Atravessando o Córtex com o Cravo Carbono

Foto de Renato Reis - Divulgação - Todos os Direitos Reversados
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Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ
11/8/2007 · 189 · 9
 

O disco Córtex, do Cravo Carbono, começa no tranco. A música de abertura não tem aquela introdução instrumental típica. Antes da banda começar a tocar, o cantor anuncia, como se estivesse com megafone: "me espanto com quem não se espanta." E emenda: "eu não gosto de gente que não gosta de gente." Como então não gostar do que vem depois? O problema - que no final se revela uma vantagem - é que o disco não é tão fácil de cantarolar junto, nem tem melodias perfeitamente assobiáveis. É complicado, na primeira audição, entender o que está rolando, qual é a marra do som, até porque estilos musicais e poéticos colidem uns com os outros o tempo todo, faixa a faixa. Só depois de ouvir todas as músicas, lá pela terceira vez, é que as coisas começam a fazer sentido.

Para mim foi um pouco mais tranqüilo: conheço a banda e seus componentes há muito tempo. Sei do que estão atrás, que imagem do mundo (a partir de Belém do Pará) lhes interessa. Lembro do show no Pimenta Café, com som transbordando ali para a Praça do Arsenal. Foi uma das noites com som mais psicodélico da minha vida. Parecia kraut-rock de raiz (ou melhor: kraut-rock de raizeiro), energizado por clorofila amazônica, com improvisações indutoras-de-transe que duravam dezenas de minutos (e para mim poderiam durar muito mais...)

Lembro antes, por volta de 1997, do primeiro encontro, no canteiro de obras que estava convertendo os antigos armazéns do porto de Belém no atual "Boulevard da Gastronomia". Foi lá que o projeto Música do Brasil filmou as apresentações de Mestre Vieira, Mangabezo - e o Cravo Carbono tocou Mundo-Açu, canção de letra curta que merece ser citada: "Amazonas / Seguras ao pêlo / Rios / Negros /Fios /De Cabelos / Nheengatu / Nem eu /Nem tu / Mundo-açu / Borboletas / Azuis / No cinza /Céu / De aço". Fui perguntar para o Lázaro Magalhães, cantor-compositor-da-maioria-das-letras, quais eram suas influências poéticas e ele me falou de Renato Russo e o do rock brasileiro dos anos 80. Fiquei ainda mais intrigado, pois as vertentes algo concretistas (mas não totalmente...) que ouvia nas músicas do Cravo Carbono, se tinham a ver com algum lado de Arnaldo Antunes nos Titãs, pareciam vir de um mundo bem distante do ambiente mais coloquial e até romântico de Cazuza, Renato e o resto da turma.

Permanecemos meio que em contato este tempo todo, já bem uma década. Pio Lobato, um dos guitarristas, desenvolveu em paralelo seu trabalho pop-etno-musicológico que deu nos Mestres da Guitarrada (Vovô, brilhante e versátil baterista do Cravo Carbono [escute o seu trabalho com bateria, surdo e tarol em A Marcha], é também baterista dos Mestres da Guitarrada) e nas tecnoguitarradas. O Cravo Carbono, sempre pioneiro na utilização da internet para a divulgação do seu som, facilitava a audição das novidades, que não mais exigia a longa viagem até o Pará. Tanto que seus componentes participam do Overmundo desde que o site entrou no ar, já tendo colocado por aqui todas as músicas do seu segundo disco, o Córtex, bem antes de seu lançamento. Há também o blog, a página na Trama Virtual, no MySpace, os vídeos no YouTube. É rápido ter acesso até aos bastidores de sua produção.

Mas como ia dizendo: é uma banda de personalidade forte, única: o sentido do som não é dado de mão beijada, na primeira audição. Também pudera: as referências não são muito comuns. Até o nome da banda é criação de ficção científica: seria "uma suposta nova droga do sertão que apareceria na floresta - uma especiaria, um emplasto, uma goma de mascar biopirateada." Notou os verbos no condicional? Seria, apareceria... Nada é o que parece ser. E fica bem melhor assim, escapando de todo esquema classificatório rígido.

Como definir Córtex. É rock? É, também... É mais rock deslocadamente (no bom sentido desconstrucionista) alemão (ou tcheco? ou japonês?), feito numa região do planeta (o delta do rio Amazonas) que o saudoso Terence McKenna, num filme do luso-galátiko Edgar Pêra, já indicou ser a localização exata para a vagina de Gaia. Então o rock é também samba e muito mais...

Arraial é meio zouk, ritmo contrabandeado da Guiana Francesa para as festas das aparelhagens paraenses. Vale Quanto Pesa lembra um afoxé. Canção À Prova D'Água começa meio bossa e vai ficando pesada, enquanto Lázaro canta que "agora me importa o vazio" e repete quatro vezes seguidas que "o meu deus [com letra minúscula mesmo] é o amor" (está aqui a influência de Renato Russo?). Aplausos de Auditório é um samba de roda? Em Espaço Para Passear, o mundo-açu (açu, em nheengatu, significa grande) reaparece cercado por efeitos de dub secreto. Café BR é tecnoguitarrada com vocal. Alto do Bode é uma guitarrada/reggae tocada e composta por Bruno Rabelo, o outro excelente guitarrista/baixista, além do Pio Lobato (como se não bastasse apenas um excelente guitarrista/baixista na mesma banda...: escute o solo/acompanhamento do Bruno em Supernada para comprovar meu elogio).

