As lições de Vanete

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Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ
24/12/2006 · 283 · 9
 

A personagem principal se apresenta de um modo peculiar: “Eu sou Vanete Almeida. Sou de uma comunidade que se chama Jatiúca, que provavelmente você não encontra no mapa, que está num município que você também nunca ouviu falar, que se chama Santa Cruz da Baixa Verde, distrito de Serra Talhada. Eu estou no interior de Pernambuco, na parte do semiárido, a 430 quilômetros de Recife”. Vanete sempre freqüentou os movimentos rurais de sua vizinhança e se incomodava com o fato de ver poucas mulheres participando das discussões. Um dia, na década de 80, resolveu armar um encontro de saias. Apareceram duas companheiras. Insatisfeita, ela começou a conclamar a mulherada por um programa de rádio em que falava das coisas do movimento rural. Começaram a aparecer outras, desconfiadas. E esse foi só o primeiro desafio.

O segundo foi fazer essas mulheres falarem. “Para vocês pode parecer engraçado, mas era muito difícil alguém abrir a boca quando chegava lá. Elas não estavam acostumadas a falar, a ter quem ouvisse. Eram muitos os encontros em que, ao invés de falar, a gente chorava. Batizamos de Encontro Molhado”, lembra ela, rindo e fazendo todo mundo rir. De lágrima em lágrima, de fala em fala, o grupo foi crescendo. Passou a debater assuntos delicados, como a violência doméstica, a agricultura familiar (“que de familiar tem muito pouco, é um machismo só”, diz ela), o meio ambiente, as condições de trabalho.

Não demorou para perceberem que a luta delas era semelhante à das mulheres rurais de outros países. Ligaram-se em rede. Uma rede no princípio sem computador, sem dinheiro. “Estamos falando de mulheres muito pobres, que moram em lugares onde muitas vezes não tem luz elétrica.” E assim, por telefone, por carta, por vontades semelhantes, Vanete e outras mulheres do Caribe e da América Latina formaram a Rede LAC. Hoje elas são mais de 20 mil, espalhadas em 20 países. Trocam experiências, compartilham vitórias, elegem temas centrais em congressos que reúnem representantes de todos os países. Para 2007, o grande foco é na água, o que mostra que elas estão bem conscientes da necessidade de pensar os rumos do meio ambiente. Por enquanto, só têm dinheiro para fazer o cartaz. "Queremos apoio, mas não temos interesse em grandes patrocínios. Senão vira moda, e moda passa. De pouquinho em pouquinho vamos fazendo as coisas."

Essa história da Vanete chegou aos meus ouvidos por acaso, em São Paulo. Estávamos eu, ela e mais umas 120 pessoas num encontro, promovido no começo de dezembro pelo Museu da Pessoa, cujo objetivo é formar uma rede de projetos de memória no Brasil (o encontro foi legal, as idéias sobre o Brasil Memória em Rede podem ser vistas aqui). Tive o privilégio de sentar ao lado dela numa das mesas e ouvir seu relato. Sua oratória é de fazer inveja a muitos comunicadores, talvez pela experiência no rádio, talvez pela luta de convencer tantas mulheres a participar de um movimento assim. Ficou todo mundo meio boquiaberto, e uma moça falou muito acertadamente: “Aí você vê como nós não sabemos de nada. Ficamos tão fechados em São Paulo, tentando botar em andamento projetos que envolvem a integração da América Latina. E você aparece e conta tudo isso, como fez tudo com poucos recursos, de modo simples. Temos muito o que aprender”. Como temos...

Aí Vanete contou que, com a rede formada, as mulheres atentaram para a importância de registrar suas histórias. O Museu da Pessoa começou a gravar as falas delas, posso imaginar que os relatos sejam emocionantes. Mas aí veio o momento surpreendente da conversa. Vanete contou que depois das gravações, o museu mandou um papel para elas assinarem. Nele, havia algum tipo de cessão de direitos que fez as sobrancelhas de todas arquearem. “A única coisa que temos é nossa memória, nosso patrimônio, e vamos ceder assim?”, foi a fala de uma companheira que Vanete reproduziu na roda.

