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Assistindo com o "inimigo"

Sergio Rosa
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Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG
19/6/2006 · 56 · 7
 

Verde, amarelo. Azul e branco. As cores de dois países, as cores de uma enorme rivalidade, cores que se odeiam. É uma história antiga. No futebol nos odiamos, quando se refere àquelas quatro linhas. Torcemos contra, esperamos que sofram uma derrota humilhante, desejamos até morte.

Vou logo dizer. Para mim, isso é uma enorme bobagem. Vai muito além da relação passional que temos com o esporte. Eu sou aquele brasileiro que não compreende muito bem algumas reações tão exaltadas contra nossos hermanos. Me envergonho com algumas delas, é verdade. E não achem que é uma questão de boa vizinhança. Bom, talvez isso tenha a ver um pouco com a minha relação com o futebol.
Explico: o futebol deles se parece com o nosso. E, para quem gosta do jogo, por que torcer contra um time que joga pra frente, com habilidade, que gosta de marcar gols? Não é essa a razão que o mundo inteiro tem o Brasil como segunda seleção?

Se é para torcer contra alguém, prefiro que seja o futebol insosso e extremamente previsível inglês. Temos que reconhecer: Saviola, Riquelme, Messi, Aimar e Sorin teriam um lugarzinho garantido no nosso time. Não consigo torcer contra, para mim, o que vale, é a beleza: a jogada bem tramada, a tabela bem feita e o gol furado. Ok, me passem o crachá de piegas duma vez.

E desde que Carlitos Tevez
passou a frequentar nossos gramados, algo foi chacoalhado no orgulho brasileiro. Graças a Deus.

E, por incrível que pareça, o ódio não parece ser recíproco. Já ouvi pessoas que foram à Argentina dizer que eles admiram o nosso futebol (afinal, quem não admira? Mas superar a rivalidade para admitir isso é outra coisa). E não me refiro aqui à voz do especialista que anuncia nas páginas do Clarin: “O Brasil está um degrau acima de qualquer outro time no futebol”. A admiração vem do taxista, do garçom, do cidadão comum, que confessa com olhos brilhantes que aquela vitória, na fase de classificação para o mundial da Alemanha foi um grande feito e encheu o país de orgulho. Aquele grito tão comum de se ouvir nas arquibancadas dos nossos rivais “si, se puede” nunca foi tão verdadeiro. Eles ganharam dos gigantes, destronaram os reis com aqueles três gols.

Opa, mas espere aí. O Brasil jogou foi contra a Croácia. E um jogo morno, é verdade. Ao contrário dos ânimos dos torcedores brasileiros na pizzaria argentina, onde eu resolvi encarar essa dura missão que é assistir a uma partida de futebol num ambiente tão caótico. Como todos os bares das redondezas, o Pizza Sur estava completamente lotado, uma mistura de amarelos verde e azul, das camisas brasileiras e das cores do Boca Juniors.

O atraso inevitável me colocou nas mesas afastadas, longe da TV. O bar é novo, numa vizinhança repleta deles. As pessoas chegam e vão ocupando as mesas, boa parte dos torcedores que ali estavam não tinham percebido que aquele era um território inimigo. Nem as bandeiras, nem a foto do Che, o pôster de Gardel... nem mesmo o sotaque de Gustavo, proprietário, que fez questão de circular com a sua camisa do Boca. Já me conformava: preparava para assistir um espetáculo de cabeças que se levantavam, braços que pediam uma cerveja, corpos que iam ao banheiro e trocavam de lugares... tanto faz o que se passava na televisão.

O gol não saía. Os croatas, dispostos a conquistar um empate glorioso, deixava a torcida impaciente. Um grupo exaltado à minha frente tinha cheiro de confusão. Alguém precisava ser culpado por isso. Como um time de craques como o nosso era incapaz de marcar um gol contra a fraca Croácia? Alguma espécie de mandinga segurava as pernas de Kaká, Ronaldinho Gaúcho e companhia.

Eduardo Galeano já dizia que até o covarde mete medo, quando está no meio de seus pares. O problema para fanático não é o aquilo que acontece em campo, o seu caso é com a arquibancada, com a torcida adversária. Nesse caso, representada pelas bandeiras da Argentina. Elas não duraram muito. Sem se aperceberem que cometiam um dos atos mais ofensivos (ainda mais numa Copa) contra uma nação, os torcedores, aqueles mesmos que ocupavam algumas mesas à minha frente, arrancaram todas elas. Coincidência ou não, o gol brasileiro saiu logo em seguida, enquanto alguns ainda seguravam pedaços argentinos nas mãos. Seguiram-se comemorações aos gritos de “era a bandeira! Era a bandeira!”. A ofensa virou uma piada sem graça.

Que me acusem de ser sério demais, (“é tudo uma brincadeira”, afirmarão alguns), mas a atitude foi um tanto quanto desnecessária e desrespeitosa com os argentinos que ofereciam ali uma trégua para a nossa guerra eterna. Pior que um carrinho por trás. Gustavo não perdoou, e a punição veio, minutos mais tarde, com a expulsão dos responsáveis, ao fim do primeiro tempo. Junto com eles me retirei, rumo a um território pacífico, onde eu poderia assistir finalmente a estréia da seleção.


O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada pela comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama da estréia do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país. Para ler mais relatos sobre o assunto busque pela tag Especial_Copa, no sistema de busca do Overmundo.


Mais fotos.

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Mariana Reis
 

Coisa triste essa da intolerância, não? Olha, talvez o texto pudesse ter mais detalhes sobre como foi essa expulsão do bar, o que aconteceu com essas pessoas... talvez a fala do dono do bar sobre o assunto. Não sei, talvez eu esteja tendo uma idéia jornalística, noticiosa, em cima do teu texto, o que não é proposta inicial, né. Mas tá completinho, com fotos legais...

Mariana Reis · Olinda, PE 15/6/2006 20:47
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Sergio Rosa
 

Oi Mariana. Valeu pela sugestão, vou acrescentar alguma coisa nesse sentido sim.
abcs

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 16/6/2006 10:51
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Felipe Gurgel
 

Opa Sérgio, muito legal seu texto. Achei linda a vitória de 6 a 0 dos argentinos. E digo mais. Eles têm uma aplicação e vibração que nosso jogo não tem. Mais raça também. Acho Brasil e Argentina as melhores seleções do mundo. É uma tremenda bobagem essa rivalidade. No fundo, rola é uma ponta de inveja mesmo. Admiração travestida de repúdio. Todos sabemos que eles têm futebol para ameaçar nossa hegemonia. A vitória deles contra nós nas Eliminatórias em Buenos Aires foi prova disso. Poucas vezes vi uma seleção jogar um futebol tão determinado. Bonito de se ver. Ainda assim, torço para o Brasil e acredito nas nossas aptidões. Mas que nós temos o que aprender com eles, temos sim.

Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 19/6/2006 16:43
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Rica P
 

Faço coro! Tanto ao autor, como aos que visitaram a argentina e constataram que a coisa é mais light que por lá. Mesmo entre taxistas e jornaleiros. Pior é que aqui tem muita gente que acredita de verdade que todo Argentino é um nojento...olha, fui num show de heavy metal em Buenos Aires com umas 5 mil pessoas, todos adolescentes de preto, descobriram que eu era brazuca e fizeram a maior festa! Adoro o país e o povo. Nosso negócio não é 'futebol-arte'? Então viva quem joga bonito!

Rica P · São Paulo, SP 20/6/2006 22:05
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Leopoldo Furtado
 

E pelo menos os Cruzeirenses do recinto deveriam ter o Sorín como ídolo. Não dá pra torcer contra ele depois de tantos bons serviços prestados ao Cruzeiro.

Leopoldo Furtado · Itabira, MG 20/6/2006 23:37
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Hilton
 

Quando li esta passagem, lembrei aquelas cenas horríveis do morumbi, quando os torcedores do Brasil se irritaram com a má atuação do Rivaldo e atiraram as bandeirinhas bras. ao chão. Ué, quanto patriotismo, hem, kkkkkk...Disto a tv não mostra o replay, não, né ;) ?
...
Primeiro eles desrespeitam as bandeirinhas do próprio país!
Depois bebem, e desrespeitam as do país vizinho...
Vindo desses ´macaquitos´, a gente não podia esperar outra coisa...
Por essas e por outras, estou com Ghana nesta 3ª-feira.
Y en el viernes, ¡Vamo, vamo Argentina!
E dá-lhe Galo, Ortiz, Galván e Capria!

Hilton · Belo Horizonte, MG 25/6/2006 21:56
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José Marcius
 

Caro Sergio
Gostei muito do texto e vou confessar uma coisa, depois do Brasil , a Argentina é meu segundo time
Adoraria ver um final Brasil -Argentina nesta Copa e no próximo jogo Argentina -Alemanha estarei torcendo para nossos hermanos.

José Marcius · Belo Horizonte, MG 28/6/2006 23:10
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