As vidas marcadas de Lorenzo Mattotti

Foto: Sidney Gusman (UHQ)
Mattotti já estava bem disposto naquela manhã de domingo em Belo Horizonte
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Delfin · São Paulo, SP
7/1/2008 · 100 · 2
 

Entrevistei Lorenzo Mattotti no dia 28 de setembro de 2003. Era uma manhã quente que se seguiu a uma noite atribulada em Belo Horizonte, que encerrava uma jornada de mais de cinqüenta horas em quase total vigília. Tudo para chegar à 3ª edição do FIQ - Festival Internacional dos Quadrinhos (evento que substituiu a antiga Bienal dos Quadrinhos, realizada nos anos 1990 no Rio de Janeiro).

Foi nessa viagem que conheci muita gente boa nos quadrinhos, como Rogério Vilela e os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. Reverenciei a arte de um mestre italiano dos fumetti (que é como as HQs são chamadas na terra da bota), o boa-gente Sérgio Toppi. Além disso, eu e Sam Hart passamos horas agradáveis e intermináveis tomando caipirinhas incontáveis (sim, perdi mesmo a conta) com David Lloyd, o criador visual de V de Vingança (juntamente com o roteirista Alan Moore). E, claro, Lorenzo Mattotti, o motivo principal da maratona Campinas-BH-Campinas.

Afinal, era a chance de entrevistá-lo ao vivo para poder publicar uma entrevista no jornal em que eu trabalhava até então. Rolou um café da manhã bem reforçado antes de tudo, pois a entrevista foi no salão comunal do hotel em que acabei passando a noite, bem em frente ao Edifício Acaiaca, com suas carrancas que já acordavam qualquer um e botaram a entrevista no clima correto.

Apesar de ter publicado alguns trabalhos expressivos no início da década de 80, nas revistas Linus e Alter Alter, o arquiteto Mattotti projetou-se no mundo dos fumetti a partir de 1983, quando fez parte do chamado Gruppo Valvoline, que muitos críticos rotulam como os principais representantes do pós-modernismo no novo quadrinho da Itália.

De lá para cá, sua arte, expressiva representante do quadrinho de autor europeu, se ampliou além da fronteira dos quadrinhos e atingiu o mundo das ilustrações. Já ilustrou diversas capas e páginas paras revistas de prestígio mundial, como The New Yorker, Vogue e Cosmopolitan, bem como para os jornais Le Monde e Il Corriere della Sera. Naquele mesmo 2003, ganhou o prestigioso prêmio Eisner, por sua novela gráfica Dr. Jekyll & Mr. Hyde, produzida em parceria com Jerry Kramsky e inédita no Brasil.

Sua vinda ao Brasil se deveu ao lançamento do álbum Estigmas, parceria com Claudio Piersanti, pela editora Conrad. Mas sua vinda rendeu outro belo fruto: em 2005, Mattotti retornou ao Brasil para assistir ao desfile de carnaval no Rio de Janeiro, o que rendeu, no ano seguinte, um belo álbum sobre o tema, publicado pela Casa 21 e que seria a primeira publicação nacional com uma série de ilustrações do italiano, que lhe valeram inclusive menção especial no semanário Fantástico, da Rede Globo.

O bate-papo que se segue é uma homenagem antecipada ao aniversário do artista, no próximo dia 24 de janeiro, e também é um belo modo de apresentar ao público do Overmundo este notável mestre europeu.

Delfin - Em Estigmas, você só trabalha com os desenhos, e não com o roteiro? Ou você interfere no roteiro?
Lorenzo Mattotti – Em Estigmas, eu e Claudio (Piersanti) trabalhamos muito juntos. Ele não escreveu o roteiro todo para que eu o desenhasse depois, não. A história, nós a produzimos juntos, debatendo um ponto, depois outro e outro. E foi uma contínua discussão. Então, eu não fiz só os desenhos. Depois, se decidiram os vários episódios e eu desenhei, dirigindo cada um deles. Após isto estar pronto, o texto foi reescrito sobre o desenho. Mas foi um contínuo processo de contato um autor com o outro.

Eu perguntei porque, quando se lê a história, se percebe muito na narrativa a presença do autor visual. Em geral, até que ponto a arte contribui para melhorar um roteiro?
O problema é que eu faço a história com imagens, e todas as minhas histórias são baseadas em imagens que eu observo e, então, desenho. Por exemplo, em Fuochi (até hoje sua história mais lembrada), eu primeiro desenhei tudo para então colocar o texto. Sempre o meu método de trabalho é criar a história com o desenho e, depois, usar o texto como o contraponto da imagem. Para mim, a coisa mais importante é a potência da imagem. Mas ela deve vir em uma história que me é envolvente. É por isso que é importante para mim apreender o que a história fala, para fazer uma história que verdadeiramente me interessa. Porque, assim, o desenho pode ser feito para atingir essa potência. Eu me lembro que duas ou três vezes de ter recebido um roteiro de última hora e eu desenhar mesmo assim, mas eu não me interessava muito. E desse modo era fatal e não saía uma imagem forte para a narrativa.

