Aventura do resgate de si mesmo

Yusseff Abrahim
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Yusseff Abrahim · Manaus, AM
31/12/2006 · 262 · 10
 

O que pode se passar na mente de alguém que não conhece suas raízes? A pergunta quem sou eu? deve incomodar, e este é o questionamento vivo em muitos indígenas e descendentes na região amazônica do Alto Rio Negro que têm perseguido suas respostas motivados por uma recente corrida promovida por comunitários e impulsionada por ações de organizações indígenas visando o auto-resgate cultural. Mas antes de embarcar na causa de um grupo étnico específico entre os 23 da região, a busca é pessoal para quem os próprios descaminhos da vida rompeu os laços.

A vida de Jorge Pereira dos Santos segue esta trajetória rumo ao seu encontro com ele mesmo. A trajetória familiar evidencia onde sua busca teve início. “Meu pai era um órfão quando foi entregue ainda criança aos cuidados de um comerciante conhecido chamado Joaquim Sena, grande fazendeiro cearense morador de Barcelos; já minha mãe era de uma comunidade indígena do igarapé Ticandira, no rio Içana”, explica Jorge. Morando em uma comunidade dentro da fazenda Juraci, os trabalhadores produziam palas de látex, balata e artesanato em borracha, num ciclo de trabalho que reproduzia a realidade amazônica na década de 1940. “O fazendeiro empregava sua 'freguesia', já que os criados não ganhavam nada e já chegavam para trabalhar devendo a passagem e o que precisavam consumir”, revela.

Mesmo imerso nesta realidade, seu pai, Ângelo dos Santos, conseguiu se casar e sair para uma comunidade do paraná do Anam onde Jorge nasceu (paraná é um pequeno rio). Por falta de alternativas, seu pai colocou-o para trabalhar na dura realidade dos piaçabais da região do rio Preto, vastos locais de cultivo da palmeira regional até hoje usada na fabricação de vassouras, e onde o regime de trabalho não diferia muito do vivido pelo pai. “Lá também tinha extração de cipó, seringa e castanha, mas era o mesmo sistema de escravidão”, lamenta. Considerando a forte carga negativa das lembranças do lugar, Jorge se reserva ao direito de não entrar em detalhes. “Não gosto muito de falar da minha infância; desses lugares muita gente nunca chegou a sair, morreu onde passou uma vida inteira somente trabalhando sem nunca ter conhecido outro lugar”, enfatiza Jorge, que somente aos quinze anos conseguiu fugir escondido no barco do patrão. “Entrei escondido, me enfiei no porão do barco e voltei para a comunidade ainda analfabeto”.

Chegando em casa, Jorge teve o primeiro choque como conseqüência do isolamento imposto pelo sistema do piaçabal. “Meu pai havia morrido e eu não sabia”, revela. Sem muitas perspectivas, Jorge conta que pediu à mãe para ser levado ao colégio em Barcelos; foi atendido, mas como não tinha como se manter, precisou trabalhar na escola nos horários em que não estudava. “Fiquei por cinco anos cursando até a sétima série e me formando em um curso rápido de Meteorologia”. Em 1975 foi para Manaus por conta própria, passando por mais um período de necessidade que culminou com sua morada ocupando um batelão (barco) abandonado. “Fiz todo tipo de trabalho braçal inclusive no Porto, mas consegui terminar o segundo grau no colégio Benjamim Constant me formando como Técnico de Edificações”, comenta, ao mesmo tempo em que outro tipo de inquietação começava a aumentar.

Cobrança externa

Mesmo com seus traços evidenciando sua ascendência, Jorge não reconhecia seus pais como indígenas e muito menos ele mesmo. “Nasci e fui criado achando não era indígena, mas quem olhava para mim sempre perguntava que índio eu era”. Da dura vida nos piaçabais, dos sacrifícios em trabalhos braçais em Manaus à vaga de guia de selva em um hotel, de tão freqüente, a pergunta foi aos poucos incorporando em Jorge a certeza de que precisava reencontrar suas origens. “Comecei a me perceber como indígena e como me perguntavam demais que índio eu era, o fato de não ter como responder começou a me chocar”, revela.

Ainda em Manaus, casou-se com a cearense Maria de Lourdes que o acompanhou quando decidiu ser a hora de subir o rio Negro para tirar todas as suas dúvidas. “Todas as pessoas têm uma origem, eu acho fundamental procurar saber o que fez você existir e foi muito importante minha esposa estar ao meu lado”. Em 1986, conta que chegou à comunidade Pari-Cachoeira seguindo as poucas pistas guardadas na memória vindas de conversas com pai e mãe ainda na sua infância. “Minha mãe era Baniwa, mas tanto ela como meu pai deixaram suas línguas originais e falavam apenas nheengatu”, conta Jorge, relatando a permanência da língua criada pelos jesuítas como um dos reflexos ainda recentes da forte atuação da igreja sobre indígenas destribalizados e desterritorializados na região.

