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A imprensa, em especial a baiana, tem realizado uma extensa cobertura sobre o que os jornalistas estão chamando de "crise na cultura" da Bahia. O assunto também já foi alvo de reportagens publicadas em jornais do sudeste do país e no domingo, 14/10, circulou em vários periódicos em função de uma crônica do escritor João Ubaldo Ribeiro. Na semana anterior, em entrevistas, ele qualificou de "crime" a falta de repasse de verbas para a Fundação Jorge Amado, que poderia ter seu acervo transferido para uma universidade estrangeira. Se, por um lado, o fato de a cultura ter ingressado na agenda da imprensa é positivo, falta oferecer à sociedade um leque mais amplo de explicações sobre a temática em questão.
Se a cobertura ou o espaço concedido para os artigos não aprofundar a discussão, muitos ficarão sem entender a complexidade da tal "crise" e sequer poderão julgar os dirigentes da cultura e seus "cururus", forma pejorativa pela qual o jornalista e ator Gideon Rosa chamou, em artigo publicado no jornal A Tarde, o "bando alçado à condição de especialistas em Cultura" que, segundo ele, raramente freqüentam as "nossas platéias". Pelo raciocínio, basta freqüentar as platéias para ganhar o título de especialista em cultura. Trata-se de apenas mais um exemplo de como determinadas pessoas explicaram de forma simplória e equivocada a tal "crise" para a sociedade.
Para Rosa, a "crise" também poderia ser explicada como uma estratégia de jogar os artistas do interior contra os da capital. O reflexo seria a criação de um programa semelhante ao Bolsa Família na área da cultura. O governo estadual chama a estratégia de descentralização dos recursos. O governo carlista destinava quase a totalidade do dinheiro para a capital. Outras formas utilizadas para explicar a "crise" foram oferecidas pela diretora de teatro Aninha Franco. Inicialmente, ela disse que fechou o Teatro XVIII porque era contra a política cultural do governo. Logo depois, precisou mudar a sua explicação quando a imprensa ficou sabendo, via governo, que uma nota de 20 mil reais, de uma agropecuária, foi apresentada indevidamente em uma prestação de contas de verbas públicas.
Interior e capital
João Ubaldo Ribeiro, por sua vez, qualificou de "crime" a falta de repasse de verbas para a Fundação Jorge Amado. Enquanto isso, o governo alega estar apenas cumprindo a lei que, segundo interpretação dos procuradores estaduais, impede a concessão de recursos públicos para o pagamento de todas as despesas de uma fundação. A pergunta é: quais das explicações foram mais enfatizadas pela imprensa? Estamos assistindo a uma disputa de poder e o jornalismo vem sendo usado praticamente apenas pelos opositores do governo. Enquanto isso, os beneficiados pela nova política cultural estão calados. Por que?
Os mais apressados culpariam os jornalistas. Embora seja visível o uso político que os meios de comunicação de propriedade da família de Antônio Carlos Magalhães estejam fazendo da situação, acredito que existem várias outras razões para tamanho silêncio. Uma delas pode estar relacionada com a cultura profissional dos nossos jornalistas dos cadernos de cultura que, durante anos e anos, cultivaram as mesmas fontes. Hoje, as fontes costumeiras secaram e outras precisam ser ouvidas. O que sabemos sobre o que está acontecendo no interior do estado na área da cultura? Os jornais possuem estrutura e vontade de cobrir o interior? O que dizem as centenas de pessoas que pagaram R$ 0,50 para ver um espetáculo no Teatro Castro Alves em uma manhã de domingo graças a um projeto do governo para democratizar o acesso à principal sala de espetáculos da capital? O que sabem os leitores dos jornais sobre estas questões? Pouco, quase nada.
"Aos amigos, tudo, aos inimigos, nada"
A cobertura e o debate sobre a tal "crise na cultura" precisam oferecer à sociedade uma variedade mais ampla de explicações para a problemática. Nos estudos acadêmicos sobre comunicação e política, os pesquisadores enfatizam que qualquer disputa de poder em torno de temas de interesse público passa, necessariamente, por duas instâncias. Primeiro, o político necessita que o seu assunto esteja incluído nas preocupações da sociedade e, por isso, o tema precisa estar na agenda da mídia. Mas apenas estar na agenda não basta. O político deve enfrentar uma segunda disputa e conseguir explicar o tema da maneira como ele deseja. Novamente, o jornalismo desempenha aqui um aspecto central, pois o modo como os jornalistas enquadram o tema em debate vai influenciar boa parte do público em geral e os interessados na questão em particular. É a partir deste enquadramento que as pessoas formarão as suas opiniões sobre o tema em discussão.
