Até o dia em que o cão morreu

Christiano Menezes / Companhia das Letras
Capa da nova edição
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Fernando Mafra · São Paulo, SP
25/3/2007 · 172 · 6
 

Escrever não é uma tarefa fácil, escrever bem, menos ainda. Numa língua onde amor rima com dor, calor, fervor, odor e tantos outros substantivos convenientes, poesia parece ser, poesia simplória e ruim ao menos. Escrever uma boa prosa não está tão distante. Daniel Galera é um jovem escritor "Porto Alegrense" nascido em São Paulo que consegue esse feito, com três livros lançados e o quarto em estado quase embrionário.

Com Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla fundou a editora Livros do Mal, pela qual editou seus dois primeiros livros: Dentes Guardados (uma coletânea de contos agora disponível para download em seu site) e Até o Dia em que o cão morreu - recentemente adaptado para o cinema no filme Cão Sem Dono.

Até o Dia em que o cão morreu, como Galera mesmo descreve, é uma fábula pseudo-realista. O protagonista é formado, solteiro e vive sozinho, mesmo dependendo dos pais financeiramente. Não sabe o que quer, mas consegue demonstrar de inúmeras maneiras o que não quer, e uma das coisas que não quer é procurar emprego, ou se ligar demais emocionalmente. Mas da mesma maneira que ele tenta ignorar o tempo que corre e o mundo que está la fora, dois novos personagens em sua vida ignoram suas patadas: Seu cão e a modelo Marcela. Assim, como se não bastasse a dificuldade de tentar achar um rumo sozinho, nosso protagonista precisa decidir se quer carregar outros consigo.

O personagem é palpável, até demais, pois em minha parca experiência pessoal já esbarrei com diversos tipos parecidos, mesmo que não admitam a identificação, e é claro que já enxerguei algo de mim ali. Os jovens-adultos agora tornaram-se adolescentes tardios, e esse é um grande trunfo do romance: ele consegue captar o espírito dessa geração que se acha capaz de fazer tudo mas não acha nada digno de ser feito. O que nos separa do narrador são alguns maneirismos quase-fantásticos. Um livro honesto e gostoso de ler.

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Agora vivendo em São Paulo, Daniel Galera publicou seu terceiro livro e segundo romance, Mãos de Cavalo pela Companhia das Letras e relançou semana passada Até o dia em qua e o cão morreu pela nova editora. Enquanto isso segue trabalhando como tradutor - em seu currículo constam livros como Minha Vida (Robert Crumb), Pornô (Irvine Welsh) e Reino do Medo (Hunter S. Thompson); escreve para o blog de video-games Jogatina e já tem planos para sua próxima história, parte do projeto literário Amores Expressos: Criado por Rodrigo Teixeira, despachará 16 escritores brasileiros para 16 cidades do mundo que têm como missão retornar com uma história de amor enquanto são observados por uma equipe de filmagem; o destino de Galera é Buenos Aires.

Abaixo segue uma entrevista por e-mail com o autor:

Fernando Mafra - Qual o seu grau de envolvimento no filme? De onde partiu a iniciativa de adaptar o livro?

Daniel Galera - Meu envolvimento foi participar de leituras do livro, opinar sobre o roteiro em algumas ocasiões e conviver um pouco com a equipe. Acompanhei alguns momentos da filmagem, virei umas noites em bares, essas coisas. A iniciativa de fazer a adaptação partiu do Beto: uns três meses depois de lançar o livro, ele me ligou para perguntar o que eu achava da idéia. Acho que o livro chegou nas mãos dele pelo Marçal Aquino.

FM - O que você achou do filme? A essência do que você tentou passar no livro está lá?

DG - O filme ficou muito bom e acho que uma grande parte da essência do livro está nele, mas trata-se claramente uma releitura, uma obra nova feita por outros autores. Os principais temas estão lá: a apatia do narrador, o encontro de duas pessoas que juntas conseguem anular suas solidões por breves instantes, o peso e o encanto que as possibilidades da vida exercem sobre nós. Mas também há várias diferenças. Quem fala no filme são seus diretores, sua equipe, seus atores, que se inspiraram numa criação minha para mergulhar num processo de criação próprio.

FM - Considerando seu trabalho de tradutor, o que o torna um adaptador, você tentou "pegar leve" com o filme? Você acha que existe uma compreensão na mente do público sobre os problemas de se adaptar/traduzir uma obra em qualquer grau?

