Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu¹?

1
Cury · Salvador, BA
9/8/2007 · 117 · 8
 

Em meados dos anos 80, eu devia ter uns seis anos, o atual ministro Gilberto Gil tinha a vontade de sair candidato para a prefeitura de Salvador e convidou minha mãe, que na época trabalhava com jornalismo, para ser sua assessora de imprensa. Lembro de um almoço-reunião entre minha mãe e Gil no Hotel da Bahia, em que fiquei na piscina e às vezes voltava à mesa só para comer batata-frita. Nesses momentos, eu ficava olhando para Gil, vendo ele falar, falar, falar. Gostava de ver ele falar.
Ele não conseguiu ser candidato a prefeito. Foi para vereador. E, para a ocasião, fez uma música que era assim: “Pra prefeito não, pra prefeito não. E pra vereador, pode Waldir? Pode Waldir? Pode Waldir?”
O Waldir aí é o Pires, atual ex- Ministro da Defesa, que, segundo Gil, foi o responsável pela sua impossibilidade de decolar à prefeitura.

Em 2006, fui com Cris passar o carnaval em Recife. Fomos na sexta. Mesmo estando em Salvador no primeiro dia de carnaval, eu não vi Bono Vox na avenida. Vi pelo “BA TV”, com Genildo Lavinsky anunciado em todo intervalo que “no próximo bloco, o líder da maior banda de rock do mundo, Bono Vox, canta no axé do carnaval baiano”.
Há oito anos que não passo o carnaval integralmente em Salvador, mas, pela primeira vez, minha mãe não gostou, pois a minha então banda, chamada ZecaCuryDamm, tinha acabado de gravar um disco e estávamos no período de divulgação.
– Você tá lançando seu disco agora, justamente no ano que vou passar o carnaval no camarote de Gil, lá vai ter um monte de músico pra você conversar, distribuir o CD e blá, blá, blá... – reclamava ela.
Discordei, dizendo acreditar que, por esse lado, em Recife encontraria músicos e artistas mais interessantes do que lá.
Nosso vôo para Recife era o de 21:20. O aeroporto estava vazio e, enquanto fazíamos o check-in, vi se aproximando da gente um cara de calça branca, camisa branca, casaco branco, cabelo branco...
– É Caetano? – perguntou Cris.
– Porra, é.
Não pensei duas vezes, tirei um CD e fui falar com ele:
– E aí, Caetano, beleza?
– Oi – sorridente.
– Esse aqui é um CD de uma banda minha, estamos lançando agora e blá, blá, blá...
– Ah, que lindo! – disse Caê.
Ele prometeu que iria ouvir e se dirigiu ao guichê do nosso lado.
Eu e Cris tivemos um breve problema com nossos bilhetes e Caetano fez o check-in antes da gente. Fiquei questionando: “Caetano saindo de Salvador no carnaval? Que estranho!”.
Quando ele foi embora, eu perguntei para a atendente:
– Ele vai pra onde?
– Recife.
– No mesmo vôo que a gente?
– Sim.
Cris me olhou com cara de “não faça isso”.
– Tem lugar do lado dele?
A mulher verificou e disse que só tinha um.
– Pô, Cris, por favor...
– E seu medo de avião? Vai segurar na mão de Caetano, é?
– Ah, com Caetano o avião não cai, não.
Ela reclamou, mas concordou, não sem antes fazer a ressalva “vê se não vai encher o saco, hein!”.
No aeroporto, ficamos assistindo às pessoas que iam até ele tirar fotos e pedir autógrafo. A todo momento ia alguém falar com ele. A livraria do aeroporto ficou concentrada de gente. Ele saiu com a Veja da semana, dizendo para dois amigos que o acompanhavam que “a Veja é divertida, passa a viagem toda”.
A cadeira de Cris era na segunda fila, no meio, e a minha na primeira fila, também no meio, bem na frente dela. Entramos no avião antes de Caê e já tinha um cara na cadeira do corredor.
“Caetano vai na janela” – pensei.
Sentei e Caetano chegou. O cara do lado arregalou os olhos, deu passagem para ele passar, Caetano agradeceu e sentou, já colocando o cinto e abrindo a Veja no modo “não me perturbe”. Eu estava com a última edição da Bravo e fiz o gesto “me perturbe também não”, abrindo o meu exemplar.