Por enquanto, o governo do Estado e os "ideólogos da Nova Cultura" estão perdendo a segunda batalha. Corremos o risco de desperdiçar a oportunidade de realmente modificar a política cultural do Estado, pois aqueles que estavam acostumados a abocanhar quase a totalidade das verbas estão conseguindo impor o seu enquadramento para a questão. Assim, podemos voltar a ter uma política em que cultura se reduz a patrocinar shows no Pelourinho ou de que é aceitável selecionar atores para uma companhia de teatro financiada pelo poder público sem a realização de audições públicas, esta sim a política de "aos amigos tudo, aos inimigos nada". A pergunta que fica é: a "crise na cultura" existe mesmo neste governo ou existia nos governos anteriores e ninguém percebia ou queria perceber?
tags: Salvador BA cultura-e-sociedade
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Leandro, seja bem-vindo.
O tema é polêmico e para enriquecer a discussão gostaria de chamar atenção p/ os textos publicados no site Nacocó. e no blog do dez - sem crise não existe mudança, já diziam os filósofos. mas onde começa a crise e termina o oportunismo do jornalismo cultural?
abçs
andre stangl · São Paulo (SP) · 18/10/2007 10:51
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Leandro.
No mesmo rumo, haverá uma discussão nacional imediata, que já nos aponta o postado do Boletim Familiá noticiando que
está na Câmara a Proposta de Emenda à Constituição 49/07, que inclui a cultura entre os direitos sociais previstos na Constituição.
Sim, queridas pessoas, ainda não o é, embora pareça estranho não o ser.
É em razão disso que no Rio Grande, na Bahia ou em qualquer outro lugar desse Brasil varonil, inda pensam muitos que o povo quer só comida, quando há muito já cantamos que também queremos diversão e arte e ser feliz no lugar onde nascemos.
Atualmente, osão direitos sociais constitucionais educação, saúde, trabalho, moradia, lazer, segurança e previdência social, entre outros. Cultura não é.
Direitos sociais são serviços proporcionados pelo Estado, que se obriga a possibilitar melhores condições de vida.
Estão conceitualmente ligados ao direito da igualdade, sustenta o autor da emenda, o segipano Iran Barbosa.
Para ele e outros tantos, como parece ser a iniciativa do governo da Bahia, "o acesso à cultura e o direito à memória e às manifestações culturais são condições indispensáveis ao exercício da liberdade".
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 18/10/2007 14:18
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Interessante saber como as coisas andam pela Bahia.
Também acho um absurdo que a fundação tenha seu acervo entregue a uma instituição no estrangeiro.
Talvez seja necessário buscar outras fontes de renda para ela, além do governo.
Discussão pertinente, cheia de detalhes que, com certeza quem vive e conhece a realidade local poderá discutir com mais razão.
Abraço!
Roberta Tum · Palmas (TO) · 18/10/2007 17:48
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Leandro.
Pertinente o texto e fiquei com gosto de quero mais...Está faltando o argumento dos novos gestores e dos artistas e grupos do interior e/ou periferia. O overmundo está aqui para isso mesmo, ser um espaço aberto para tod@s opiniões. Pois como sabemos o nosso jornalismo, salvo rarissimas exceções, é pouco democrático e ás vezes até anti-ético
Abs,
Zezito de Oliveira · Aracaju (SE) · 21/10/2007 18:48
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Me parece apropriado, sempre, questionar as políticas culturais Brasil "afora".
Quem sabe algum dia porderemos traze-las Brasil "adentro".
Abraço!
Marcos Paulo Carlito · Coxim (MS) · 21/10/2007 19:33
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Oi, Leandro
Acho interessante chamar atenção para a qualidade de cobertura do "jornalismo cultural", que praticamente se restringe à cobertura de agenda. O quadro só se altera quando rola intriga, polêmica barata. Porque será que a discussão nunca chega nas grandes questões (que, sim, também gerariam grandes polêmicas)?
Isso para não falar numa falta de apuração crônica, que acaba sendo muito providencial para quem quer "usar" a mídia como instrumento pessoal.
Novamente, parabéns pelo artigo
Iuri Rubim · Salvador (BA) · 22/10/2007 11:11
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Boa!
bmaciel · Salvador (BA) · 22/10/2007 16:21
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Leandro,
desde que me conheço por gente, ouço falar que há quase nada de verba para a cultura e demasia para a publicidade.
Em 2005, quando fiz uma pesquisa dos valores investidos no Brasil, fiquei chocado! Pois, naquele ano, foi investido 280 milhões de reais na cultura e 16 bilhões de reais em publicidade.
Só as Casas Bahias, gastou 3X mais em publicidade do que o MinC investiu em cultura. Foram 900 milhões (de uma única empresa) investidos em propaganda, enquanto o MinC investia 280 milhões na cultura de seu povo. Em 2006 e 2007 não foi diferente!
É de se preocupar o efeito desses número quando comparados.
Por isso, criei o projeto 10 PARA A CULTURA, que bem resumido, significa o seguinte: Todas as médias e grandes empresas, deveriam repassar 10% do montante investido em publicidade para a cultura.
