O universo almodovariano é permeado pelas cores de tons rubros, que no inconsciente coletivo estão relacionadas à paixão e à sensualidade. E a paixão é a lei que rege a vida de seus personagens, entregues à catarse de amores por divindades seculares, seres humanos a quem atribuem a magia dos deuses.
Almodóvar não fala de amor, fala de paixão. Ele não traz aos nossos olhos personagens envolvidos na sutileza do amor maduro, e sim na obsessão da idolatria amorosa. Em A lei do desejo, o personagem Pablo fala: “O que mais adoro e o que mais odeio no amor são uma e a mesma coisa; o fato de tomar todo o meu tempo e todas as minhas forças”.
O amor de Almodóvar é vassalo, quando Benigno ama e cuida de uma mulher em coma em Fale com ela; é possessivo, quando Ricky amarra Marina na cama em Ata-me; é vingativo quando Antônio mata Juan, a verdadeira paixão de Pablo, em A lei do desejo. Esse amor dá e não precisa receber, ou às vezes exige o outro por inteiro, mas sempre ultrapassando os limites da adoração e se tornando de alguma forma destrutivo, fazendo aquele que ama perder partes de si num mundo onde o centro é o amante-deus.
Há momentos em que me pergunto se não seria essa a forma de o próprio Almodóvar lidar com o amor. Sim, já que seus filmes têm um tom autobiográfico, principalmente Má educação e A lei do desejo. Em ambas as películas o personagem principal é um diretor de cinema, e Almodóvar brinca com as coincidências, usando até a metalinguagem, como no filme dentro do filme, com limites por vezes imprecisos entre um e outro, em Má educação. Almodóvar lança-se descaradamente na tela, e ele mesmo chegou a dizer, até como estratégia de marketing, que conviveu com mais de quarenta meninos em um internato e foi abusado sexualmente por um padre assim como o protagonista de Má educação.
Em Almodóvar, o amor pode não ser maduro, mas também não é hollywoodiano. É bizarro na sua própria medida. Nos amores de Hollywood, há o encantamento do encontro, o êxtase dos desencontros, e a paixão eternizada nos créditos finais que interrompem o nascimento do tédio. Almodóvar nos brinda com seu mundo de bichas, mulheres neuróticas, com um homem reduzido a mínimas dimensões perdido dentro da vagina, ou da mente da mulher, como na clássica cena do filme preto e branco inserido em Fale com ela.
Almodóvar recorre ao exagero para mostrar a maturidade de suas reflexões. Ele dá uma bofetada nas nossas convicções ao mostrar uma mulher renascer de um coma logo após ser estuprada pelo perdidamente enamorado Benigno em Fale com ela. Diante de personagens e enredos tão esdrúxulos, encontramos algo de familiar na dimensão semântica do filme. Gentes que num primeiro momento podem parecer tão extraordinárias, mas na verdade são universais. Os amores de Almodóvar surgem como uma faceta para falar de nós.
Oi Tatiana! Gostei mesmo do seu texto e concordo com muito do que vc diz sobre o Almodóvar. Uma pena só que a colaboração não trate de um produto da cultura brasileira, que é, na verdade, a intenção do Overmundo. Mas poxa, será que não tem como traçar um paralelo entre os filmes do Almodóvar e o Brasil (ou o cinema brasileiro). Seria curioso para mim, uma vez que realmente não consigo notar como Almodóvar pode ter influenciado algum filme nacional (mas pô, é bem possível que ele tenha, né?).
Sinto falta também de críticas sobre filmes nacionais aqui. O que acha de escrever uma? Abraço!!
Olá Thiago,
Bem, na verdade, eu não conheço muita coisa do cinema brasileiro. Então fica difícil, né? Não sou uma entendida do assunto, não sei muito sobre cinema. Meu texto, perdão se não fiz referência às produções nacionais, mas vou ter de admitir que, de fato, prefiro filmes espanhóis e franceses, e acredito que esse seja um direito meu. Como eu ia dizendo, minha intenção não foi falar sobre cinema como alguém que manja do assunto (acho que falar fluentemente de relações entre filmes brasileiros e Almodóvar seria coisa pra alguém que manda bem mesmo). Escrevi apenas como alguém que é apaixonada por cinema e fã do Almodóvar. Só isso.
abraço!
Claro Tatiana. O direito é absolutamente seu. É que tentei argumentar que o foco do site é mais sobre cultura brasileira e, por ter achado o seu texto bem bacana, pensei que seria interessante saber oq vc pensa sobre o cinema nacional (ainda acho que pode ser bem legal isso : )). Mas enfim, o Overmundo está aberto a todo mundo e é a comunidade quem decide o futuro do texto dentro do site. Abração!
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 20/10/2006 20:42
de qualquer forma, valeu o comentário, Thiago.
bjo
:*
Olá, Tatiana. Gostei do texto. Assisti a alguns filmes de almodóvar e destacaria Carne Trêmula. Muito bom!
Mesmo o foco do overmundo ser a cultura brasileira, ou pelo menos a cultura - ainda que totalmente estrangeira - produzida dentro de território brasileiro, acredito que seu texto contribui de certa forma para o acúmulo cultural de alguns usuários que frequentam este espaço. Pois é fato que o brasileiro, ainda que não tenha produzido, é consumidor potencial de tais obras ou trabalhos, e isso implica e influi na concepção do povo que faz arte e produz cultura no Brasil.
Só uma dica: vote nos seus textos. Não há problema na pessoa votar nos prórios textos. É sinal de que você concorda e gosta do que faz.
Bjo
Tatiana, só para dar o meu pitaco: estou numa situação semelhante à sua aqui no Overmundo.
Inventei que iria escrever sobre todos os filmes que estou vendo na mostra mas até agora todos foram estrangeiros. Depois que notei meu escorregão estou tentando mudar o foco das críticas então para falar mais do evento em si ou quem sabe no futuro relacionar com algum assunto nacional.
Acho que o seu engano é acreditar que não é gabaritada para falar de algum assunto ou estabelecer relações. Desque você saiba se articular e fizer sentido, seu título ou vivência é irrelevante. Pelo menos é isso que eu acredito valer no Overmundo. Além do mais, no máximo o seu texto não é publicado, no mínimo você vai aprender alguma coisa.
Cheguei a pensar em apagar ou reescrever totalmente o que já tinha postado aqui. Mas acho que não vale a pena, a comunidade como um todo irá julgar se o que eu falei é válido ou não, e no fim vou acabar escrevendo mais. E pelo andar da carruagem me parece que a comunidade acabou aprovando seu texto e você vai acabar publicada.
Adoro Almodóvar!!!!!!!!! Acho legal encontrar artigos sobre ele. Sempre tem algo a acrescentar às informações que já possuímos. Valeu!.
Marcelo Uchoa · Aracaju, SE 23/10/2006 21:12
Gosto muito de Almodovar!
Fale com Ela foi o primeiro filme que assisti, e foi isso que me moveu ao seu texto.
Sou apaixonada pelas relações humanas (estranhas, assustadoras e paradoxas por vezes).
Ele sabe construir isso como ninguém, mesmo que pelo exagero, humor seco e refinado.
Almodovar expressa isso dentro do mundo tão pecualiar que cria para demonstar nada mais que relações humanas.
Partindo do bizarro para explicar o cotidiano, Almodovar consegue nos desvendar em nosso mais íntimo desespero. A paixão é, realmente, o sentimento que movem os homens. Uma bela crítica sobre o atual ídolo do cinema espanhol. Parabéns!
Fernando Júnior · Aracaju, SE 21/11/2006 11:52Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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