Todo mundo se sentou, os procedimentos de vôo foram feitos, o avião começou a taxiar, Caetano não parava de ler e eu não conseguia sair da primeira linha do que lia, só pensando numa maneira de puxar conversa com Caê. De vez em quando, eu olhava para trás e via Cris se divertindo com minha travada.
Fiquei pensando em todos os tópicos que poderiam puxar assunto, mas não conseguia. Travava. Não queria nada que chegasse perto de uma idolatria, queria apenas trocar idéias, discutir assuntos.
O avião pegou impulso e Caetano se benzeu no modo “pelo sinal da santa cruz...”. Eu fui no modo convencional.
“Já sei, vou falar de religião... não, nada a ver... de medo de avião?... também não, tá maluco?”
Então veio uma grata lembrança de uma entrevista coletiva, no ano de 2002, se não me engano, em que, perguntado sobre o que andava ouvindo, Caetano respondeu “Rebeca Matta e brincando de deus”.
“Brincando de deus” é o nome de uma outra banda minha.
– Caetano?
– Sim.
– Uma vez li no jornal A Tarde que você estava ouvindo brincando de deus...
Ele ficou balançando a cabeça.
– ...eu toco na banda.
– Você toca no brincando de deus?
– Toco.
– É, uma vez eu fui numa loja, Na Mosca, e comprei algumas coisas de bandas de rock de Salvador.
– Eu soube, sou amigo do dono da loja, ele me disse... Você também levou Dead Billies, né?
– Isso, Cascadura também.
A conversa não poderia ter começado melhor. A aeromoça ofereceu bebidas. Pedi água e ele uma Coca com uma pedra de gelo.
– Eu gosto muito do Cascadura, muito mesmo. Acho aquele cara muito bom.
– Fábio – disse eu.
– É. Acho muito, muito... – ele fez cara de rock e movimento de como se tivesse com uma guitarra – rock, entende?
“PQP, que doideira” – pensava eu.
– Ele é meu amigo – disse.
– Acho eles muito bons. Essa coisa... ééé... Stones que eles têm, mas cantando em português e blá, blá, blá... – disse Caê sem poupar elogios ao Cascadura. – Agora o brincando de deus eu achei outra coisa, é mais na linha britânica, né? Mais assim... éééé... – ele ficou tentando achar alguma banda e eu disse:
– Smiths.
– Isso, The Smiffss – disse ele com pronúncia perfeita. E começamos a falar dos Smiffss.
Aliás, Caetano falava, eu não conseguia falar nada, Caetano não deixa. Ele fazia uma pausa e nessa hora eu ia argumentar, mas ele voltava e largava o verbo. Falava num tom de voz calmo, porém num volume que todos no avião podiam ouvir e estavam ouvindo. Todos calados prestando atenção no que Caê dizia, o que me assustou um pouco diante de tamanha responsabilidade.
O sanduíche chegou, Caetano abriu a embalagem, olhou para o sanduíche, olhou para mim, eu fiz cara de nojo pela mortadela Varig e ele fechou a embalagem, dizendo que “melhor não” e continuou:
– Eu vi o show de Morrissey no Rio. Gostava mesmo daquela coisa da voz dele, aquela linha melódica. Tinha aquele guitarrista, ééé...
– Johnny Marr – disse eu.
– Isso. O Marr, que era sensacional... Nunca mais soube dele, gostava muito.
– Ele tem um trabalho chamado Electronic, junto com o cara do New Order, Bernard Sumner – respondi.
– Ah, é? Com o cara do New Order?
– É... ele também tocou um tempo no Pretenders.
– Com a Chrissie Hynde?! – perguntou surpreso.
– É.
– Não sabia. Ela é amiga do meu filho, Moreno. Tocaram juntos e tal... não sabia que o Marr tinha tocado no Pretenders.
A conversa estava além do real, mas ainda ficaria muito mais. O cara do lado estava visivelmente sem entender o que estava se passando.
Ele perguntou qual o baterista de que mais gostava, respondi que era Ringo e que atualmente gostava muito de Glenn Kotche, baterista do Wilco, e também do cara que estava tocando no R.E.M.
– Porra, eu gosto muito do R.E.M. – disse Caetano.
PUTAQUEPARIU.

