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Até a estátua dançou

Tetê Oliveira
O shoppping como palco
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Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ
3/9/2007 · 193 · 11
 

Sob sol forte e temperatura de uns 30ºC, um homem-estátua, prateado da cabeça aos pés, interrompeu sua performance diária para os pedestres de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Caixa de moedas nos braços, ele assumiu seu lugar na platéia informal, que se concentrava, principalmente, à sombra dos coqueiros plantados de um só lado de uma praça pública.

No conforto de um shopping com ar condicionado, sobre os ombros do pai, a pequena Láiza, de 2 anos, tinha os olhos fixos na direção de um palco erguido na praça de eventos. Assim como ela, dezenas de pessoas nos corredores laterais do espaço, nas escadas rolantes, na porta das lojas, apoiadas nas grades dos pisos superiores e no elevador prestavam atenção à movimentação nada rotineira.

Tanto na Praça Rui Barbosa como no TopShopping, o que atraiu os olhares de crianças, adolescentes em uniforme escolar, donas de casa, aposentados, ambulantes, trabalhadores em horário de expediente ou de almoço e muitos transeuntes mais foi o 14º Festival de Dança de Nova Iguaçu.

Produzido pela bailarina, coreógrafa, produtora cultural e empresária Tereza Petsold, em parceria com a prefeitura local, o festival ocorreu de 22 a 26 de agosto e, como já virou tradição, levou a arte da dança a palcos alternativos, além dos teatros do Sesc de Nova Iguaçu e do Espaço Cultural Sylvio Monteiro. As performances de grupos de dança de rua, de jazz, de dança contemporânea, de afro, entre outros, encantaram o público, que, em sua maioria, raramente tem a oportunidade de assistir a esses espetáculos.

A programação limitou as apresentações na Praça Rui Barbosa a dois dias e a um horário ingrato: meio-dia. No dia 24, as atrações foram os grupos Arcanjos (dança de rua), Unisuam e Akoni. Grupo feminino de percussão e dança do Grupo Cultural AfroReggae, o Akoni se apresentou com 11 de suas 18 “mulheres fortes e guerreiras” (significado do seu nome), numa coreografia que incluiu cantos afros e jongos.

Num intervalo, entre uma exibição e outra, o homem-estátua sumiu da platéia e reapareceu no palco. Ao som de hip hop, ele exibiu um break não muito convincente, mas que agradou o DJ – que fez ouvidos moucos a uma provável organizadora do evento, que pedia que ele desligasse o som e interrompesse a cena inusitada. Ao final, debaixo de aplausos incentivados pelo DJ camarada, ele ainda distribuiu pirulitos às crianças, antes de recolher sua caixa de moedas e, feliz, voltar a sua rotina, sumindo em meio aos pedestres.

No dia 25, o homem-estátua não apareceu e perdeu, entre outros, o show do grupo Adrenalina, do Projeto Dança de Rua, da Prefeitura de Santos, em São Paulo. O grupo participou intensamente do festival, do qual já participara em outras edições: subiu ao palco do TopShopping, da Rui Barbosa, do Sesc – na mostra competitiva – e esteve à frente de uma oficina de house e free style para bailarinos.

Os organizadores do festival estimaram em mil pessoas a platéia na Rui Barbosa. Um público pequeno se lembrarmos que a praça fica situada no início de um calçadão movimentadíssimo e que a cidade tem quase 845 mil habitantes.

Na minha opinião, o público reduzido não é sinônimo de desinteresse por espetáculos de dança, mas da falta de uma maior divulgação. Confesso que, moradora de longa data de Nova Iguaçu, nunca havia prestigiado o festival - até porque não lembro de ter ouvido falar dele antes de sair à cata de movimentos culturais para divulgar, recentemente, no Overmundo. (E me animei a assistir a algumas apresentações por causa do Adroaldo Bauer, que num comentário à nota postada por mim em Agenda, pediu-me para aplaudir o festival por ele e publicar minhas impressões sobre o evento aqui.)

No shopping, que tem uma circulação estimada de cerca de 24 mil pessoas por dia, a platéia foi maior. O que já era previsto, afinal o festival ocupou aquele palco nos seus cinco dias e com mais grupos. A grande sensação no dia em que lá estive foi uma jovem bailarina de 15 anos desconhecida do grande público e moradora de Nova Iguaçu mesmo.