DG - Sempre acreditei que adaptações são obras originais, ainda que inspiradas em outras. Desde o início, me posicionei dessa forma com o Beto e o Renato: ajudo com o que precisarem, mas não vou me intrometer. Não sei até que ponto o público pensa nesse tipo de coisa. Acho que é preciso estar na pele de um autor adaptado para conhecer a estranha sensação de ter uma obra ao mesmo tempo homenageada e transformada. É agradável, mas também um pouco perturbador. Acho que os leitores que gostaram muito do livro poderão se deter um pouco na questão do que se ganha e se perde numa adaptação, mas para o público do filme me geral eu acho que isso não importa.

FM - Em seu blog você diz que não há resposta sobre se o livro é autobiográfico ou não - em paralelo ouvi críticas de leitores seus dizendo que a escalação de Tainá (mulher de Galera) como Marcela foi um erro justamente por reforçar a idéia de que a história é de fato autobiográfica. Qual o seu veredito sobre isso, se há algum?

DG - Meu veredito é que a Tainá está maravilhosa no papel e que todo o resto é irrelevante. Sustento o que disse naquele post: é impossível afirmar de forma honesta se o livro é autobiográfico ou não: a história é uma mistura de experiência própria, observação do mundo a meu redor e pura invenção. Quase toda a literatura é concebida dessa maneira. Talvez valha a pena ressaltar que a Tainá nem sonhava em ser modelo na época em que escrevi o livro. E ao contrário do meu personagem, eu nunca tinha morado sozinho nem trabalhado como tradutor. Mas acho cansativo entrar nesses detalhes, porque nada disso importa. As pessoas vão acreditar no que preferirem acreditar, e já me acostumei a isso faz tempo.

FM - Li o livro há algum tempo, mas dois detalhes na adaptação me chamaram a atenção: A mudança no título e a adição de um nome ao protagonista. Você tem idéia ou teorias de porque essas decisões foram tomadas? Você acha que elas têm algum impacto sobre a história?

DG - Foram escolhas dos diretores e roteiristas. Sei que o título do livro foi considerado inadequado para as telas. Não gosto do novo título, mas de acordo com minha visão de que o filme é uma obra nova inspirada no livro, isso não me incomoda. Quanto ao nome do protagonista, entendo que deve ter sido importante para o roteiro. Na literatura é muito mais fácil ocultar o nome do protagonista. Na tela, isso pode ser um problema.

FM - Tropecei no próprio Overmundo em um texto de Fábio Godoh, envolvido na produção, que elogia Beto Brant em detrimento de você e de seu texto. Você acha que isso é uma atitude ética?

DG - Fui pego de surpresa quando li esse post, mas não acho que seja anti-ético. Na verdade, não acho que esse assunto mereça atenção.

FM - O que mudou em sua vida desde sua mudança para São Paulo?

DG - A principal mudança é que tenho dificuldade em encontrar um bom churrasco por aqui. Ou é insanamente caro, ou a carne não é lá essas coisas, apesar da tentativa de disfarce. Dia desses descobri uma churrascaria de gaúchos no Alto da Lapa que é boa e barata, me lembra as churrascarias de Porto Alegre, então o problema aliviou um pouco.

FM - Você acredita que agora é um escritor bem-sucedido? Está satisfeito com os rumos na sua carreira? Há objetivos distantes que você não tem certeza se serão alcançados?

DG - Nunca planejei muito uma carreira como escritor. O que sempre tive foi a certeza de que escrever era importante - ou melhor, essencial - para mim, e acho que os livros que publiquei até agora são decorrência disso. Penso em curto prazo - tenho uma idéia, quero muito escrevê-la, quero publicá-la. Algumas oportunidades busquei sozinho, outras chegaram até mim. O caminho se faz ao percorrê-lo, com o perdão pela filosofia barata.

FM - E a Livros do Mal, acabou?

DG - Eu e o Pellizzari nos recusamos a assumir que acabou, porque no fundo ainda acreditamos que o projeto está vivo, em hibernação. Mas a Livros do Mal foi uma explosão que surgiu de uma reação em cadeia a partir do encontro em alta velocidade entre um átomo de entusiasmo e outro de oportunidade. Será necessária outra reação dessas para que o projeto desperte de sua caverninha aconchegante no alto da montanha.

