Indo de Goiânia à Barra do Garças, na GO-060, à margem do rio dos Pilões, não há quem não conheça a casa da biquinha, a casa das três Marias, onde se pode comprar doce de castanha.
A sobrevivência foi garantida com a venda do doce de castanha de gueroba. Colhiam sacos e sacos de coco, depois quebravam tiravam a castanha para fazer o doce no açúcar queimado, uma delicia!
O doce de castanha das Marias ficou famoso. Como moram às margens de uma rodovia bem movimentada, a notícia correu todo o Brasil através dos caminhoneiros e outros que aprenderam fazer ali seu ponto de parada.
Nenhuma delas a aprendeu ler e escrever, mas conhecem bem o dinheiro. E como rendeu esse dinheirinho, viviam com tanta fartura, era de impressionar.
Não cobravam comida dos que paravam para descansar; caminhoneiros, os romeiros na época da Romaria de Trindade, todos podiam comer à vontade, elas faziam questão disso. No fogão à lenha sempre havia panelas com comida e um bule cheio de café.
A amizade especial era pelos cães, acolhiam todos os que eram andarilhos, doentes e os que iam nascendo em casa. Precisou interferência para dar um pouco para os outros. Cada cachorro levava o nome de uma pessoa querida: Bininha, Nenen, Ricardo, Aline, Touca, e assim por diante. Se algum perigo rondasse, os cachorros eram todos trancados junto com elas que ficavam rezando dentro de casa.
Desde que nos conhecemos, me tornei a escrevente de cartas para elas, me ditavam cartas para o presidente, governador, Gugu, Faustão ou qualquer uma pessoa que elas achavam importante.
Escrevia respeitando a pronúncia delas, algumas cartas foram respondidas, outras não; o importante é a felicidade que ficavam quando enviavam uma carta.
A Maria Salomão acendia seu cigarrão de palha, cruzava as pernas e dizia:
- É claro que fulano vai respondê a carta, ele vai pensar assim: coitada das marias, elas gosta muito de mim ... sabe, acho que ele vem até aqui!
Eu ficava calada olhando, não podia atrapalhar o sonho dela.
O traje foi sempre do mesmo modelo: vestidinho de chita, saia rodada e os apetrechos como colares, brincos, anéis e abusavam dos anéis. O dente de ouro era o destaque do sorriso todas tinham um . Adotaram um bebê que hoje já é adulto e a primeira providência quando fez 12 anos foi colocar o dente de ouro.
Uma história de vida com muitas nuances, amizades famosas como Íris Rezende, Lourival Louza dr. Wartene, Dirson Maia e tantos outros que elas sempre davam apelido carinhoso. Gostavam de cantar e dançar. A Maria Salomão comentava de alguns homens:
- Não gosto de dançar com fulano, ele só dança estufado!
Quanto encontravam uma pessoa bonita, iam sorridentes dizendo:
- Oba, vamos limpá nosso zói hoje, vamo ver fulano!
Não gostavam de homem pra frente, tinham muitos amigos que lhes respeitavam. Brincava com a Maria Salomão:
- Maria, vou mandar o dr. Wartene examinar você para ver se é virgem mesmo!
Ela fazia um muxoxo e dizia:
- Ce boba, sô, homi ninhum põe a mão ni mim, prefiro morrer.
Parecíamos crianças quando juntas, tudo era festa. No dia de fazer compras em São Luis de Montes Belos ou Moiporá era também um grande passeio admirando tudo e cumprimentado todos.
Isso durou muitos anos; se fez uma grande história às margens do rio dos Pilões...
O tempo levou a Maria Albertina, ficou Maria Dalmina e Maria Salomão. O ano passado a Maria Salomão se foi e agora resta a Mariinha.
O último passeio da Maria Salomão foi comigo. Fomos numa festinha em Messianópolis, e mesmo estando já com o fôlego cansado, ela se divertiu muito, foi uma despedida e seus últimos dias na terra.
Hoje tenho como lembrança o velho vestido da Maria Salomão queimado de cigarro e uma saudade que incomoda muito.
Mariinha resiste na casinha à beira da rodovia e continua fazendo os doces, mas chora sempre; parece assustada com o mundo que se apresentou à ela agora. Ficou só olhando o asfalto, o roncado dos caminhões e a saudade da Maria Albertina e da Maria Salomão.
Porém, essa saudade não a impede de bem cedinho, já antes do dia clarear, fazer o gostoso café no fogão à lenha e continuar vendendo o delicioso doce de castanha.
Parabéns às inesquecíveis amigas: Maria Albertina, Maria Dalmina e Maria Salomão, as TRÊS MARIAS.