Integrante do Studio de Dança Simone Rocha, Thaís Carla despertou o preconceito de boa parte do público ao subir ao palco no dia 24. “Caraca, olha que mulher gorda”, comentou de imediato uma adolescente que assistia ao festival, ao lado de amigas, e perto de mim e da jovem Andréia de Castro, no segundo piso do shopping. Para ser honesta, sua presença no palco também me causou estranheza.

Thaís tem 1,68m e uns 90k. No dueto com uma jovem bailarina mais alta e magra (que depois descobri ser sua irmã), ela chamava mais ainda a atenção. Mas bastaram alguns segundos, e Thaís mostrou a que veio: deu um verdadeiro show. “Caraca, como a gordinha dança!”, ouvi, pouco depois, da mesma adolescente. Andréia, uma estudante de 26 anos, do tipo mignon, apaixonada por dança de salão e que praticou balé por seis anos, não resistiu e comentou comigo, mostrando toda sua indignação com o primeiro comentário: “Pra dançar não tem essa de ser gordo ou magro, feio ou bonito. Tem de ter jeito e talento”. Ao final do dueto, o público, que até então se mostrara econômico nos aplausos, irrompeu em assovios e gritos de incentivo às bailarinas. Thaís brilhou.

Ela ainda retornou ao palco umas duas ou três vezes (não sei ao certo porque, entre um intervalo e outro, tentava fotografar e observar a platéia). Em todas, causou comoção – nas coreografias de street dance, livre e jazz.

Por sua vez, Láiza, a menininha de 2 anos, deu um show à parte. Desceu dos ombros do pai, passou por baixo do cordão de isolamento para a platéia vip – onde ficavam os bailarinos e seus pais corujas – e por pouco não subiu ao palco. Dançou, bateu palmas, correu, rodou, caiu e vibrou com os bailarinos. Diante da empolgação da filha, Rutemberg Borges e Nanci da Silva, grávida de sete meses, decidiram adiar a volta pra casa depois das compras. E ficaram até o final da apresentação dos grupos. “Acho que vou ter de procurar uma academia pra ela dançar”, disse Rutemberg.

No final da apresentação, olhei em volta e cadê a Thaís? Não acreditei que tivesse perdido a estrela do festival. Mas eis que a reencontrei num quiosque de sorvete, acompanhada por um amigo bailarino. Cumprimentei-a e ela, de cara, abriu o sorriso, que mostrou ser sua marca registrada até mesmo quando sua sobre o palco. Thaís dança desde os 4 anos e não se surpreende mais com a reação preconceituosa do público. “Eu nem ligo. No final das apresentações, o pessoal sempre vem falar isso. O mal das pessoas é duvidar da capacidade que cada um tem”, disse tranqüila, acrescentando que no colégio é conhecida como "a gordinha sexy que dança". “Quando a Thaís sobe no palco, não tem pra mais ninguém. Ela é a estrela”, resumiu o amigo, que eu, encantada com o carisma da garota, esqueci de anotar o nome.

Com 68 grupos profissionais ou amadores inscritos, num total de 2.200 bailarinos, vindos inclusive de Minas Gerais e São Paulo, e a participação especialíssima de profissionais como Carlinhos de Jesus e o americano Richard Cragun - estrela do Ballet de Stuttgart durante anos e um dos diretores da companhia DeAnima Ballet Contemporâneo -, o 14º Festival de Dança de Nova Iguaçu foi um sucesso. E, para mim, o homem-estátua, Láiza e Thaís estiveram entre os grandes destaques do evento. Com suas performances, eles representaram a dança como uma arte verdadeiramente popular – e digna de todos os aplausos.

