Disse certa feita o filósofo Stanley Kubrick, ao ser questionado acerca de suas adaptações literárias para o cinema, que apenas os livros medíocres resultam em bons filmes. Bem, eu não sou analista de cinema, muito menos crítico literário, mas desaprendi a duvidar desse engenhoso axioma de Kubrick no exato momento em que me apaixonei pelo olhar dentuço e ensolarado do cineasta paulista Beto Brant. Artista de invejável competência, com um refinamento intuitivo que se traduz em uma rara estética fílmica hiper-naturalista, Beto sempre representou a exata oposição a tudo aquilo que eu sonhava como arte, embora sempre tenha amado a seus filmes como um pássaro às despedidas.
Há alguns meses, com efeito, tive a oportunidade de trabalhar, juntamente com Marcelo Noah, na produção de seu último longa-metragem, intitulado "Cão sem dono", uma adaptação violenta do ingênuo romance "Até o dia em que o cão morreu", do pudico poeta do mal Daniel Galera. Foram quase seis oníricas semanas de filmagens, aqui em Porto Alegre, empapadas de muita "tristeza barata" e poesia de segunda, que acabaram por provar que, ao contrário do que dizia Walter Benjamin, a experiência do choque cinematográfico pode, muitas vezes, resultar em obras mais profundas e complexas do que a literatura. Faço aqui, portanto, em defesa do ponto de vista audiovisual, a apologia consciente da mediocridade literária.
Ao sermos contratados para a película, que estréia no próximo ano, com a função de assessorar a adaptação do protagonista do livro para esta epopéia "anti-Malhação" de Beto Brant, eu e Noah não imaginávamos o quanto as carências literárias de Galera nos ajudariam a visualizar a constituição ideal do novo personagem. A equação foi simples: conferir substrato ao existencialismo vazio que o autor de "Até o dia em que o cão morreu" impõe ao seu personagem. A idéia nuclear era livrar o protagonista do filme do tédio estético, e não filosófico, que a atmosfera do romance oferece aos leitores, injetando em seus olhos, com seringa dadaísta não-descartável, altas doses de problemática maiakovskiana, associadas a um tratamento de choque poético regado a Fernando Pessoa, Lupicínio Rodrigues e Sérgio Faraco.
Mas isso não significa, em hipótese alguma, que Daniel Galera escreva mal. Como bem sintetiza o jornalista Paulo Polzonoff, "a questão é que ele não tem absolutamente nada o que dizer que justifique o investimento em um romance". Na verdade, o grande mérito de Galera foi produzir um péssimo e redundante livro, assim como um medíocre e inverossímil protagonista, ensejando, dessa forma, as possibilidades de construção de um grande e complexo personagem cinematográfico. Em resumo, Galera tenta fugir da poesia, como todos os seus amigos, mas, na verdade, é a própria poesia que foge de Galera, deixando pelo chão de seu texto um lamentável rastro de sombra filosófica existencialista, com matizes amadorísticos e masturbatórios, sem quaisquer efeitos estéticos.
Dessa forma, embora ainda com ironia deficitária, Ciro, o personagem do filme, desponta na tela finalmente livre daquelas opulentas espinhas que feriam tanto o rosto da personalidade oca e anacronicamente adolescente do protagonista do livro. "Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não pensar", diz Ciro, em uma das cenas de "Cão sem dono", o que, na boca do personagem alter-ego de Galera, soaria demasiado inteligente e maduro para quem despreza romanticamente, em nome do orgulho, um emprego de revisor em uma agência de publicidade. Se no sex and drugs de Cazuza não havia mais nenhum rock and roll, no rock and roll de Galera não há nem sex, nem drugs, e muito menos o próprio rock and roll.
Mas o filme espreme todas essas espinhas, e o espectador, enfim, poderá sentir o gosto amargo de Albert Camus escorrer pelo espelho. Como prova disso, por exemplo, basta pensar que o papel de professor universitário, que seria interpretado pelo decadente Luis Augusto Fischer, foi imediatamente redimensionado, ficando a cargo do extraordinário compositor e poeta Beto Deschamps, que o desempenhou com o brilhantismo indelével que caracteriza a sangue as feições de Isidore Ducasse. Enfim, "Cão sem dono", o primeiro filme da história do cinema nacional a retratar Porto Alegre de uma maneira verdadeiramente livre dos cacoetes provincianos, promete salpicar de lama as calças de brim branco da velha crítica brasileira, a qual, amargurada com a sua própria caduquice, jamais conseguiu compreender "a causa" da rebeldia contra-cultural "sem causa", que é tão simples e tão velha como a possibilidade libertária de estrangular os anjos.
