer comentários. – seria uma nova forma de crise? Perguntavam alguns – é doidera mesmo, afirmavam outros.

No quarto dia consecutivo, antes do sol raiar, Ana, com o auxilio de uma escada já havia subido no telhado e, equilibrando-se, lavava uma a uma as telhas. O alvoroço foi geral. Pessoas que moravam a mais de um quilômetro de distância da casa das duas vieram para ver com os próprios olhos o que tinham ouvido falar. Era verdade, Ana estava cada vez mais doida.

Decidiram ir até lá e pedir a ela para descer e desistir de lavar o telhado. Poderia cair, se machucar. Ela não lhes deu ouvido. Limitou-se a dizer que tinha que lavar para tirar o cheiro ruim, o fedô.

As pessoas não entendiam o que Ana repetia. Tirar o fedô? Que fedô? Aglomeram-se em volta da casa procurando frestas que permita ver o interior. Alguém pergunta por dona Dolores. Ana não responde, continua repetindo, já quase balbuciando, tirar o fedô, tirar o fedô, tirar o fedô. Empurram a porta da casa que se encontrava somente encostada. O mau cheiro é insuportável. Alguns, tapando o nariz, adentram na casa e encontram dona Dolores estirada na rede, morta. A julgar pelo estado de putrefação deveria estar ali a pelo menos uns dez dias.


compartilhe

comentários feed

+ comentar
apple
 

Foi muito agradável a leitura do seu texto! E o final foi surpreendente.

Nossa! Ana não conseguiu concluir o motivo do cheiro desagradável no interior da casa... falta de sanidade mesmo.

Já visitei locais de internação psiquiátrica. Vi que muitos pacientes desses hospitais têm bastante capacidade de fazer certas atividades, como no seu texto... Olhando rapidamente você nem diz que tem distúrbios mentais severos.

Só que a questão de acabar com os hospitais de internação é complicada, né?

apple · Juiz de Fora, MG 14/10/2006 18:28
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Tatiana Hora
 

Eu adorei a Ana!
e a história do nome de Dores!
cara, você é muito bom.
bjao

Tatiana Hora · Aracaju, SE 23/10/2006 23:47
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Marcelo Uchoa
 

Obrigado tatiana!!!! Se vc quiser olhar tem outras coisinhas nossa escrito no overmundo, vai nlá dar uma olhadinha..... Beijo.

Marcelo Uchoa · Aracaju, SE 24/10/2006 18:06
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados