Fazia um calor danado naquela manhã em que peguei a estrada rumo a Porto Calvo, no norte de Alagoas. Tinha em mente buscar informações pro Guia Overmundo, já que a cidade figura entre os municípios de maior importância histórica do estado, devido ao período conhecido como Invasões Holandesas.
Ainda na estrada, já bem perto, vi uma placa de bar dizendo: “Calabar”. Foi o primeiro vestígio do principal personagem de Porto Calvo, chamado de traidor pelos livros de história da minha infância.
Cheguei à cidade por volta de 11 horas da manhã, segui direto pela rua principal, que normalmente, nos interiores desse Brasil nacional, vai dar na praça do centro, com sua igreja matriz e as edificações mais antigas. O marco zero.
A cidade estava agitada, viva e se mexendo bastante, pra lá e pra cá, muito comércio e gente andando naquele meio dia ensolarado.
Fiquei bem decepcionado, na verdade. O casario antigo está todo descaracterizado (igual ao centro de Maceió), encontrei um mercado de 1926, a Igreja Matriz Nossa Senhora da Apreciação, de 1610, e um casarão colonial que me disseram ser a Casa de Cultura, e que lá eu poderia ter mais informações sobre o patrimônio.
No casarão antigo, descobri que a Casa de Cultura não funcionava mais ali, agora é um órgão do governo do estado. Lá, um simpático funcionário disse que, quem entendia de história mesmo era o dono da lotérica!!!
Claro! O dono da lotérica! Fui lá.
Cheguei à “Lotéricas Calabar” e fui muito bem recebido pelo Senhor Adelmo Monteiro, proprietário do lugar e membro da ONG Piac – Projeto Integrado de Ação e Cidadania, que cuida justamente de lutar pela preservação dos patrimônios históricos de Porto Calvo.
Qual não foi minha surpresa? Ao encontrar ali no escritório da lotérica o cineasta Hermano Figueiredo e sua equipe, reunidos com Adelmo para visitar as locações do documentário “Calabar”!
E eu que achava que ia voltar de mão vazia, acompanhei-os nesse dia de pré-produção.
Saímos da cidade pela rodovia em direção ao norte, e entramos em uma estrada de terra, no meio de um canavial, que aos poucos foi ficando pra trás e deu lugar a um vale cortado pelo Rio Manguaba, rota de transporte de holandeses e portugueses três séculos atrás, rumo a Porto de Pedras.
Paramos no povoado de Caxangá, um antigo engenho, e descemos mata adentro, a pé, por uma trilha que levava a beira do rio. Ali, embaixo da sombra de uma palmeira, ouvi Adelmo e Hermano conversarem sobre histórias de túneis misteriosos em igrejas antigas, tesouros roubados e canhões de bronze perdidos, por aquelas redondezas cheias de preciosos pedaços do passado.
Sobre o Personagem do seu documentário, Hermano disse que “Calabar é um personagem sem rosto, um mestiço, que traz uma controvérsia histórica de 3 séculos. Quando eu era criança, nos ensinavam dois sinônimos para traidor, Judas nas aulas de religião, e Calabar nas aulas de história.”.
No entanto disse que não pretende tratar o personagem com ufanismo, mesmo assim, segundo ele, a história não poderia acusá-lo de trair uma coisa que não existia, ou seja, consciência nacional, naqueles tempos de colônia subordinada a Portugal, que por sua vez estava sob domínio da Espanha. Hermano falou na possibilidade de Calabar ter, na verdade, inaugurado essa consciência.
Concordo com ele, não havia consciência nacional, passar para o lado holandês da guerra foi somente negar o colonizador “oficial”, escolhendo o que lhe parecia melhor, não há traição nisso. Sobretudo sendo ele brasileiro nativo, mestiço, que teve boa educação e foi dono de engenhos.
Inclusive, nossa próxima parada era o Engenho Estaleiro, que foi de propriedade de Calabar e ainda funciona! Ali, Hermano mergulhou de cabeça no cenário interno daquele lugar antigo. Ele e sua equipe fotografaram o local e falamos mais sobre o filme e o personagem.
Próximo às margens do Rio Manguaba, em um ponto onde se especula que exista uma embarcação naufragada da época, Hermano falou que “todos os vestígios devem ser considerados nesse registro, mas não se pretende com isso chegar o mais próximo da realidade. Quando um documentário faz isso se afasta da realidade, os mitos e os fatos encontrados constroem um imaginário sobre o personagem e sua história. É uma visão da realidade”.