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Adroaldo Bauer
 

Tetê,
Querida menina, fizestes mais que aplaudir por mim algumas cenas que descrevestes lindamente.
Puzestes-me a chorar aqui em frente à tela a cada parágrafo que avançava, lento, comovido, mastigando cada palavra de teu entusiasmo pelos dançantes e videntes do festival.
Uma de minhas filhas dança (e, acho que é porque sou pai dela, digo que dança maravilhosamente).
Eu ainda danço, com minha escola de samba, a Imperadores, na quadra e na avenida no carnaval.
Eu acredito que a dança liberta o corpo, a cabeça de quem dança e, sim, da platéia que a assista.
Programava espetáculos de dança em palcos de rua aqui em Porto Alegre, no centro, em centros comerciais e em favelas.
A reação de preconceito inicial sempre foi substituída pelo frenético aplauso, pela exigência de bis (bailarino raramente bisa, porque não há como repor a energia consumida aplicada com dedicação aos movimentos de todo o corpo).
Muito bom teu texto. Muito boas tuas fotos.
Muitíssimo agradecido, guria linda.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 31/8/2007 13:58
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Tetê Oliveira
 

Adroaldo, eu te agradeço.
Fiquei muito feliz por ter lhe proporcionado tal emoção e descoberto sua ligação com a dança. Esses eventos nas ruas, favelas e centros comerciais de POA devem ter sido muito interessantes e enriquecedores, com certeza. Bom saber que você ainda mantém o vínculo com a dança - como pai coruja (com toda razão!), folião e espectador.
Um abraço carinhoso.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 31/8/2007 22:33
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Edmundo Nascimento
 

Prabéns Tetê ! Fiquei muito curioso em ver a Thaís dançando.. Muito !

Edmundo Nascimento · João Pessoa, PB 3/9/2007 13:18
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Walesson Gomes
 

Tetê muito bacana, fiquei bem interessado em ver a dança!!!

Walesson Gomes · Belo Horizonte, MG 3/9/2007 21:31
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C.E.P
 

Tetê,

Parabéns pelo texto. Deu vontade de estar lá.

C.E.P · Rio de Janeiro, RJ 3/9/2007 22:02
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Tetê Oliveira
 

Valeu, Edmundo, Walesson e C.E.P. Acredito que vcs também teriam gostado da apresentação da galera.
Abraços.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 3/9/2007 22:33
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Levi Orlando
 

Muito boa a matéria, e o enfoque dado a partir do espectador, fazendo o registro da inserção do público pelas suas reações e interação como o evento, a tornam ainda mais cativante.
Talvez uma das chaves para se aquilatar a paixão popular no Brasil pela dança esteja, por exemplo, em lembrar de Dora Vivacqua, bailarina capixaba que ficou conhecida como Luz Del Fuego, já radicada no Rio de Janeiro. Também vítima de preconceito e discriminação, perseguida pela própria família - acabou vítima de assassinato - foi precursora em sua época na defesa de idéias como a Ecologia, a emancipação feminina, e propugnava pela criação do Partido Naturalista Brasileiro.
Uma leitura prazerosa e reveladora da alma brasileira.
Um abraço.

Levi Orlando · Porto Alegre, RS 3/9/2007 23:01
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Andre Pessego
 

E tu que tens sorte (e muito talento), sorte de poder presenciar e por que não - dansar - .
Muito boa lógico com essa competência toda, um abraço andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 4/9/2007 03:41
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FILIPE MAMEDE
 

Excelente matéria Tetê. Que iniciativa bacana esse festival. Parabéns pra quem organiza e pra você, que nos brindou com os teus escritos. As fotografias estão muito boas, principalmente a "principal (perdoa a redundância). Muito bem composta.

Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 4/9/2007 08:31
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Natacha Maranhão
 

delícia de texto, Tetê! me senti lá, vendo a Thais dançar!
beijo

Natacha Maranhão · Teresina, PI 4/9/2007 09:13
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Tetê Oliveira
 

Levi, muito obrigada. Eu fui realmente uma espectadora no festival e ultimamente tenho tido prazer em observar o comportamento e as reações das pessoas nos eventos aos quais assisto. Agradeço as informações sobre a Luz del Fuego, pouco sei sobre ela. Teve um filme protagonizado pela Lucélia Santos, né? Infelizmente, não o vi.
André, obrigada pelo carinho. Deu vontade de dançar mesmo!
Oi Filipe, os organizadores estão mesmo de parabéns. É complicado promover um festival assim, ainda mais por tantos anos. Valeu a força!
Natacha, vc ia virar fã da Thaís também. Ela é super carismática e uma simpatia.
Beijos.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 4/9/2007 09:39
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