Já tô querendo ver Cão sem Dono (aliás nome de um extinto grupo musical aqui do Rio com Paulo Bahiano e o fantástico cantor Marcos Sacramento)...
Beto Brant resolveu, a meu juízo, a dicotomia entre cinema "comercial" e cinema "arte" (seja lá o que isso signifique). Tem níveis de leitura para todos!
Abraço!
Bom texto, Fabio. Abraços.
marcelo sahea · Santa Maria, RS 16/3/2007 12:53
Daê Fábio? Alguém andou esbarrando na fronteira de ética, não?
Abraço.
Defina "alguém" e defina "ética"...
Abraço!
Caro Fábio,
Quando me referi a "alguém" no meu comentário era a ti, autor do texto. Apesar dos tags marcarem Cinema, ainda que fizesse menção ao Galera, pensei estar diante de uma crítica/análise de Cão Sem Dono e não do romance que deu origem ao filme. Crítica essa repleta de adjetivos pouco laudatórios ao autor e sua obra, que beira o paradoxal, como no seguinte trecho: " Mas isso não significa, em hipótese alguma, que Daniel Galera escreva mal. Como bem sintetiza o jornalista Paulo Polzonoff, "a questão é que ele não tem absolutamente nada o que dizer que justifique o investimento em um romance". Na verdade, o grande mérito de Galera foi produzir um péssimo e redundante livro (...) " Por uma questão de estilo pessoal, me concentraria nos méritos, dificuldades e nas qualidades do filme em si.
Como tenho alguma experiência no ramo, tendo adaptado um conto para curta e uma peça de teatro para longa, sei das dificuldades que se enfrenta para a transposição de um meio para outro, tal como a impossibilidade de fazer com que o espectador mergulhe no que o personagem tem de mais subjetivo. O que me conduz a questão da ética, já que me abstenho de discutir em foro público as soluções usadas para transformar palavras, muitas palavras em imagens e som em movimento, ainda mais como foi no seu caso, "denegrindo" a obra-fonte.
Como diria o outro: "Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa."
Forte abraço,
L.
O cão é o dono
Como dizia Beto Brant,
"não se pode pedir pra mulher que se idolatra
que nos deixe foder entre os mamilos".
Ora, tenho pena dele,
se o que dizia
era verdadeiro.
Ninguém pode se sentir melhor
do que o sujeito que fode
entre os mamilos da mulher que idolatra.
Ouça, Beto Brant é um cara que respeito.
Quase um pai pra mim.
Aprendi com ele algo sobre a natureza humana:
"O homem que admite a si mesmo que é um covarde
já deu um passo para a superação do seu medo.
Está a caminho de se tornar um herói".
Permitam-me comentar, deixando claro que não vi o filme nem li o livro ainda. Leandróide, você tem razão quando diz que não é fácil transpor o texto de um romance ou afins para as telas. São linguagens opostas e a fidelidade, neste caso, é opção do roteirista ou do diretor. Por outro lado, Fabio faz, dentro do texto, sua crítica pessoal à obra do Galera. Críticas devem ser parciais, sinceras e sem rodeios. Sim? Não? Abraços!
marcelo sahea · Santa Maria, RS 17/3/2007 11:08
Marcelo, acredito que críticas devem ser imparciais, não achas? Isentas de preconceitos, de influências geradas por qualquer sinal de desavenças pessoais, não que eu esteja insinuando isso, de modo algum.
Abração.
Tá, pessoal, vou contar a história deste texto. Na verdade, eu resolvi publicá-lo aqui só por causa do estilo, que acho bem interessante, e que tenta ser uma paródia daqueles textos do Fernando Jorge, com agressões desmedidas e absurdas. O lance é que, em relação ao conteúdo, considero que já esteja caduco. Hoje em dia, eu desprezo tanto o Galera quanto o Beto Brant, embora ainda ache que o filme tenha ficado bom. O que rolou foi que eu e um amigo poeta aqui de Porto Alegre, o Marcelo Noah, fomos contratados pelo Beto pra ajudar na adaptação do personagem principal do filme, o Ciro. O Beto é um cara que trabalha muito com a improvisação dos atores, e o Julio Andrade, que atuou como Ciro, não estava conseguindo encarnar o "poeta amargurado porto-alegrense". Este foi o nosso trabalho: direcionar o comportamento do Ciro, criando falas, cenas e até cenários, além de introduzir uma carga literária referencial que o filme não apresentava. Enfim, fizemos o trabaho, e um tempo depois, resolvi escrever esse texto, comentando a minha experiência pessoal e subjetiva de ter participado da produção. Acontece que o Beto ficou puto com o texto, rompeu com a gente e nos tirou dos créditos do filme. Uma canalhice. Neste texto, portanto, só o que tentei fazer é exercitar a minha liberdade, coisa que Beto Brant e companhia, ao que parece, estão longe de apreciar.