Falei da versão de “Jokerman” ² que ele fez, que a entrada da bateria nela estava muito boa e então conversamos sobre os discos “Circuladô” e “Circuladô Vivo”, sobre a Folha de São Paulo, sobre críticos e sobre músicos e músicas.
“Nos Estados Unidos, nenhum crítico diz que ‘o idiota do Stevie Wonder lançou mais um disco ruim’, lá existe respeito.”
“Lulu Santos é o cara mais rock do Brasil. É ele e a guitarra. Mais nada.”
“A axé–music é mal falada aqui como Elvis foi no início de sua carreira. Era tratado como música brega, lixo cultural. Você pensa que o rock era alta cultura? Nããããããããão – fazia ele balançando o dedo de forma veemente –, só depois, com os Beatles, é que as coisas foram mudando.”
E falamos de Beatles, Sex Pistols, Raul Seixas:
– Conheci Raul menino, caretão, tomava nada. Eu também não gosto de drogas, não uso nada. Mas Raul, enfim, entrou naquela... Gosto muito do Raul, do Marcelo Nova. Assisti ao show deles lá, com o Raul com uma aparência péssima...
Em todo o momento da conversa, Caetano foi folheando a Veja e fazendo breves comentários sobre as fotos e os títulos das manchetes.
– Ó paí, ó! – disse ele para uma foto do presidente Lula.
Folheou mais e ficou numa matéria sobre a guerra entre xiitas e sunitas no Iraque. Perguntei se ele assistiu Munique, ele disse que ainda não e comentou “eu não gosto de religião, não gosto mesmo”. Lembrei de um show dos Titãs, na Concha Acústica, há muito tempo, em que ele cantou a música “Igreja” com eles:
“Não gosto de padre, não gosto de madre...” ³
Comentei com ele sobre a música “Vaca Profana”, em que ele cita Tel Aviv, e ele disse:
– Rapaz, tem tempo que não canto essa música. Gosto muito dela – e cantou um trechinho.
O cara do lado ficava cada vez mais abismado.
Às vezes, o silêncio imperava e eu sentia como se o avião todo estivesse esperando a minha próxima pergunta. Pressão da porra.
Eu tinha lido recentemente o livro “Chega de Saudade”, de Ruy Castro, e lembrei de uma entrevista que Caetano deu, na época do lançamento do livro, acho que em 94, dizendo discordar de alguns pontos do livro. Questionei-o sobre isso:
– Eu gosto muito daquele livro. Mas acho que ele errou em diversas coisas em relação a João Gilberto. Acho que ele não deu o devido tratamento, não colocou ele no lugar certo, inclusive foi o próprio João que me pediu pra que eu falasse disso na imprensa e blá, blá, blá... – e depois fez o comentário que não me deixou dormir:
– João Gilberto é como o Pixies. Conhece o Pixies? – perguntou Caê.
Balancei a cabeça afirmativamente.
– Então, é música pura, estado bruto... Sabe aquele disco do Pixies que eles fizeram só com sessões da BBC de Londres?
Eu só conseguia fazer “sim” com a cabeça.
– Então, João Gilberto é como aquilo.
O piloto anunciou para a tripulação que “preparar para o pouso”, enquanto as últimas frases de Caetano e todo o acontecimento desde a chegada ao aeroporto de Salvador desenrolavam em minha mente. Surreal era a única palavra que eu conseguia pensar no momento.
Uma aeromoça falou alguma coisa com ele e, quando foi embora, ele comentou de forma um tanto marota:
– Gracinha ela, hein? Muito bonitinha.
Com o avião já taxiando na pista do aeroporto de Recife, perguntei:
– Vai tocar aqui? ¬– ele embarcou com um violão.
– Não. Todo ano eu prometo passar o carnaval aqui, mas nunca venho. Não consigo sair do de Salvador. Mas esse ano eu vim. E você?
– Minha primeira vez aqui em Recife também.
O avião parou e nos levantamos para pegar nossas coisas.
– Cris, Caetano – apresentei os dois e, na saída do avião, eu disse:
– Não esqueça de ouvir o CD – disse eu, enchendo o saco.
– Pode deixar. Tem contato no encarte? – perguntou.
– Tem tudo no encarte. Ficha técnica completa.
– Massa. Até mais então – nos despedimos com um aperto de mão.
Ele foi na frente sozinho, enquanto eu esperei Cris pegar as coisas. Fomos andando uns vinte metros atrás de Caetano, que errou o caminho, passando direto pela entrada que dava para a sala de desembarque:
– Ô, Caetano – gritei.
Ele virou e olhou:
– É por aqui – disse eu.


