Um estado e duas culturas. Melhor, várias. Esse é um dos mais característicos aspectos de Rondônia. Antes de começarmos essa viagem pelo Estado, é bom ter em mente algumas palavras. Marechal Rondon, BR-364, Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, Ditadura Militar, Floresta e migração.
Pois bem, tudo isso vai ser necessário para entender por que dois estados moram em um só. Não se preocupe, isso não vai ser aula de história. É só um jeito de explicar como ao cruzar a BR-364 você vai passar por lugares que parecem não estar no mesmo lugar. A BR-364 é a rodovia que corta todo o Estado de Rondônia, é a única ligação terrestre com o Brasil. Essa rodovia, como muita coisa importante daqui, foi construída na época do governo militar. Os generais queriam e conseguiram povoar a Amazônia e para isso convocaram famílias de vários lugares, principalmente do sul do país. Elas vieram. Com seus costumes, tradições e muita vontade de conquistar o sonhado eldorado.
Bem antes disso, atrás desse mesmo eldorado, no início do século XX vieram para cá os trabalhadores da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Vieram da Europa, do Caribe, dos Estados Unidos, de todo lugar. Depois da construção eles foram ficando, ficando e acabaram fundando o que hoje é a capital do Estado. Depois deles, ainda vieram os soldados da borracha, na época da Segunda Guerra Mundial e os garimpeiros de ouro nos anos de 1970 e 1980. Alguns galegos, como chamamos os sulistas, também aportaram por aqui, principalmente os que não queriam a lida no campo.
A economia dessas duas Rondônias bem diferentes não poderia ser igual. O interior é forte e pujante, pecuária e agricultura sustentam o Estado. Na capital, só o contracheque é que salva o comércio. Esse é um dos motivos de muitas das arengas entre o povo de Porto Velho e do interior.
Quer ver briga? Ligue o som. Se estiver em Porto Velho é forró. Aqueles bregas dos bons. Mas se for para o interior, não se esqueça de levar uma boa música country na bagagem. Sertanejo sim senhor. As festas agropecuárias nessas cidades são os acontecimentos do ano e reúnem gente de tudo que é lugar perto. É claro que outros ritmos e culturas podem ser vistos nesses lugares, mas um ali outro mais adiante e nada muito conectado. É como em Porto Velho, onde tem gente que nega que o forró seja a cara da cidade, mas rock não tem sexta, sábado e domingo com casa cheia, sempre.
No futebol a peleja também é grande. Só um time da capital conseguiu vencer o campeonato estadual. E o CFA até já foi extinto. Ji-Paraná é nome do papa tudo do futebol daqui. Mas sabe como é, futebol é melhor nem discutir.
Na política também a distinção é bem grande. O primeiro governador eleito era da capital, seu sucessor também. Mas desde então, só políticos do interior chegam ao Executivo no Estado. Bem, as mulheres também têm suas diferenças. Para quem gosta de loiras, branquinhas com sotaque de porrrrrrta, não há nada melhor que uma voltinha por Ji-Paraná, Cacoal, Vilhena, Jaru ou Ariquemes. Mas se o negócio for morena, então vem pra Porto Velho, aqui elas são quentes como o sol e bravas com o Rio Madeira.
Foi em homenagem ao marechal Cândido Rondon que puseram o nome daqui. Isso mesmo, justo ele, um pacificador e coisa tal. Talvez seja também em sua homenagem que as diferenças entre capital e interior ficam só na gozação. Não tem guerra. O respeito a cada cultura ainda mais forte que o preconceito ou soberba étnica.
Ainda bem que não se trata de uma aula de história. Quem dera aprender a cultura de uma cidade dessa forma, tão simples e objetiva.
Fantástico, Adriel!
Valeu Ariel. Como bem disse o Marcos Paulo, aprender história dessa forma é magnífico, ninguem se aborrece. Agora eu entendo porque tanta gente confunde Rondônia com Roraima e vice-versa. Além dos nomes parecidos, muitas histórias de sua formação se confundem. Tirando a questão política e do futebol, que como vc disse é melhor não discutir, a questão cultural é bem parecida. Um abraço.
Gilvan Costa · Boa Vista, RR 5/6/2006 12:04Obrigado aos dois. Sou um apaixonado por esta terra e pelas histórias e estórias de Rondônia e de sua gente. Se pudesse, escreveria mais cinquenta materias como esta. O prazer que tiveram em ler, eu tive também ao escrever. Abraço.
Adriel Diniz · Porto Velho, RO 5/6/2006 17:56
Meu pai mora em Rondônia e fui várias vezes para este estado pedra 90! Foi aí que conheci o cupuaçu, o açai e o famoso tacacá! Passei pela experiencia de cruzar a floresta de Porto Velho até Guajará-Mirim, na Bolívia, de tomar banho no Rio Madeira e conheci os mais bairros mais distantes de Porto Velho indo cobrar as mesas de sinuca q meu pai fabrica. Aprendi a gostar deste lugar, que é vibrante e não tem espaço para corpo mole e lenga-lenga. A mistura de raças, tem muito nordestino aí tb, e de culturas torna o estado único e misterioso. Meninos do Rio, garotas de Sampa e sulistas-sudoestinos, o Brasil não é só litoral definitivamente. Vamos acordar! Parabéns pela matériaaaaaaaa!
Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 6/6/2006 15:32Adriel, eu adorei a sua matéria também. Acho quee esse contraste de culturas que você descreve é emocionalmente familiar para o Brasil inteiro.
ronaldo___lemos · Rio de Janeiro, RJ 7/6/2006 01:22
ariel, mato grosso também se parece muito com esse retrato que você pintou de rondônia - cuiabá perdeu também a hegemonia política no estado, os "olhos azuis" estão no poder e se concentram no interior. aliás, estão fazendo um estrago por aqui: monocultura (mares de soja), devastação das florestas, visão de gerente (administram o estado como os negócios), falta de visão social, falta de...ufa.
e tenho uma nêga chamada teresa! carnaval, futebol...vivemos num país feliz.
texto massa, geografia pura! parabéns!!!!!
André Maleronka · São Paulo, SP 7/6/2006 17:36
Já fui de Niterói-RJ a Rio Branco-AC de ônibus (em 2002) e passei pelo estado de Rondônia bem rápido. Na voltei fiquei uma semana em Porto Velho e pude conhecer melhor a região. De fato é um estado bem louco. O que mais me chamou a atenção foi a presença de colonos do sul e as plantações de soja que na minha cabeça parariam no Mato Grosso. Mais do que o forró, acho que o brega, tecno-brega e vertentes fazem muito sucesso aí... é absurdo. Gostei muito da matéria.
Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 8/6/2006 11:45Parabéns Adriel, seu texto ñ deixa de ser uma gostosa aula de história. Quem viaja muito pelo interior do Estado (Eu faço isso), sabe que é isso mesmo. Passou de Ariquemes, a gente sente a diferença. Valeu, já stá votadissímo.
Tete Frazão · Porto Velho, RO 21/10/2007 19:57Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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