Supernada resume um pouco a filosofia estética de Córtex. A canção é interrompida algumas vezes para o vocalista declarar: "às vezes um parêntesis enorme é necessário" (e como entendo bem essa necessidade! eu que sempre escrevo com muitos longos parêntesis, conscientemente contra as regras do bom estilo...) E a letra continua: "inventando uma dança danada / para a manifestação do nada / para a amplificação do nada". Pensando bem: o que, neste nosso mundo-açu, não é amplificação do nada? O som do Cravo Carbono tem obsessão pelo nada, pelo vazio (é uma dança tribal em torno do vazio), não para exorcizá-lo mas para quem sabe fazer o nada trabalhar a nosso favor... Certamente: há diferentes amplificações do nada. Algumas não valem nada, mas o nada parece simpatizar com o Cravo Carbono e através de sua música conseguimos ouvi-lo (o nada, é claro...) em vigorosa roupagem.

Xiiii.... O texto foi ficando bem maluco. Será viagem da goma de mascar biopirateada? Tô com medo de afastar os novos ouvintes - e a intenção era só atrair gente curiosa... Tá na hora de terminar. Mas antes colocarei mais cravinho no caldeirão do vazio. Escutando Córtex, meio por nada, fiquei com uma saudade danada dos Talking Heads. Uma coisa me lembrou a outra. Coloquei o CD do 77 para tocar. É também um disco bizarro, felizmente. No encarte, há o seguinte texto: "As canções, escritas primariamente por Byrne, são vinhetas poéticas, pequenos pedaços de vida às vezes revelando obliquamente insights surpreendentes. Havia um otimismo nessas primeiras canções dos Talking Heads, uma celebração da simplicidade, uma maneira especial de olhar para o ordinário." Otimismo?! 77 é o disco que tem Psycho Killer... Mas por alguma razão, de otimismo realmente estranho, posso usar a descrição dos Talking Heads para aplaudir o que há de bacana no Cravo Carbono. Escute Marx Maré (dois), a quase-micro-faixa que encerra o Córtex. Tem apenas um fantasma-dub de letra, mas faz todas as outras canções ganharem sentido e otimismo, com radical pós-simplicidade oblíqua... E então você pode escutar o disco todo novamente. E assim infinitamente...

Leitura complementar: Música para Confundir, o texto que Vladimir Cunha escreveu sobre o Cravo Carbono aqui no Overmundo.

Para comprar o Córtex, ver o site da gravadora/loja Ná Figueredo.

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Bernardo Carvalho
 

durutti column + guitarradas. fripp + ximbinha. cravo carbono é espertíssimo e surpreendente!

Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2007 18:33
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Esso A.
 

puts ... ah se minha 'netinha' não fosse discada ...
tava ouvindo essa gente toda
para curtir esses tantos sons do Brasil.

www.sitiodoesso.com

Esso A. · Natal, RN 10/8/2007 00:42
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Capoeira Cambará
 

Acho muito legal a luta da galera do Cravo, essa disposição de pagar o preço altíssimo pela ousadia da busca de novos caminhos para sua música, meio como faz aqui o Sr. Hermano Viana com a literatura.

Capoeira Cambará · Ananindeua, PA 11/8/2007 08:26
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Capoeira Cambará
 

No comentário suppra, onde se lê "Viana" leia-se "Vianna", com dois enes.

Capoeira Cambará · Ananindeua, PA 11/8/2007 08:28
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Fábio Cavalcante
 

Pai d'égua o texto! O Córtex é um disco que eu também escuto com muito prazer!

Fábio Cavalcante · Santarém, PA 11/8/2007 15:08
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Benny Franklin
 

Parabéns, Hermano!

Parabéns por divulgar o Cravo Carbono.

Realmente o CD está excelente. É a cara do novo Pop Paraense. E parabéns aos meninos. Que eles sigam em busca de novos públicos.

O Paraense já os têm na mobília da sala.

Abraços,

Benny Franklin

Benny Franklin · Belém, PA 11/8/2007 21:47
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Mansur
 

Instigante! Essa goma de mascar biopirateada dá resultados imprevisíveis...do nada ao nada...vida longa ao Cravo Carbono...

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 13/8/2007 10:45
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Felipe Obrer
 

Li este texto logo que foi postado, mas não tinha comentado ainda.
O que fiz, e cada vez gosto mais, foi ouvir o Cravo Carbono.
Baixei todas as músicas e acabei descobrindo que pop pode ser muito bom. (assumo meu preconceito, amante que sou da música instrumental brasileira)

Só deixo anotado aqui que foi através do teu artigo, Hermano, que conheci o som dos caras, e acabei até recebendo de presente de um conhecido baiano-paraense (nascido na Bahia, criado em Belém) um cd do Pio Lobato também... é um som novo pra mim...

Abraço!

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 8/4/2008 20:14
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Hermano Vianna
 

Felipe: que bom! isso é uma das melhores coisas que o Overmundo pode fazer: colocar em contato mundos que até então estavam isolados - outro dia fiquei muito alegre pois recebi email do Sérgio Krakowski, que toca pandeiro no excelente Tira Poeira, dizendo que tinha feito parceria com o Sany Pitbull motivado por um texto que escrevi aqui - pois a parceria acaba de ser lançada, no disco novo do Tira Poeira: é a união do choro/música instrumental brasileira com o funk carioca, coisa bem impensável até pouco tempo - e tudo sob a benção de Tom Jobim (a música é O Morro Não Tem Vez), nos 50 anos da Bossa Nova! O Rio e o Brasil só têm a ganhar com esse tipo de união!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 9/4/2008 01:40
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