Reencontrando a própria história

Um relato emocionado, que considera a parte final de sua busca, apresenta componentes daqueles encontros registrados nas melhores passagens literárias. Em Pari-Cachoeira foi reconhecido por um amigo de seu pai - este, além de reconhecê-lo pela semelhança com o velho amigo, fez questão de levá-lo à comunidade nativa do pai de Jorge. “Chegando na comunidade fui apresentado ao tuxaua, Henrique Castro, que primeiro nos perguntou se o ouro tinha nos levado para lá”, afirma, explicando uma preocupação natural na época por conta das constantes tentativas de exploração clandestina de garimpos ilegais na região.

O amigo de seu pai respondeu apresentando-o. “Não tuxaua, o Jorge é um parente nosso daqui e é filho de um grande amigo”. Ao mirar novamente o rosto do visitante, Jorge conta que o tuxaua depois de fitá-lo com os olhos, balançou a cabeça positivamente mostrando tê-lo reconhecido e passou a falar como se estivesse em frente ao seu pai. “Ângelo, até que enfim você apareceu. O que você queria nas terras do branco? Fique aqui com a gente, essa é a nossa terra”. A busca de Jorge chegava ao fim neste reencontro em que considera uma das maiores emoções de sua vida. Algumas horas de conversa depois revelaram ainda a etnia de sua mãe Baniwa. Na cabeça de Jorge sedimentava-se a resposta para a mesma pergunta reincidente e acumulada durante boa parte de sua vida. Dali para frente poderia responder a todos que lhe perguntassem e, principalmente, a si mesmo: Sou índio Tukano.

Continuidade da vida

Após decisão compartilhada pela esposa de morar em São Gabriel da Cachoeira, as respostas encontradas por Jorge dos Santos se mostram vivas principalmente na vida da filha de 21 anos. Sabrina Santos se orgulha da ascendência Tukano, e é sobre estas raízes que busca construir uma carreira musical. “Sou Tukana e tenho muito orgulho”, afirma a cantora, que aproveita para desenvolver um trabalho entre a temática do resgate cultural e o clamor por respeito baseando-se em pesquisas e conversas com anciãos. Ainda no ensino fundamental, o caçula Jorge Luiz diz que apesar de recorrer esporadicamente aos livros disponíveis sobre os povos indígenas do alto Rio Nego, sempre vai procurar aprender com seus referenciais. “Quando dá eu sempre leio alguma coisa”, responde.

Quanto à vida em harmonia com a esposa nordestina, Jorge faz uma comparação com o desentendimento silencioso entre raças no Brasil. “Estamos juntos há tempos e nunca criamos nenhum tipo de conflito na educação dos nossos filhos”, conta, sem esconder o que considera seu motivo de maior orgulho. “Melhor do que ter o conhecimento da minha identidade, é a alegria de saber que meus genes são 100% puros, e como indígena, isso me faz sentir um brasileiro legítimo”.

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Alê Barreto
 

Eu também sou descendente de índios e o texto me deixou com uma "pulga atrás da orelha". Excelente reflexão.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 31/12/2006 00:23
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jujuba
 

Quando li o título, pensei que fosse um texto ZEN ou algo assim - não era o que eu pensava, mas não deixa de ser algo bem interessante a busca "genética"!

jujuba · Santo André, SP 1/1/2007 13:44
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Antonio Rezende
 

Acho que sou um destes muitos mestiços, um misto de negro e índio. Boa matéria, Yusseff.

Antonio Rezende · Palmas, TO 1/1/2007 15:09
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Thiago Camelo
 

Adoro a foto desse texto. Dá pra ver muito bem a cara de cada um e a mistura que saiu disso tudo. Abraço!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 2/1/2007 17:30
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Yusseff Abrahim
 

É isso aí Alê e Rezende! Obrigado por comentar. É muito gratificante ver que o texto sensibilizou principalmente vocês que se reconhecem como descendentes.
Apesar do meu nome árabe vindo da parte de meu avô, minha avó era filha de peruanos, logo, é obvio que tenho uma herança genética indígena e lhes asseguro que também fico muito curioso em resgatar estes referenciais.
Pois é Thiago! A intenção da foto foi 100% essa, rostos e traços, o Norte se unindo com o Nordeste e o resultado desta maravilhosa mistura, no quadro ao fundo, está a paisagem mais famosa da cidade com direito a avião militar pousando na base aérea.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 3/1/2007 15:11
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Natacha Maranhão
 

Essa foto tá fantástica, Yusseff, fiquei looongos minutos observando os rostos deles! E o texto, como sempre, muito bom! Adoro as suas histórias!

Natacha Maranhão · Teresina, PI 4/1/2007 10:38
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Yusseff Abrahim
 

É Naty, é muito legal mesmo as feições, né?
Obrigado pelo comentário, além do mais... a recíproca é verdadeira.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 5/1/2007 10:34
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Helena Aragão
 

Emocionante, Yusseff. Valeu a pena esperar! :) Parabéns

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 11/1/2007 18:33
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Spírito Santo
 

Esta matéria recebeu a 'chancela' Eu odeio pessoas burras · Overblog nas manchetinhas do sítio.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 19/6/2007 07:22
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Yusseff Abrahim
 

Valeu Spirito!
Li este texto. Aliás, talvez um dos recordes de comentários....
Abração!

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 19/6/2007 21:58
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