ALICE SPÍNDOLA (1940) poeta mineira, artista plástica e divulgadora cultural. Participou de diversas antologias, nacionais e internacionais e fez sua estréia em livro individual, com Fio do Labirinto(1996) já ganhando 2 prêmios: da UBE do Rio, e da Prefeitura de Macaíba, no Rio Grande do Norte. Publicou também livro de contos e O Loire – poema fluvial da França (2006). Vive em Goiás.
SEMPRE BUSCANDO A CANÇÃO ESQUECIDA
No frêmito da ventura,
a fuga e o retorno da imagem
do pequeno barco.
Imagem — fonte e oráculo —
mergulhada na insularidade
do mar de gestos e de palavras.
Com a alma seqüestrada
pela beleza do rio
e pelo rumor de suas águas,
o menino procura a canção esquecida.
Menino parisiense voga nas milhas do sol.
E O MEU AMOR É TANTO
E o meu amor é tanto
que, preso a rede
deste encantamento,
me faço Araguaia, Também.
Sim, ó, Araguaia-mar,
eis o poder de teus enigmas!
Um mar-oceano
se adentra em mim.
E eu, em mar, me converto.
Mar de guas desafiantes.
Mar que voga
nas veias do meu canto.´
SILENCIO
Para Stella Leonardos
Na gruta do anoitecer,
sou a flor acesa que habita
as nervuras do silêncio.
Da sozinhez,
a estrutura
de silêncio & de sigilos.
Dos longes trago o fascínio do luar
e o cetim das pétalas de rosas
paro suavizar
os músculos do quietude.
Penetro janelas & oráculos.
com o perfume da voz da noite.
E, em invisível pouso,
acendo o silêncio
com a forço da paixão
de quem ouve o respirar da palavra,
e o do lucidez que ela me concede.
................ Sou o força acesa deste silêncio.
TERUKO ODA (1945) poeta paulista, é considerada uma das maiores expoentes do haicai no Brasil. Filha de imigrantes japoneses, é professora e fundadora do Grêmio de Haicai Caminhos das Águas(Santos) e presidente do Gremio Haicai Ipê (São Paulo). Já publicou vários livros: Nos caminhos do haicai(1993), Relógio de Sol(1994), Estrela Cadente(1996), Cata-Vento(2001).
Corrida engraçada —
As emas vão se abanando
com leques de plumas.
Vento de inverno —
A velhinha de bengala
quase um caramujo.
Solidão no rancho —
Passatempo do roceiro
o bicho-do-pé.
Barzinho de estrada —
Não sei se como ou se abano
as moscas do prato.
Um quê de inquietude
no balé das borboletas —
Tarde de outono.
No pó ajuntado
entre o asfalto e a sarjeta —
Cosmos florido.
Rápidas bicadas —
Equilibra-se no galho
a ameixa-amarela.
ALICE RUIZ (1946) poeta paranaense, publicitária, tradutora e letrista, destacou-se na geração da contracultura dos anos 60 e 70. Foi poeta de gaveta até os 26 anos, quando publicou, em revistas e jornais culturais, alguns poemas. Mas só lançou seu primeiro livro aos 34 anos: Navalhanaliga(1980). Já publicou 19 livros, entre poesia, traduções e uma história infantil. Letrista, tem mais de 50 músicas gravadas. Já ganhou o prêmio Jabuti(1988) e governo do Paraná(1980).
Tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados
tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido
e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado
*
você esqueceu?
isso acontece
só os mortos
não esquecem
*
que viagem
ficar aqui
parada
SE
se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...
*
Lembra o tempo
em que você sentia
e sentir
era a forma
mais sábia de saber
E você nem sabia?
*
rede ao vento
se torce de saudade
sem você dentro
BARBARA LIA (1955) poeta paranaense, é professora de História e escritora. Publicou poemas no jornal Rascunho, Fenestra, Garatuja, Mulheres Emergentes, Revistas Etcetera e Coyote. Finalista dos concursos de poesia Leminski (2000) e Pinheiro do Paraná (2002), publicou os livros de poesia O sorriso de Leonardo (2004), Noir (2006), O sal das rosas (2007) e A última chuva (2.007).
PROFANA
A cor do amor é branca,
e o amor tem uma covinha do lado direito do rosto
e o amor me olha como alguém
que jamais vai tirar a minha calcinha
e gozar o céu dentro de mim.
O amor sempre vai me olhar
como se eu estivesse num altar de papel.
Para o amor, eu sou uma rima
e rima não tem vagina.
Para o amor, eu sou uma ode
com uma ode ninguém fode.
Eu sou um verso alexandrino
jamais tocado pelo herdeiro deste nome.
Eu sou a palavra, e a palavra, a palavra é Deus
Deus ninguém come, mas
será que beber
pode?
SOPRO DE DEUS
Sigo distraído e breve — piedade na alma,
opulência no calabouço.
Sigo sereno, neblina me abraça.
Meu corpo um jarro de esperanças.
O amor — única navalha que me corta.
Aprendi que somos sopros de Deus — instantes.
MÃOS DE ABRIR NUVENS
Ter mãos de abrir nuvens
Romper o velcro de baunilha
E espiar
Dentro a catedral
Dos sonhos
Um rito de encanto
Crianças e lagos
E mapas emaranhados
A Sexta Avenida
deságua no Eufrates
E as barcas cruzam
De Bagdad ao Mojave
As mãos se enlaçam
Negras brancas
Amarelas azuis.
Ter mãos de abrir nuvens
Descobrir a alma de neve
E perfumes
Que se fazem
Pássaros
Camelos
Bailarinas.
Quem possui mãos de abrir nuvens?
Quem rega pedras
E pesca pássaros
Em tempestades
E ancora no alto
Da montanha mais alta
Suas caravelas.
Quiçá Penélope,
Sem manto, grilhões, espera.
A abrir nuvens
Além da torre de concreto
Em pleno azul
Entre a brancura espumada.
Mãos de mulher livre
A abrir o velcro
Da humanidade encantada.
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