Todos os detalhes e funcionamento deste projeto, que foi enviado ao MinC sem qualquer tipo de resposta, se encontra
aqui http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=3578994
Kais Ismail · Porto Alegre (RS) · 23/10/2007 13:25
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Caro Leandro, achei muito importante teu texto, pois acho que ele terá efeito à longo prazo. A crise que você falou estar existindo em Salvador, aconteceu em Porto Alegre também. E acredito que deve estar acontecendo na maior parte dos estados do Brasil. Que crise que me refiro? Manutenção de status quo x vontade de mudar o status quo.
Em Porto Alegre, na administração anterior, que também era do PT como é agora em Salvador, havia na classe artística um duplo sentimento. Por um lado, muitos achavam que a Secretaria de Cultura vivia reforçando nas 3 administrações consecutivas os programas Fumproarte e Porto Alegre Em Cena, que sem dúvida são importantes ações culturais, como panacéia universal para tudo. Por outro lado, se tinha receio que um governo supostamente mais de direita ou de centro-direta viesse a "acabar" com a cultura da cidade. De minha parte, posso garantir que em ambas gestões, temos muito que avançar.
Aqui, quem foi da gestão anterior, diz que a atual acabou com a cultura. Quem apóia a atual secretaria de cultura, diz que a anterior só servia de cabide de emprego para companheiros do PT. A minha posição é de que nós, agentes culturais, devemos estar atentos e sabermos ler estes diferentes contextos, pois há muitos interesses políticos em jogo. Mas acho que está na hora de começarmos a nos emancipar um pouco do estado. Muita coisa pode ser feita sem dependermos exclusivamente das administrações, que mudam a cada 4 anos. Para mim, mesmo com todos os avanços que o Ministro Gil conseguiu, ainda é como uma grande gravadora. A maior parte do que acontece vem de quem é independente do Estado.
Alê Barreto · Rio de Janeiro (RJ) · 24/10/2007 00:53
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Com tua licença, Leandro, acrescento informações sobre o que Alê Barreto pôs em debate desde a percepção dele do que ocorreu e ocorre aqui em Porto Alegre.
Na minha percepção, ainda ocorreu:
Orçamento das atividades de Descentralização da Cultura em 1993: 24.000,
realizado de 1993: 174.000
realizado de 1994: 340.000
realizado de 1995: 540.000
orçado de 1996: 700.000
realizado 2003: 990.000
realizado 2004: 1.200.000
orçado 2005: 1.500.000
Os recursos das ações de Descentralização eram destinados apenas a oficinas (havia 94 delas das diversas áreas, em regiões distintas da cidade, com duração média de 8 meses cada, pelo que pagava-se de 24 a 32 reais hora/aula) e a espetáculos artísticos de teatro de palco, de rua, de bonecos, dança, música e capoeira, com acesso gratuito ao publico, pelo que se pagava um cachê artístico variável de 800,00 a 1.200,00 reais por apresentação no circuito popular de cultura.
Por óbvio que organizar comissões de cultura por regiões vai demandar atividades dos organizadores às noites dos dias de semana, para o planejamento da ação nas comunidades, e os dias de sábados e domingos e feriados para a realização, com a montagem e desmontagem de palcos contratados para as ações, para o que nem sempre havia servidores do quadro disponíveis pelo que o administrador eventual (e foram 16 anos de Administração Popular) lançava mão da investidura de agentes políticos em cargos em comissão, recurso legalmente existente.
Concordo que o papel do estado é o da promoção do espaço para a expressão das artes e que esse mercado eventualmente constituído deveria ser animado de modo perene pela própria sociedade que despertasse para a importância da cultura na vida das sociedades, como o é a importância fundamental da coleta do lixo, do fornecimento de água, do trato do esgoto e do fornecimento da energia elétrica, além dos serviços básicos de educação, saúde e promoção do acesso à alimentação saudável e de qualidade a custo que remunere o produtor, acessível ao bolso do assalariado.
Há ainda o Fumproarte, criado em 1993/94, que também se destina ao financiamento público da iniciativa privada em cultura, em valores orçamentários equivalentes ao que o município disponbiliza ao Funcultura, que é o orçamento da pauta estatal da cultura.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 24/10/2007 10:34
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Leandro Colling...conheci alguns textos seus essa semana, como parte dos estudos da disciplina Comunicação Jornalística e Política, no livro de Albino Rubim, que fala, principalmente, da comportamento da Rede Globo nos períodos eleitorais, que datam do período pós-ditadura até 2002. Muito bom, por sinal. Aliás, apesar de aqui, na Bahia, não haver muito espaço para o jornalismo local, no sentido mercadológico. Por outro lado, os estudiosos do campo têm se saído muito bem, a exemplo do próprio professor Albino Rubim, Muniz Sodré, Emiliano José e outros mais. Em relação à cobertura e o enquadramento dado à "crise" da cultura, há de se convir que, como a televisão ainda é o meio de maior alcance nos lares brasileiros, não é nenhuma novidade que, com apenas 75 minutos de noticiário local, somados os telejornais, é de se esperar que haja essa manipulação.
Francolino · Salvador (BA) · 7/11/2007 02:33
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