Sinvaline (Sinva do Pregão)
A música "Olha Maria" de Chico Buarque lembra as Três Marias:
Olha Maria
Eu bem te queria
Fazer uma presa
Da minha poesia
Mas hoje, Maria
Pra minha surpresa
Pra minha tristeza
Precisas partir
Parte, Maria
Que estás tão bonita
Que estás tão aflita
Pra me abandonar
Sinto, Maria
Que estás de visita
Teu corpo se agita
Querendo dançar
Parte, Maria
Que estás toda nua
Que a lua te chama
Que estás tão mulher
Arde, Maria
Na chama da lua
Maria cigana
Maria maré
Parte cantando
Maria fugindo
Contra a ventania
Brincando, dormindo
Num colo de serra
Num campo vazio
Num leito de rio
Nos braços do mar
Vai, alegria
Que a vida, Maria
Não passa de um dia
Não vou te prender
Corre, Maria
Que a vida não espera
É uma primavera
Não podes perder
Anda, Maria
Pois eu só teria
A minha agonia
Pra te oferecer
Chico Buarque
É a prova de que a simplicidade é a mãe da verdade. Que amor entre essas Marias!!!
Que pena que têm que sentir o peso da saudade.
Parabéns mais uma vez, linda história.
Toda Maria é santa! Abro a votação! Meu abraço!
raphaelreys · Montes Claros, MG 26/11/2008 09:01Bonita homenagem... E que coisa os dentes de ouro como marca registrada, né?
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 26/11/2008 16:14Três Marias....viva!!!!! Votado!!!
graça grauna · Recife, PE 26/11/2008 17:15
lindas memórias, lindas pessoas.
sorte tua ter conhecido as três marias.
e sorte nossa que tu contou um pouquinho delas.
beijo.
Sinvaline · Uruaçu (GO)
As Três Marias
Verdadeiramente comovente.
Uma História Admirável, um banho de Humanidade.
Toca no coracáo da gente, as Saudades que mariinha sente das outras Marias.
Náo Há coracáo que resista.
Ainda Bem que acreditamos na eternidade e cedo ou tarde as trés Marias váo se encontrar de novo e nunca mais separar.
Me Impressionou Muito.
Um Trabalho de transcender em Amor.
Parabéns.
Abracáo Amigo.
Sinvaline,
já não me surpreendem os seus textos pela sensibilidade, amorosidade e carinho com que trata as palavras e personagens a que elas se referem. Todavia, As Três Marias tem um sabor diferenciado, como se, além da homenagem, a partilha de sentimentos entre elas e você pontuasse a crônica com a beleza e a simplicidade das grandes amizades. Em uma palavra: adorei.
Bjs
Muito bom. Votado.
Juscelino Mendes · Campinas, SP 27/11/2008 15:08Sensibilidade do primeiro ao último parágrafo. Me deu vontade de comer o doce também. Gostei muito.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 27/11/2008 15:12
Quem bom ter conhecido a história das três marias.
Gostei muito, da sua sensibilidade e amizade como escrevente das marias. Parabéns, muito bonito o texto.
Sinvaline,
comovente história e linda homenagem
esssa pessoas simples é que têm histórias
lindas para serem contadas.
gostei! bjs
Tudo já foi dito minha amiga. Antes eu tinha votado e como na hora não dava tempo de comentar venho por aqui agora lhe dar mais uma vez os parabéns.
Higor Assis · São Paulo, SP 27/11/2008 17:05
Bonita homenagem para todas as Marias do Brasil. Eu tive a honra de conhecer a poetisa goiana Cora Coralina na cidade de Goiás.Tão simples e querida como as Marias. Foi um encontro inesquecível como deve ter sido o seu. Parabéns.
Lu Nática · Cachoeiras de Macacu, RJ 27/11/2008 19:06
Sinva, cada vez que leio seus textos mais a admiro. Quanta habilidade, quanta sensibilidade, como você conhece, faz, procura e provoca cultura. Desejo-te muito sucesso, grande beijo.
Bodin · Uruaçu, GO 27/11/2008 23:18
haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos?
o verdadeiro fruto da árvore do conhecimento é a simplicidade (...) já diria mário quintana.
Eu não poderia mesmo deixar de me deliciar com esta apresentação sobretudo bem feita, bem merecida....... E assim o Brasil se fez, o Brasil se faz, o Brasil se fará. Se fez com aquela gente que vai fazendo o Brasil sem jamais pensar em História, nem mesmo a sua história.
abraço
andre.
Muito bom! Lembrei das Dez Marias - do Trova prosa e viola, com Geraldinho e Hamilton Carneiro.
O Brasil está repleto de fatos admiráveis. Ainda há muita resistência ao progresso do asfalto, que tanto se canta em moda de viola caipira.
Pô,Sinvaline,me emocionei de verdade.....o vestido queimado........................!Este é Brasil que agente quer ver,parabéns!!!!!!!!!!
Daltro Júnior · Corumbá, MS 28/11/2008 17:17Gostaria de saber o endereço certo dessas mulheres, doceiras de Goiás, pois sempre viajo por essa estrada.
Silene Farais · Rio Branco, AC 28/11/2008 22:46Que linda história minha amiga, você tem uma vida abençoada por conhecer gente como as tres Marias. Quando li pensei nas estrelas do céu. Aquelas singelas presenças que sempre nos encantam e acompanham. Um beijo
Lilia Andrade · Rio de Janeiro, RJ 28/11/2008 22:52Lindo Sinva, amo As tres Maria, muito bom conteudo!beijos
Claudia Almeida · Niterói, RJ 30/11/2008 00:02
Sinvalinda!
Três marias belas.
De um tempo que é vida.
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