O que poderia ter se transformado num momento tenso, já que alguns membros do Museu da Pessoa estavam na conversa, virou um interessante papo sobre as visões do direito autoral. Vanete e suas colegas lêem qualquer papel que chegam a elas. Analisam em conjunto, desconfiam, discutem. Os integrantes do Museu da Pessoa, que, sem dúvida, não estavam mal-intencionados, levaram um susto com a reação. Estão acostumados com essa praxe e nunca tiveram grandes problemas nessa parte do trabalho. Adair Rocha, que representava o MinC, falou: “Amigos, não sei se vocês reparam que estamos testemunhando um momento muito importante”. É verdade. Enquanto o mundo urbano promove seminários e mais seminários para discutir os rumos do direito autoral, as trabalhadoras rurais, que provavelmente nunca ouviram falar em Creative Commons, Copyleft ou coisas do tipo, faziam seu gesto para mostrar que não estavam de acordo com nenhuma espécie de apropriação, pelo menos não sem uma boa conversa.

Com um sorriso, Karen Worcman, diretora do museu, encerrou o papo dizendo que estava até orgulhosa da situação. Que muitas vezes as pessoas nem lêem os contratos e que a negociação com as mulheres ia prosseguir até chegarem num consenso. Não sei exatamente qual foi o fim da história (se é que já acabou), mas ainda assim, acho que ela traz boas lições. E a principal é que todos estão aprendendo.

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Pedro Rocha
 

Muito bom Helena. Realmente do ponto de vista jornalístico seria muito importante que a gente soubesse do fim da história, mas levanta questões realmente muito importante sobre a apropriação dessas narrativas e de como se pode firmar uma relação justa. Muito massa também como a galera do Museu da Pessoa encarou a história.

valeu,

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 24/12/2006 16:30
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Helena Aragão
 

Pois é, fiquei no impasse de adiar um pouco mais, mas aí só contar no ano que vem, já tão distante do fato ocorrido. Aí achei melhor postar logo e complementar, se fosse o caso, aqui nos comentários... Valeu!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 24/12/2006 23:44
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Alê Barreto
 

Helena, muito legal esta experiência. Pessoas simples se posicionando em defesa de seu patrimônio imaterial.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 27/12/2006 11:15
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Sebastião Firmiano
 

Bravo!!!!!Belíssimo trabalho. Fiquei emocionado.
É bom saber que existe, frentes de luta assim:
1º- que organize as mulheres ( lideradas por uma delas)
2º- luta por igualdade e direitos
3º- Atuam no meio rural.
Parabéns.

Sebastião Firmiano · São Paulo, SP 27/12/2006 13:43
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Ruth
 

Afinal inteligência não é privilégio de quem vive nas grandes capitais. Ainda bem!
Mulheres que se unem diante de problemas tão sérios de sobrevivência e de posicionamento no mundo realmente merecem todo o apoio possível.

Ruth · Rio de Janeiro, RJ 27/12/2006 17:28
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Tetê Oliveira
 

Oi Helena, legal a matéria. Existem tantas Vanetes nesse país... E é sempre muito bom conhecer um pouquinho só que seja de suas histórias e lutas.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 29/12/2006 00:37
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Fábio Fernandes
 

Helena, excelente matéria. Não tive a oportunidade de conhecer o Museu da Pessoa ainda, mas há tempos entrevistei a mãe da Karen (que fundou com ela o museu, salvo engano) sobre a S.A.A.R.A. - ela havia acabado de escrever um livro celebrando a diversidade cultural desse centro comercial do Rio. O trabalho que elas começaram a fazer com a imigração judaica no Brasil é fantástico.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 29/12/2006 21:05
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Antonio Rezende
 

A história de Vanete, Helena, me fez lembrar de uma outra mulher simples e sábia, cuja vida de luta deve ser tomada como lição. No Tocantins, mais especificamente na região do Bico do Papagaio, uma quebradeira de côco faz história há um bom tempo reunindo mulheres numa luta que logo se tornará conhecida do grande público. Falo de Dona Raimunda, figura central de um dos documentários do "DocTV", que a TV Cultura deverá exibir em 2007. É esperar pra ver.

Antonio Rezende · Palmas, TO 30/12/2006 09:29
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Helena Aragão
 

Gente, as ferias chegaram (por isso a falta de acentos) e com isso demorei pra ver os comentarios. obrigada! bom, quero muito saber mais da dona raimundo, nos conte por aqui, ou pelo menos qdo sair o documentário de o toque. Como o Pedro falou, o texto ficou incompleto. quem sabe role de complementar qdo eu voltar. soube que o site do museu da pessoa esta em creative commons agora, o que e uma otima noticia. Tete, caramba! qto tempo! adorei te ver por aqui, escreva se puder, tenho certeza que voce tb tem historias fantasticas pra contar. de Nova Iguacu, por exemplo, onde certamente ha mtas guerreiras assim. beijao pra voce! e para todos.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 4/1/2007 00:28
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