__________________________
(1) Atrás do trio elétrico, de Caetano Veloso. Gravação: Caetano Veloso, disco “Caetano Veloso”, Philips, 1969.
(2) Jokerman, de Bob Dylan. Gravação: Caetano Veloso, disco “Circuladô Vivo”, Polygram, 1992.
(3) Igreja, de Nando Reis. Gravação: Titãs, disco “Cabeça Dinossauro”, WEA, 1986.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
andre stangl
 

q viagem! abçs

andre stangl · Salvador, BA 6/8/2007 09:07
sua opinião: subir
DaniCast
 

Sensacional. Um dos melhores textos que já li no Overmundo, se não é o melhor.

DaniCast · São Paulo, SP 6/8/2007 10:07
sua opinião: subir
Bernardo Carvalho
 

cara, que texto mais engraçado! uma vez eu estava no bar filial, na vila madalena, em sp, e entra o caetano la pelas tantas... é curioso, pq no rio eu nunca imaginaria assistir a uma cena dessas: uma moça simplesmente põe sua cadeira ao lado da do caetano e começa a puxar assunto, impressionante! santa paciência batman!

Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 6/8/2007 11:14
sua opinião: subir
Rafael  O.
 

Excelente seu texto, Cury. Divertido e instrutivo (assim que finalizar esse post vou atrás do som das bandas baianas que você citou, incluindo a sua).
Abraços.

Rafael O. · São Paulo, SP 6/8/2007 16:15
sua opinião: subir
Alexandre Marino
 

Muito bom o texto. Uma frase puxando a outra... Você se esqueceu de dizer que estava suando em bicas.

Alexandre Marino · Brasília, DF 6/8/2007 16:58
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Tetê Oliveira
 

Cury, viajei junto com vcs através do seu texto. E já imagino a Cris tapando a boca com a mão pra conter o riso... Muito legal!
E, afinal, vc conseguiu alguma pista de ele ter ouvido o seu CD?
Abraço.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 6/8/2007 21:34
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Roberta Tum
 

ADorei!!!
Em meu tempinho de Caderno 2 em Goiânia conheci e entrevistei muita gente do rock nacional, e na maior parte das
vezes mandava bem. Mas confesso que quando a gente é fã, parece que embaralha tudo.
Muito legal!

Roberta Tum · Palmas, TO 10/8/2007 15:55
sua opinião: subir
Mangabeira
 

Concordo com Caê que se rasga de elogios ao Cascadura: já tive a oportunidade de escutar e achei duca, brou.
Confraria das Ovelhas Negras - mangabeira@ovisnigra.org

Mangabeira · Natal, RN 13/1/2008 00:00
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados