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Avenida Dropsie é aqui

Sutil Companhia de Teatro
Morto na rua: Comum, mas não é normal
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Roberto D. Jr. · Curitiba, PR
9/11/2006 · 227 · 10
 

Toda grande cidade tem a sua Avenida Dropsie. Ela está presente na arquitetura ou nas pessoas, deslocadas socialmente, que habitam as suas ruas. A cada metro percorrido reconhecemos uma nova faceta melancólica em nossa cidade.

Dropsie é aqui. Dropsie é ali. É todo lugar que tem gente vivendo para sobreviver o próximo dia, assim como a barata, mas o personagem humano filosofa: “A diferença entre eu (pessoa) e você (barata) que é eu preciso saber por quê?!”. Assim como todos nós, angustiados com a vida, precisamos saber por quê? O pior, a cada resposta, uma, duas, três e muitas outras novas perguntas surgem.

Conheci Avenida Dropsie no teatro. Já tinha ouvido falar da obra, quadrinhos que narram as lembranças de Will Eisner. No teatro também já tinha ouvido falar da adaptação dirigida por Felipe Hirsch. Com olhos atentos em todas as nuances, assisti a peça em Curitiba quando o Circuito Cultural Banco do Brasil passou por aqui, primeira quinzena de novembro de 2006. Ler, desfrutar, ver ou assistir Avenida Dropsie é aprender sobre o nosso presente.

A melancolia, a tristeza e os loses do quadrinho estão em carne e osso no palco. Eisner permanece vivo e bem representado na peça. As fragmentadas histórias são como os personagens: profundos, mas incompletos na sua existência. Sempre falta algo, alguma coisa para preencher as suas existências.

Por lembrar os personagens, apenas oito atores (Erica Migon, Guilherme Weber, Leonardo Medeiros, Magali Biff, Maureen Miranda, Mauro Zanatta, Paulo Alves e Duda Mamberti) interpretam dezenas, talvez centenas de personagens.

Tudo na peça de Hirsch tem o sentido de ser. Seja a perfeita interpretação dos atores, seja o prédio com quatro pavimentos ou na pontual trilha sonora. Hirsch, com a cenografia de Daniela Thomas, faz chover no palco. É isto mesmo, por mais de 10 minutos chove. A marca registrada da Sutil Companhia de Teatro, uma fina tela branca antes do palco, o qual projeta informações, pensamentos e afins, também se faz presente.

As histórias também é destaque na Avenida Dropsie. Existem os três mosqueteiros bêbados. Logo chega mais um. Porém este é incompleto por não possuir alguém, um amor ou algo parecido. A aventura desses mosqueteiros é beber, fumar, ver o tempo passar ou ser saudosista. Quando a ação acontece: um assalto bem na frente deles. A “reação” vem como a de qualquer cidadão de uma grande cidade: A inércia.

E quando Eisner, na voz mais do que apropriada de Gianfrancesco Guarnieri, explica o Homem da Cidade. É uma aula de sociologia que presenciamos todos os dias na grande cidade. “O Homem da Cidade só anda no claro”, e lá aparece um personagem andando com uma lâmpada embutida. “O Homem da Cidade só anda em grupo”, e o personagem com a lâmpada volta com outras pessoas grudadas nele.

E quando o Homem da Cidade é assaltado? Na confusão os papéis são invertidos e o Homem da Cidade passa a ser o assaltante. E aquele personagem que começa olhar para cima. Não tem nada lá, você sabe, mas dá uma olhadinha mesmo assim, só pra conferir. Então, quando todos olham para cima, ao lado um personagem começa a passar mal. Os outros pedem para ele calar a boca. O homem morre, ali, ao lado de todo, e a única preocupação deles é continuar olhando para cima.

Depois que todos se vão, aparece um tranqüilo policial. Ao perceber o homem morto no chão, coloca um jornal na face do defunto para o Homem da Cidade não ver a morte, para o Homem da Cidade não ver a realidade.

Tudo escuro. A explicação da cena é projetada. Agora os personagens estão andando de metrô. Seus pensamentos também são projetados. Um homem olha uma mulher. Uma mulher olha para o homem. Cada um começa a sonhar com o futuro de ambos. No final, cada um por si...