FM - Como se deu seu envolvimento no projeto "Amores Expressos"? Como está sendo a experiência de escrever sob encomenda?

DG - Meu envolvimento foi ter sido convidado. Fiquei entusiasmado com a idéia e pretendo aproveitá-la plenamente. Não acho que será exatamente uma escrita por encomenda. Já escrevi por encomenda antes, e nesse caso há limites rígidos. Creio que o projeto cria a oportunidade para que os autores se dediquem a um trabalho verdadeiramente autoral. Há apenas um limite de tempo, mas não acho que será um problema.

FM - Além do seu envolvimento nesse projeto, há mais escritos por vir?

DG - Sim, pretendo começar outro livro logo após terminar a história de Buenos Aires. Mas ainda é uma idéia vaga demais para entrar em detalhes sobre ela.

FM - Já ouvi dizer que você se considera um autor saído da internet. Isso procede? Além do Rancho Carne e do Jogatina, você participa ou participou de outras iniciativas puramente online?

DG - Procede em parte. Eu tiro sarro dessa coisa de "autor saído da internet" porque acho a expressão bisonha, parece que o sujeito saiu voando do monitor. Ao mesmo tempo, é verdade que comecei a publicar na internet e isso foi crucial para eu descobrir a escrita e abrir caminhos na literatura. Editei um site literário, o Proa da Palavra, e escrevi durante três anos no mail-zine Cardosonline, que foi uma das coisas mais legais que me conteceram na vida.

FM - Muito anda se falando sobre conteúdo e jornalismo colaborativo, em especial com receio de acadêmicos e profissionais jornalísticos. Você tem acompanhado algo sobre o assunto? Qual a sua opinião sobre isso e de outras iniciativas ligadas como a liberação de direitos atravéz de licensas livres?

DG - Gosto dessas iniciativas. Acho que tudo isso veio para ficar, desde Wikipedia até A Nova Corja, passando pelo próprio Overmundo. E me interesso muito pela idéia de licenças livres. O ato de doar uma parte do trabalho tem imenso valor para quem escreve, sobretudo literatura. Negar a beleza e a importância da noção de compartilhamento da expressão humana é uma forma triste de cegueira. O desafio de cada autor e das publicações é conseguir conciliar a recompensa material pelo trabalho com essa outra dimensão, a do compartilhamento. A internet é hoje um imenso e fascinante laboratório desse assunto.

FM - Alguém já comprou o Mãos de Cavalos para adaptar?

DG - Está negociado e quase comprado por uma produtora de Porto Alegre. Eles já estão trabalhando no roteiro.

FM - Essa é mais um convite, para você acrescentar uma entrada no Guia do Overmundo falando dessa churrascaria que você descobriu para ajudar outros imigrantes de Porto Alegre.

DG - Vou dar uma olhada lá, se for fácil eu coloco. É a Gaúchos da Pio XI, na Rua Pio XI.

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Texto elaborado com consultoria de Mi [de Camila] Cortielha

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André Gonçalves
 

muito bom.

André Gonçalves · Teresina, PI 26/3/2007 14:05
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Roberta Tum
 

Boa entrevista!

Roberta Tum · Palmas, TO 26/3/2007 16:49
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Mi [de Camila] Cortielha
 

Adorei! :)

Mi [de Camila] Cortielha · Belo Horizonte, MG 28/3/2007 13:12
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Pedro Vianna
 

Muito legal...

Pedro Vianna · Belém, PA 29/3/2007 15:21
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Daniel Duende
 

O Fernandão e a "consultora" Mi Cortielha (sempre ela!) estão de parabéns. A matéria ficou bacana, a entrevista ficou bacana, o Daniel Galera é bacana, eu sou bacana, vocês são bacanas... olha que bacanal! :D

Vou atrás destes dois últimos livros do Galera. Curtia os escritos dele nos idos tempos do COL (CardosoOnLine). Já o filme, assistirei se ele "aparecer na minha frente". O Godó cortou meu tesão com aquele texto dele.

Beijo do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 8/6/2007 03:47
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Bruna Célia
 

O filme é maravilhoso... infelizmente o vi antes de ler o livro, que agora procuro avidamente para comprar.
Um abraço para o autor dessa reportagem/entrevista.

Bruna Célia · Goiânia, GO 18/1/2009 14:03
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