Abraços!
Fabio,
disse que teu texto era bom justamente pelo estilo. Na verdade, cheguei até aqui após ler tua entrevista com o Carpinejar, que também é boa. Quanto à história, prefiro não tecer comentários a respeito. E, Leandróide, creio, como cria Baudelaire, na crítica parcial. Críticas "embasadas" e politicamente corretas não são confiáveis. Não para mim. Abraços.
Ok, tá mais do que esclarecido. Liga não Fábio! Esse pessoal do show bizz é phoda mesmo. Agora entendi tua proposta.
Valeu!
Marcelo, essa é uma boa discussão: a crítica. Concordo que não devam ser nem um pouco politicamente corretas, já embasadas sim, o crítico, por dever de ofício, deve ter todo um série de referenciais para poder analisar uma obra.
Abraços a todos.
Eu acho que o grande lance é mesmo encarar a crítica como um obra de arte. Não vejo qualquer saída para o hermetismo decadente e subversivo da pós-contemporaneidade que não passe pela diluição das fronteiras entre as funções críticas e criadoras.
Abraço!
Que engraçado, Fábio. Todos esses "defeitos" que você atribuiu ao personagem principal de "Até o dia em que o cão morreu" são, para mim, as características do personagem.
O cara do livro é vazio mesmo e completamente ordinário e apático, praticamente um adolescente, sem nenhum talento literário e que nunca se esforçava nem para ser melhor, nem poético, menos ainda adulto (ou pior: com uma visão muito torta do que é ser adulto).
Será que você leu assim porque é poeta e eu assado porque estava no mesmo "barco" do personagem na época? Acredito que sim, mas no fundo isso não importa muito...
O irônico é que, depois que eu li a sua crítica diminuiu um pouquinho a minha vontade de ver o filme. E não por causa dos seus argumentos. Mas tenho medo de que o SEU desprezo pelo personagem do livro tenham transformado o Ciro em uma pessoa completa e aí, para mim, nada mais se justificaria nessa história...
Aí: o filme se saiu muito bem no Festival de Recife! Prêmio especial da crítica, melhor longa-metragem e melhor atriz para a estreante Tainá Muller. Parece bom.
Mi [de Camila] Cortielha · Belo Horizonte, MG 3/5/2007 15:11
A minha primeira impressão sobre o texto foi extremamente antipática. Antes de mais nada, pois simpatizo um bocado com o Daniel Galera, tendo, inclusive, chegado até este post através da entrevista do Galera feita pelo Mafra. Além disso, pois considerei um tanto estranho alguém elogiar tanto o Beto Brant e achar Daniel Galera tão medíocre assim. Mas, no fim das contas, foi só um choque de afetos e opiniões e tudo ficou bem...
Adaptar uma obra de uma linguagem para outra, ou de uma língua para outra, não é "difícil" ou "problemático". É foda mesmo, é doloroso, é uma dobradura com gilete, e não é confortável para ninguém -- principalmente para o autor da obra original. Ao observar a dignidade do "pudico" Galera e o histrionismo do autor deste texto -- sorry, Godoh -- mas também fiquei com menos vontade de ver o filme. Mas talvez esta seja também a idéia, não?
Seja como for, todos tem direito a uma opinião, e continuariam a tê-las mesmo que alguém as proibisse (e não é isso que acontece nas ditaduras de um tipo ou de outro?). Respeito, portanto, a opinião e o estilo do texto do Godoh, mas respeito mais ainda a obra do Galera e sua dignidade. Vale a pena notar que tenho um desprezo pelo cinema que só perde para o desprezo que Tolkien tinha pelo teatro shakespeareano. O que não quer dizer que eu não ache que o cinema pode render boas obras, mas será sempre menor do que a literatura -- em minha nada humilde e nada agradável opinião.
Agora que fomos todos bem honestos em nossa ranhetice, calo-me.
Abraços do Verde.
Puta me merda!
Me caguei toda agora: adoro cinema, adoro literatura e adoro sexo.
Vejam só, muitos têm dito o contrário aí em cima.
