Associações questionam Virada Cultural de SP

Augusto Diniz
Folheto com a programação da Virada Cultural
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Augusto Diniz · São Paulo, SP
26/4/2009 · 14 · 3
 

Nos dias 2 e 3 de maio, São Paulo realiza pela quinta vez a Virada Cultural, atividade promovida pela Secretaria Municipal de Cultura, com duração ininterrupta de 24 horas, com diversas atrações, que vão de Jon Lord (ex-Deep Purple), Tom Zé, Maria Rita, Novos Baianos e Reginaldo Rossi até músicos sem espaço na mídia, além de performances teatrais e apresentações circenses, envolvendo centenas de artistas de vários gêneros. Muitos se apresentam em palcos montados nas ruas do centro da cidade – portanto, acesso gratuito. Embora plural, a prática é questionada pelas associações do meio artístico, que não a consideram uma política municipal de cultura.

O presidente da Cooperativa de Música, o compositor e pianista Luis Felipe Gama, avalia que a atividade “pode até ter seu lugar, mas não podemos confundir com política pública”. Segundo o músico, a Virada Cultural é muito ligada ao entretenimento. “Porém, não se presta a formação de público e difusão da cultura”, afirma.

Luis Felipe Gama questiona também a forma que a curadoria seleciona as atrações da Virada Cultural. Ele alega que a cooperativa nunca foi convidada para ser parceira na atividade, embora seus cooperados tenha uma participação ativa na programação. A Cooperativa de Música, com sede em São Paulo, possui 1,4 mil associados.

Ainda de acordo com o músico, embora o Circuito Cultural Paulista – programa do Governo do Estado em parceria com os municípios de difusão de espetáculos no interior - apresente muitas deficiências, a prática é um exemplo melhor de política pública. “O Circuito institui aos artistas laços com a mídia, as prefeituras e o público”, explica.

Já o presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, Ney Piacentini, acha que a atividade tornou-se importante para a cidade. Porém, ele concorda que a Virada Cultural não se enquadra em uma política de cultura. “A Virada é um evento. No dia seguinte só sobra ressaca. Com a cultura, tem que se pensar em continuidade, tem que refletir e não só entreter”, argumenta.

A Cooperativa Paulista de Teatro, que possui cerca de quatro mil associados integrados a mil grupos teatrais, é parceira voluntária da Virada Cultural. “A cooperativa representa 80% da produção teatral do estado. Muitos associados participam do acontecimento”, justifica Piacentini a parceria.

O produtor geral da 4º Mostra Latino-Americana de Teatros de Grupo, Alexandre Kavanji, avalia que atividade “custa uma fortuna e não deixa nada”. O governo do município destina ao fomento de teatro R$ 9 milhões, para 30 grupos trabalharem o ano inteiro. A Virada Cultural de São Paulo irá despender em 24 horas R$ 4,5 milhões. “Você bota uma multidão na rua e 24 horas depois as pessoas esquecem”, critica.

Kavanji exemplifica que os grupos selecionados na Lei de Fomento para o Teatro é um projeto de sequência. “Alguns reúnem comunidades, outros grupos pesquisam. São projetos de longo prazo, com envolvimento”, expõe. Para o produtor, “quem ganha com a Virada é o prefeito e o artistas grandes (que cobram cachês altos para participar)”.

A Mostra Latino-Americana de Teatros de Grupo, organizada pela Cooperativa Paulista de Teatro, já integrou no passado a programação da Virada Cultural porque um dos dias de sua realização aconteceu justamente na data do evento da prefeitura e, além do mais, estava sendo apresentada no Centro Cultural São Paulo, espaço administrado pelo governo municipal. A Mostra deste ano se inicia um dia depois da Virada Cultural.

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Helena Aragão
 

Não moro em São Paulo e nunca estive na Virada Cultural, infelizmente. Este ano vou perder de novo. Achei interessante ler o que dizem vozes dissonantes, porque em geral só escuto elogios à iniciativa. Mas, apesar de achar que o diálogo é sempre importante para que as coisas melhorem e de compreender boa parte das críticas expostas acima, de certa forma me dá uma sensação de que nada pode ser perfeito e nunca será unanimidade. Por mais que seja um evento grande, não dá para ter espaço para todos - e isso sempre vai causar algum mal-estar. Dizer que "no dia seguinte é só ressaca" me parece um tanto rancoroso, tenho minhas dúvidas se a pessoa diria a mesma coisa caso tivesse sido selecionada e participasse do evento.

Se não pode ser considerada política cultural, como dizem alguns, me parece que a iniciativa colabora para que a cultura seja protagonista por 24 horas de uma cidade frenética como São Paulo. O valor simbólico disso pode ter frutos tão importantes quanto as políticas - isso não quer dizer que elas não são necessárias, mas também não quer dizer que a virada é só ressaca. Gostaria muito de ver um evento parecido na minha cidade e não só pelo entretenimento. No Rio, ele seria um desafio em termos de segurança e iluminação. Abs

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 27/4/2009 10:31
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Higor Assis
 

Se o pessoal do teatro que recebe ajuda reclama o que dirá este pessoal aqui.

Neste ano o samba foi execrado, massacrado e praticamente aniquilado da virada cultural. Não há em 24 horas de evento, um único reduto que podemos aproveitar com as comunidades que trabalham a favor do samba. Não estou falando do samba da maria rita, da beth carvalho, do zeca pagodinho, estes já tem demais. Estou citando caso como o acima citado no link. O pessoal que faz acontecer: sem gravadoras, sem apoio e sem ajuda nenhuma.

Ano passado tivemos grande sucesso com o palco do samba com a velha guarda, cantores e grupos não consagrados no cenário nacional, porém que tem sim sua parcela de ajuda a difusão cultural nacional.

Enfim, se não há espaço para todos em 24 horas, que a frança não tirasse o espaço do samba.

Higor Assis · São Paulo, SP 27/4/2009 17:50
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Marien
 

A falta de diversidade cultural é obvia no evento. De uma olhada na minha crítica sobre o evento: http://www.overmundo.com.br/overblog/vrada-cultural

Marien · São Paulo, SP 11/5/2009 11:31
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