E o que você pensa hoje é o mesmo que pensava há 20 anos, na época do Grupo Valvoline?
Valvoline foi um momento muito importante, porque ali pus em discussão muita coisa do que pensava em princípio. Antes, eu pensava um pouco mais que o quadrinho, a história, era como fazer um curta-metragem, realizar as cenas. Aí comecei a pensar na potência da imagem pictórica do quadrinho, ao poder utilizar imagens abstratas, surreais. Isso abriu muito o campo da linguagem. Foi um período também de experimentação de que nós (do grupo) precisávamos.

Qual a diferença entre seus trabalhos nos quadrinhos e como ilustrador?
Ilustrar é um trabalho que me permite viver, que me permite fazer outras coisas com as quais não me envolvo muito. Mas me diverte. Neste trabalho eu procuro sempre encontrar um pouco de divertimento, algo de interessante.

É apenas pelo dinheiro?
Não é só isso, porque não é chato. Eu me lembro que, quando eu trabalhava para a Vanity, eu preparava muitas coisas, tinha referências de vários pintores, vários quadros, usando os materiais, as técnicas. E também desenhar as mulheres. Antes eu as desenhava muito pouco. O fato de trabalhar com moda me aproximou aos poucos de um tipo de figura que eu produzi muito. Não é o mesmo envolvimento pessoal como quando eu faço quadrinhos, mas é complementar, serve para aprofundar técnicas, como os cartazes, pôsteres e desenhos para livros infantis. É o tipo de trabalho que me permite abrir a cabeça, me tornando melhor.

Voltando a Estigmas. Senti uma grande tristeza em relação ao protagonista, no final... o que o personagem significa para você?
Eu não creio que o final seja pessimista. Nós conversamos (Mattotti e Piersanti) muito sobre o final, fizemos cinco ou seis diferentes. Tudo era se perguntar sobre o personagem e tudo o que ele viver, era se perguntar sobre a maneira para que tudo fosse natural. Pensamos num final cínico, em que ele contava sua história no show business, num programa de tevê ou numa revistinha de fofocas. Também pensamos na saída espiritual, onde ele seria um pequeno guru. Mas decidimos pelo final publicado, pois o personagem que, ao fim, simplesmente aceita o que há dentro de si e que não pode ver. E isso é aceitar o peso da vida, o peso da responsabilidade, de viver o dia-a-dia. Que pode ajudar as pessoas nas mínimas coisas.

O personagem, aliás, não é um herói. É só uma pessoa do povo.
Sim, é isso! É o que me interessa, falar das pessoas, falar daqueles que vivem pelas cidades.

Se você saísse agora para andar na rua e encontrasse uma pessoa como o seu personagem, com as feridas nas mãos, qual seria a sua reação?
Eu acho que me poria a olhá-lo, como curiosidade. Eu ando e vejo personagens nas ruas que poderiam servir para esta ou aquela história, é o meu trabalho. Mas eu vi documentários sobre pessoas que possuem os estigmas. Havia um velho italiano que as possuía há uns 50 anos. Mas não era um santo, não era nada. Mas tinha que seguir, era um peso a carregar. É claro que isto é uma neurose, mas eu me poria a olhá-lo.


Conheça a obra

A arte de Mattotti impressiona logo de cara, mas não é apenas pelo lindo trabalho ilustrativo que Estigmas é uma leitura recomendada. A união de forças entre o artista e o romancista, estreante nos quadrinhos, Claudio Piersanti, possui uma força que raramente é vista nos quadrinhos que chegam ao país.

É bom começar dizendo que não é uma história fácil. Um homem, que até então possuía uma vida normal, acorda com duas feridas, uma na palma de cada mão. As feridas não tinham sido provocadas por qualquer corte. E simplesmente não cicatrizavam, vertendo sangue de modo constante.

E quais as conseqüências de um homem comum possuindo uma marca que poderia ser tanto um sinal deífico quanto uma doença, tanto uma marca sinistra como uma bênção? O personagem, que não possui nome, e justamente por isso pode ser qualquer pessoa no mundo, passa a viver uma série de situações que têm paralelos com as provações de um santo. Mas que também são situações que refletem o cotidiano de uma classe menos abas-tada da população, que sempre está prestes a cair, mas sempre pronta a se levantar.

O texto de Piersanti é direto e correto, mas apenas o conjunto formado com as pesadas ilustrações em preto-e-branco, sem cinzas, de Mattotti, é que dão a perfeita dimensão das trevas sempre vizinhas do cami-nho que cada ser humano tenta iluminar a seu modo. De maneira nem sempre feliz, mas sempre da melhor maneira possível. Pois não importa de se as marcas são estigmas ou neuroses: importa é que cada um de nós carrega suas próprias marcas durante a sua vida. E que, por isto, devemos aprender a lidar com elas do melhor jeito possível. Só assim podemos con-tinuar o nosso caminho. Ainda que, no final, ele não signifique nada. Nada além da própria vida.


Para saber mais sobre a obra de Mattotti:
http://www.mattotti.com

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Spírito Santo
 

Muito Bacana!

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 6/1/2008 17:50
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Mangabeira
 

Gostei bastante, apesar de desconhecer o mote de início. Parabéns! www.ovisnigra.org/mangabeira@ovisnigra.org

Mangabeira · Natal, RN 10/1/2008 18:19
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