Conversando com Hermano, comentei sobre seu projeto com o Ponto de Cultura Ideário, “Acenda uma Vela”, onde fazem projeções de filmes em velas de jangadas nas comunidades do estado, nisso, ele me contou o seguinte causo:
“Uma vez fomos fazer projeções nos Povoados de Quaresma e Alecrim, município de Penedo, e lá eu projetei o filme em um boi branco, chamado Cravo Branco. Durante o dia tinha acertado com o dono do boi, que combinou de levar o bicho no horário marcado. Logo mais a noite, perto de começar, sua filha apareceu dizendo que o pai achava que eu não iria, e prendeu os bois. Como eu conheço a cultura do nordestino, disse a ela que fosse dizer a ele que a minha palavra era que eu vinha, e que a dele era trazer o boi, pouco depois ele trouxe o boi e um colega (do boi, outro boi) pra lhe fazer companhia e deixa-lo tranqüilo durante a exibição, correu tudo bem”.
Figura!
Na volta para Porto Calvo, ainda passamos por outra locação do filme, um casarão colonial incrível de uns 300 anos, na Fazenda São Gonçalo, uma verdadeira máquina do tempo, escondida ali no meio do canavial.
As filmagens de Calabar iniciam-se na primeira semana de setembro, com finalização prevista para novembro. As locações acontecerão em Porto Calvo, no bairro de Jaraguá em Maceió, e no município de Porto de Pedras (AL), na Ilha de Itamaracá e Instituto Brennand (PE), Forte Cabedelo (PB) e Fortaleza Reis Magos (RN).
Entre outros documentos, o autor tomará como base os escritos de Duarte Coelho da Costa, então donatário da Capitania de Pernambuco, “Memórias da Guerra do Brasil”, e “História da Guerra de Pernambuco” de Santiago Lopes.
O Documentário foi contemplado com os recursos do DocTV, projeto desenvolvido pela Secretária do Audiovisual, do Ministério da Cultura, em parceria com a rede pública de TVs, no caso de Alagoas, o Instituto Zumbi dos Palmares - IZP.
E assim foi minha aventura através da memória de Porto Calvo, e me pergunto se no meio de toda aquela guerra, brasileiros, portugueses e holandeses conseguiam parar durante um segundo de paz, para contemplar as belezas dessa terra tão bonita, que hoje se chama Alagoas.
Marcelo, não o sei o que acontece, mas o link do Hermano pra matéria que eu fiz não tá rolando. dá uma conferida aí...
Tati Magalhães · Maceió, AL 30/8/2006 14:06Tati, acho que já foi consertado... Confere lá. E viva Porto Calvo e sua lotérica!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 30/8/2006 14:17
Ah, esqueci de comentar: que sorte a tua, viu? O Hermano é uma figura mesmo! ótima companhia, cheio de causos, e um grande documentarista. E o que era para ser dica virou matéria...
às vezes tenho a impressão de que, quando se trata de conservação da sua história, Alagoas é uma negação quase que total. Criaram uma idolatria a Zumbi e parece que ele e o Djavan são os únicos que merecem ser reverenciadospor aqui. Tá, os políticos sempre lembram das mães, tios e parentes (membros da elite alagoana, claro) para dar nome às ruas, avenidas e escolas, mas isso pouco importa. A história é contada sempre por quem está por cima, e isso inclui a versão da figura de Calabar. Posso estar falando sem conhecimento de causa, mas tenho a impressão que entre os dois povos exploradores, ele escolheu aquele que lhe pareceu melhor, e isso - até pela própria constituição do Estado escravagista brasileiro, e por ele ser também dono de engenho - pode estar relacionado não a duas coisas: o "futuro" do país (uma visão mais romântica) ou benefício pessoal. Enfim, com os elementos que eu tenho, seria impossível arriscar qualquer coisa. Só tenho certeza de uma: se a colonização do Brasil não fosse feita pelos portugueses (que relegaram a educação nacional por séculos e trataram o país apenas como colônia de exploração) nossa história seria muito diferente...
muito legais a matéria e as imagens! mas é legal colocar uma imagem como a imagem principal da matéria, porque é ela que aparece já ampliada quando se abre a matéria (e se ela for pra home).
Felipe Vaz · Rio de Janeiro, RJ 30/8/2006 14:59
Marcelo,
Adorei o texto. E quem ainda não conferiu a matéria da Tati Magalhães, confira:
http://www.overmundo.com.br/overblog/cinema-para-o-povo-ver
Fala sério... imagem projetada pra matar a fome na barriga do menino. É uma das coisas mais bonitas que eu já li.