Pra mim foda é coisa boa, gostosa e gozo ver alguém dizendo que tal coisa é foda querendo chamar de ruim.
Eu pisco e rio.
Acho que ao sair do cinema, vou pra galera, ou ficar Esperando Godot porque, com certeza, não é mesmo o leiteiro lá fora que me chama aos gritos de chega de passar batom minha negra.
Também acredito, Duende, que haja filmes bons, assim como literatura ruim
(não vá pensar que falo do meu dragão favorito, pelamor de deus, eu não dou indiretas. Ou pelo menos tento ser direta o mais possível porque acho que faz bem pros dentes)
e crítica péssima.
Todas as pessoas, todas sem exceção, com direito à opinião!
Hey Juliaura... até eu acho que me excedi um pouco ao dizer que desprezo cinema. Estava um tanto cansado e estressado ao escrever o comentário acima, e não soube me expressãr muito bem.
O que eu quis dizer é que entre as artes, naturalmente valorizo mais aquela com a qual estou mais envolvido -- a literatura -- e que portanto minha paixão por esta é infinitamente maior do que minha paixão pelas outras artes. Não quero, com isso, diminuir as outras formas de arte, que também aprecio, mas a minha opinião pessoal, meu tesão, privilegia a literatura.
Posto isso, concordo com Tolkien quando ele fala da enorme perda que é uma adaptação (no caso, teatral) de uma obra literária, assim como concordo com Alan Moore quando este diz que toda adaptação cinematográfica será muito inferior à obra literária original, enquanto tentar ser uma adaptação. Gosto de cinema, mas quando o cinema tenta se comparar com a literatura, ou tomar emprestada sua magia, ele perde.
E todas as pessoas tem mesmo o direito à opinião. Estava apenas expressando a minha (mal humorada). :)
Por fim... concordo em gênero, número e grau sobre suas colocações a respeito do sexo. Algum dia me liberto dessa mania terrível de usar "foda" para designar algo ruim. É mesmo um completo contrassenso, e é inadmissível.
Abraços do Verde.
Aqui em Minas se usa o "foda" para as duas conotações, tudo depende do contexto...
Mi [de Camila] Cortielha · Belo Horizonte, MG 9/6/2007 14:46
Eu acho que foda no sentido pejorativo é curra!
Não usaria no meu texto, em qualquer contexto.
Dói na alma, Mi.
Se bem que aqui também se usa para tudo que é sentido, inclusive nas coxas e meia-foda.
Eu prefiro outras expressões e nem faço bandeira disso.
Só prefiro, se me entendes, coisa de guria, sei lá.
***
Bem, Daniel, eu não quis dizer pra ti não ter opinião, nem deixar de ter a opinião que tem.
Também concordo que têm umas adaptações, principalmente de clássicos da literatura pra cinema que são verdadeiras bostas.
Mas, perceba, não li O Padrinho, do Puzzo, e adorei O Poderoso chefão, inclusive as continuações, sempre revejo, quase tanto quanto minha vovó lê a Bíblia.
É que tem o lado do visual, de enxergar o artista fazendo aquele trejeito seu característico, que também apaixona.
Eu, Robô, prefiro o Asimov em livro. O filinho é bunitin, meus priminhos gostaram dos bonecos nos caminhões.
Acho que é do momento em que se vê ou lê.
Sem ter os dois não daria pra estarmos conversando sobre isso, não concordas?
Aí passa a ter mais valor pra ti?
Acho que esse valor é importante.
De poder-se comparar e optar pelo que nos seja a todos acessível.
E poder criar em ambas as áreas.
Agora, quanto ao texto aí de cima: montar personagem de ser do cão.
Também vai depender de diretor ser competente e ator ter qualidade, penso.
Cenário é, às vezes, muito mais fácil de dar banho em livro.
Té.
Vou ler teu sexto capítulo do meu querido Dragão.
Pelo que foi passado, parece que o autor se resumiu a transcrever seus medos no papel na composição do livro de tal forma que a leitura se limita à contemplação da profunda ternura do personagem por si mesmo e do exercício do autor tentando se aprimorar.O filme deve trazer à luz o vazio que o livro é, talvez esse seja seu mérito.
bruno balbino · São Paulo, SP 4/7/2007 18:06
gente, como assim, o filme teve o nome porcamente mudado pra "cão sem dono" e esse cara quer nos convencer q ele é mais "profundo" q o livro? eu ein... discordo demais.
Rodrigo Ortega · Belo Horizonte, MG 12/8/2007 21:20Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!