Um trovão. Agora a chuva é inevitável. E não é que começa a chover no palco. A simplicidade da chuva se transforma em uma verdadeira poesia teatral. Alguns personagens correm para não se molharem, outros andam. Existe aquela que aproveita a chuva. Pessoas com máscaras contra gás se entrecruzam... Então, com a alma lavada, os personagens continuam a sua rotina de sobrevivência. Os estrangeiros, assim como em toda grande cidade, estão presentes. São espanhóis, ingleses, italianos, judeus e alemão.

Avenida Dropsie é uma experiência única, mesmo que esta experiência acontece todos os dias, bem ao nosso lado. É mais fácil percebemos a nossa realidade nas artes do que presenciarmos ao nosso lado. Também, como veremos a realidade se estamos mais preocupados em sobreviver?

Para quem quiser mais informações sobre esta adaptação é só visitar o site da Sutil Companhia.

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Helena Aragão
 

Que bacana! Perdi quando a peça passou aqui no Rio, tava sempre lotada! Tomara que eles voltem... Gostei de ler seu relato, crítica de teatro é coisa muito bem-vinda (e ainda rara) aqui no Overmundo.

Uma dica de edição: colocar as tags compostas com hífen: daniela-thomas etc. Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 7/11/2006 17:49
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Roberto D. Jr.
 

Obrigado Helena

Roberto D. Jr. · Curitiba, PR 7/11/2006 17:55
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André Dib
 

Sobre teatro baseado em quadrinhos, então, é mais raro ainda... Tem um grupo de Fortaleza, os Lesados, que usam muito bem essa linguagem.

André Dib · Recife, PE 9/11/2006 16:27
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dMart
 

sou fá de Will Eisnder. assisti a uma matéria no Metrópolis (TV Cultura) e fiquei curioso de ver a peça.

não sei se Avenida Dropsie virá à PoA. bueno... ficamos na torcida.

dMart · Porto Alegre, RS 9/11/2006 18:15
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Lu*Si*Ha*Na
 

eu assisti Av. Dropsie em sampa, era Março de 2005. Sem exageros, foi a melhor peça que eu já vi. Dos balões com as falas, dos movimentos fracionados, da chuva de 15 minutos inesquecível, do metrô dentro do palco até a trilha sonora!!! Confiram!!!

Lu*Si*Ha*Na · Maceió, AL 11/11/2006 08:43
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Hermano Vianna
 

reafirmo com tom bem enfático o que a Helena disse acima: que bom encontrar textos sobre teatro aqui no Overmundo!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 11/11/2006 12:06
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Caio Barretto
 

Concordo que pouco nos questionamos sobre o que está ao nosso redor - e também dentro de nós -, e o teatro realmente é (ou pode ser) um ponto de partida para outras percepções.

Caio Barretto · Rio de Janeiro, RJ 12/11/2006 14:44
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Inês Nin
 

eu vi aqui no rio, desde o riocenacontemporânea de 2005 que estava louca pra ver. o que eu achei mais impressionante foi que, sem uma história definida (mas várias, fragmentos) e com tantos personagens, eles conseguem prender de uma forma incrível a atenção da platéia. eu realmente não vi o tempo passar. é muito bem feita, achei sensacional.

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 12/11/2006 17:58
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Paulo José
 

Realmente, muito bom encontrar "teatro" por aqui. Sobre essa falta de percepção do nosso redor, é aquela coisa do Oscar Wilde: "Respeito muito a realidade, mas não deixo que ela interfira em minha vida".

Paulo José · Alto Paraíso de Goiás, GO 13/11/2006 10:29
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Fernando Mafra
 

Sobre teatro baseado em Quadrinhos: Na ultima virada cultural em SP havia uma peça baseada nos "Caçadores de Sonhos" do Sandman (ok, não é quadrinho, mas é quase) que eu ia ver e acabou cancelada. Alguém sabe se ela irá surgir novamente? Não lembro sequer o nome da companhia.

Fernando Mafra · São Paulo, SP 15/1/2007 18:19
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