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As Tribos se Misturam

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Tony Teófilo · Salvador, BA
28/5/2007 · 129 · 6
 

É impressionante como as chamadas tribos urbanas não se misturam. Claro que isto só equivale para cidades a partir de um certo número de habitantes. Realmente, as tribos não se misturam mas se encontram, e o melhor lugar para se verificar isso, pode tanto ser o pátio da universidade ou a boemia na cidade.

Em Salvador, por exemplo, o lugar que mais concentra os boêmios é a orla, e mais especificamente, no Rio Vermelho. Na capital baiana, o Rio Vermelho representa a Savassi de Belo Horizonte, ou a Vila Madalena de São Paulo (só pra citar um dos bairros boêmios paulistas). É verdade que na orla soteropolitana vale lembrar ainda a Barra, Farol ou o Jardim Brasil; o Jardim de Alá; Patamares; Itapuan, enfim. O Aeroclube já teve o seu tempo de ser considerado neste roteiro, mas acho melhor aguardar a reforma que está por vir. No Jardim dos Namorados (Pituba), concentra-se a segunda maior aglomeração de baladeiros de Salvador. Ao se aproximar o fim de semana, lá no Jardim dos Namorados estaciona uma galera em frente à Fashion Club, à Happy News e ao Caranguejo de Sergipe, onde, além daqueles freqüentadores que entram nas casas, ficam os que são capazes de amanhecer o dia ali, abastecidos pelos tantos ambulantes que já fazem ponto certo e ouvindo o som dos carros no local. Bem, nesta tribo está constituída, basicamente, por baladeiros (e aspitantes, muitos aspitantes) de som comercial (os chamados clubbers), axezeiros, forrozeiros e pagodeiros.

Já no local onde se concentra a maior aglomeração de boêmios e de baladeiros na orla de Salvador, o Rio Vermelho, encontra-se uma outra diversidade de tribos. No famoso Largo de Santana (ou Largo da Dinha, em referência à própria do Acarajé), roqueiros, reggaeiros, forrozeiros e baladeiros de toda ordem se misturam para o “esquenta”. Melhor dizendo, e justiça seja feita, o lugar é caracterizado como um circuito alternativo da cidade, onde está a turma mais “cabeça” ou mais “cult”. Restaurantes de cozinhas variadas, teatro, bares e casas noturnas compõem o bairro, que também é residencial, além de ser uma das maiores referências da cultura e da história da Bahia. Colônia de pescadores, possui a morada de Yemanjá, uma das mais celebradas e festejadas pelos baianos.

De acordo ao dia e ao horário no Rio Vermelho, os roqueiros se deslocam para o Idearium, Nhô Caldos, Boomerangue, Calypso Heneiken ou Sitorne; quem curte e-music (ali, geralmente house ou trance), vai novamente Boomerangue; forrozeiros, à Santa Maria Pinta e Nina; ecléticos, à Borracharia ou Casa da Mãe, enfim. As casas noturnas podem também abrigar tribos diferentes, como a Boomerangue, projeto do cantor Alex Góes, costuma sediar na mesma noite estilos diferentes nos seus dois ambientes (costume já antigo em casas de até três ambientes existentes em outras capitais). A longevidade destes espaços é imprevisível, e os freqüentadores do Rio Vermelho devem se recordar de lugares notórios, como, Anexo, Café & Cultura, Seven-In, Havana e a recém fechada Casa da Bossa, outros se lembrarão da Estação da Cerveja e Indy Sports Bar (Patamares), etc. Porém, não é só no entorno do Largo de Santana que se aglomeram os boêmios no Rio Vermelho, e mesmo o Bar Bohemia fica recuado dessa região. Não poderia deixar de lembrar o Largo da Mariquita, onde acontecem feiras de artes, e o Mercado do Peixe, onde se pode deliciar a culinária baiana e possui o seu maior movimento na madrugada, quando os baladeiros vão saciar a sua larica.

Diria que essas tribos que se encontram no Rio Vermelho, apesar de distintas, elas se reconhecem e se suportam num suspiro bem mais tranqüilo do que se estivessem diante das tribos que estão no Jardim dos Namorados. Ou seja, nesse espaço, as tribos que convivem ali se ignoram e não se incomodam com as demais. É como se os estereótipos, comportamento e estilo das tribos não se agredissem, como é comum acontecer em outras circunstâncias. Lógico que, eventualmente, ocorrem programações no Jardim dos Namorados, que sejam exclusivamente no estilo rock e a tribo roqueira comparece, como acontece em qualquer lugar seja o estilo que for. Não é, necessariamente, o local em questão geográfica que define o público (considerando uma ressalva que farei adiante), mas é conseqüentemente o ambiente que se caracteriza neste local que atrai determinado público. A ressalva que se faz necessária é que, tratando-se especialmente de Salvador, o público boêmio que tem a oportunidade de freqüentar a orla constantemente exclui uma boa parcela da população que não possui veículo próprio de transporte, sobretudo, da periferia e do subúrbio, devido a uma grande deficiência que há no serviço de transporte público da cidade.

Do hip hop ao samba, toda tribo consegue conquistar o seu espaço, o fundo de quintal ou a pista de dança. A existência de guetos não pode ser condenada e merece ser encarada com respeito em nome da liberdade de expressão. E ser eclético não significa não ter opções, pois, posso ser eclético, mas sei exatamente daquilo que eu não gosto.

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andre stangl
 

Tony, ótimo texto. só q às vezes, me pergunto, se a "grande deficiência que há no serviço de transporte público da cidade", não é intencional? Ou seja, uma forma de manter a distância entre a classe média e o resto da cidade, como as cordas do carnaval... abçs

andre stangl · São Paulo, SP 25/5/2007 21:03
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Tony Teófilo
 

Observação, sem sombra de dúvidas, pertinente Andre. Comungo da mesma opinião, mesmo quando o quesito "investimento em mais segurança" na madrugada é levantado, ou seja, facilitar o acesso entre essas àreas na madrugada iria requerer reforço na vigilância.

Tony Teófilo · Salvador, BA 28/5/2007 10:15
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João Rafael
 

É Tony, infelizmente creio que o conceito de ser eclético é pouco entendido pelas pessoas.Hoje é quase um pecado você compartilhar de características de diferentes tribos. Corrre o risco de ser tachado de farofa. Bom, triste aqueles que desconhecem o que não gostam e perdem a maravilha de reter o bom de cada tribo! ( sem generalizar, não quero dizer que devemos ter um pouco de todas as tribos).

João Rafael · Sabará, MG 28/5/2007 16:03
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Roberto Maxwell
 

De boa, sempre fui feliz circulando entre tribos e nao entrando em guetos. Aprende-se como a conviver com a diferenca. De boa, entendo seus pontos de vista sobre as tribos, mas acho que a maioria das pessoas se fecham nesses grupos, onde o bom eh apenas o que esta dentro. Eu nunca me senti parte de grupo algum, ao mesmo tempo que me sentia possivelmente dentro de todos. E entre indas e vindas vou criando a minha personalidade e meu olhar sobre o mundo.

Roberto Maxwell · Japão , WW 29/5/2007 07:55
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Espiga14
 

Muito bom o texto Tony

Espiga14 · Salvador, BA 31/5/2007 16:51
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Remisson Aniceto
 

Olá, Toni! Beleza de abordagem. Gostei muito.

Remisson Aniceto · São Paulo, SP 2/8/2007 13:06
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