Ana,
que bom que vc gostou do texto. fiquei toda besta quanndo, depois de quase 6 meses no site, lá tava ele com 17 overpontos. penso que foi a tag randômica do cinema que pode ter contribuído pra isso, não?
O caso do menino é lindo mesmo. Tem umas fotos fantásticas da história (não minhas, só vi), as risadas das crianças olhando para a barriga e vendo as imagens em movimento (o detalhe é que ele projeta de cabeça para baixo, para que o menino curve a cabeça e assista: só ele tem o poder de compreender o que se passa ali, no seu corpo. E tem um caso que nem contei: depois da projeção no primeiro menino fez-se uma fila enorme de outros querendo viver a experiência... o Hermano teve que parar a projeção coletiva para não decepcioná-los...
Mas tem muitos outros causos. Esse que o Marcelo fala, do boi branco, eu não conhecia e é ótimo. O Hermano é assim, elétrico, inventivo. Eu sou amiga e fãzona dele.
Ah, já ia esquecendo (para não gerar mal entedido quanto ao meu comentário anterior): quando falo que Zumbi e Djavan são os únicos alagoanos reverenciados pela terra, na verdade não estou dizendo que Calabar merece ser reverenciado. Queria falar mesmo do desconhecimento quanto à história e questões fundamentais da sua cultura. E não estou renegando a importância de ambos, em esferas muito distintas, para a cultura nacional e local, mas me baseando neles como ícones, e no fato de que a população hoje sabe que eles são alagoanos, ou viveram em alagoas (talvez, quanto ao Zumbi, mais saibam que compreendam), mas desconhecem gente como Graciliano, Jorge de Lima, Hermeto Paschoal (para ficar nos que têm maior renome nacional) e mesmo a sua obra. Eles podem até dar nome a ruas e escolas, mas não vai muito além disso. Enfim, na verdade queria dizer bem que o abandono de Porto Calvo e dos resquícios de sua história são a prova de que tudo parece muito distante. A gente mesmo, quando visita uma cidade histórica acha lindo, mas na maioria das vezes não consegue fazer uma relação daquilo com o que vivemos hoje.
Talvez tenha falado demais, mas é que tô sem sono e já li tanto hoje que preciso ver outra coisa além da minha dissertação :)
Tati,
Também tô por aqui, a toa e insone...
Mas sério mesmo, quando eu li a história do filme projetado na barriga do menino diante da questão pergunta-fome, cheguei a dar uma entortada assim por dentro grave, sabe ?
Porra. Isso é a verdadeira e cabal tradução do cinema brasileiro. Pra ficar melhor, só se tivesse Dib Lutfi registrando e disponibilizando aqui no Overmundo.
E teu texto realmente merece parabéns! E o do Marcelo também.
E o Overmundo também afinal. Essas possibilidades de um assunto completando o outro no mesmo lugar... pô, coisa fina não ?
Obrigado Ana, que bom que o texto tá gerando tanta prosa, fico feliz, abraços a todos.
Marcelo Cabral · Maceió, AL 2/9/2006 12:16
Pena que aqui (em Sergipe) o DOC TV não abraça projetos desse tipo.
Só porcarias!!
Uma pena!
:(
O filme está pronto, assista a trechos clicando nos links abaixo:
Calabar 1 de 3
Calabar 2 de 3
Calabar 3 de 3
Legal a Matéria....é disso que o Brasil precisa...documentários para resgastar nossa histótia. Viva Calabar...herói.
FaPortoCalvo · Maceió, AL 25/11/2007 20:43Hermano, que mergulho legal no manguaba vc deu! eu sou filho natural dessa Cidade, e nunca tinha observado tantas coisas bonito que vc descreveu, meus parabens continue com esse olhar de raio-x das coisas simples. um abraço!
Amaro-max · Maceió, AL 9/4/2009 22:45
Bacana Marcelo. Pretendo em fevereiro subir o Manguaba e conhecer Porto calvo. Estarei em porto das Pedras e deve ter alguem que faça este trajeto.
A questão da demonização do Calabar é mais um exemplo do empobrecimento cultural que sofremos pela falta de interlocutores mais neutros dos fatos históricos. Sabemos muito pouco sobre quase nada.
Um abraço e parabéns!
Valeu Celso! Realmente precisamos de mais pontos de vista sobre estes temas nebulosos da nossa história, da nossa identidade. Abraço!
Marcelo Cabral · Maceió, AL 28/11/2009 15:51
Marcelçao, grande história!
Grande abraço manu veio!
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