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Um balcão de mármore ou de alumínio, com bancos altos, bancos com assentos de madeira nua ou estofada de couro preto. Nem sempre há bancos e as pessoas ficam de pé, curvadas, com os cotovelos sob o balcão. Uma estufa de vidro e alumínio, onde pairam inertes alimentos estranhos, nem sempre visualmente atrativos, e muitas vezes gostosos- o estômago humano não é tão diferente do estômago do avestruz; ou do tubarão, que come madeira, borracha, plástico, coral, além dos peixes e dos nadadores incautos. Já tive aventuras gourmet com vis salgados dessa espécie e hei de me transformar numa xícara, porque toupeira já sou faz tempo. Havendo espaço, armam mesas de metal, dentro do recinto ou fora, em frente, na calçada- coisa que já foi motivo de debate mais ou menos acalorado entre os pedestres, porque as calçadas andam cheias e não chegamos ainda à tecnologia de um mundo a la Blade Runner. As paredes são cobertas por azulejos e isso dá a impressão de se estar numa macro-cozinha. Caso o lugar seja mal-conservado e invisível à vigilância sanitária, pode lembrar um banheiro, mas nesse caso, convém passar no meio-fio, ainda que se corra o risco de ser atropelado por uma bicicleta de entregador de farmácia.
Botecos são instituições nacionais, como os cafés europeus e os pubs. Esses últimos são mais chiques? Sem duvida, embora os primeiros tenham o seu charme, digamos, decadente, cafajeste. O boteco é como o Carnaval sob a ótica do DaMatta: “evento” onde são todos iguais, onde “nobreza” e “plebe” extravasam suas fantasias em comunhão. E como somos criaturas ambíguas, temos nossos momentos de fala alta de conversa jogada fora, bermudão e chinelos, bem como os momentos de vestir preto, tomar um uísque e discutir Camus e as benesses da nanotecnologia- apesar do boteco e da erudição não serem antípodas: botecos estão intimamente ligados à vida universitária nacional. Botecos são lugares elásticos: podem ser consultórios, congressos de ciências humanas, casas de festas, fraternidades de letra grega- obrigado, tio Weber-, botecos podem ser tudo. Botecos são o barro, fregueses são os oleiros. Não fosse a atividade dos botecos, certos bairros pareceriam cemitérios à noite, com o restante do comércio fechado e os prédios taciturnos metidos em grades.
Claro que ocorre todo o tipo de debate num boteco. Já presenciei os mais bizarros. Certa vez, discuti sobre migração de almas com uma figura que tinha algo de mago às duas da manhã, nós, as personagens do diálogo, com as auras cheias de espuma de cerveja. O líquido alcoólico pode ser o Letes de que falava Platão, só que um Letes daqui, não do Hades. Numa outra ocasião, chega um homem com uma bolsa de papelão de supermercado- algo da era pré-plástica, década de 80 do século passado- e começa a falar em francês. Logo em seguida, traduz o que havia dito, era um trecho d’O Pequeno Príncipe, e antes de girar os tornozelos e de sair com um sorriso enigmático, fala “Desculpe, estou bêbado!” Num boteco, você chega e entra numa conversa em três minutos, não importando o que você foi fazer lá- tomar um café, uma bebida, comprar cigarros, balas. Em termos de comunicação, boteco é banda larga, enquanto que os outros lugares são conexão discada.
Outro dia, passava eu por um bairro onde já morei e percebi que um desses botecos, embora em atividade, tinha uma placa de “Vende-se” pendurada na porta, placa de papelão com as palavras escritas por caneta pilot, coisa bem boteco. Pensei sobre a complicada situação do comércio e também nas vezes em que parava por ali por cinco, dez minutos, para conversar com pessoas que conhecia antes de partir para outros destinos do sábado à noite. É possível que continue a ser um boteco, mas também pode ser convertido numa pet shop ou num salão de cabeleireiro. De qualquer forma, na lembrança, continuará funcionando como um boteco, dos antigos, com azulejos e tudo mais.
tags: Rio de Janeiro RJ cultura-e-sociedade
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Onde o cara foi desenterrar uma bolsa de papelão da era pré-plástico? hahahahahahahahah
Cada uma que a gente vê... E, o pior, as mais absurdas costumam ser aquelas absolutamente verdadeiras!
Excelente crônica. Bem escrita, um retrato de nossos botecos que, infelizmente, estão se extinguindo...
Gostei muito!
Baduh
baduh · Rio de Janeiro (RJ) · 13/8/2007 15:08
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Eu gostei muito! Desculpem os que pensarem diferente, acho que aqui no overmundo há muita coisa boa e todas as colaborações visuais têm recebido mais votos do que os textos.
O seu texto é muitíssimo bom. Não sei porque ainda não disparou nas votações.
Valeu, parabéns, continue escrevendo assim.
Ivo Soterio de Souza - Valença, RJ
Soterio · Valença (RJ) · 15/8/2007 07:39
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Também achei ótimo e engraçado. Muito bom.
geralgomes · Teresópolis (RJ) · 15/8/2007 07:47
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Muito bom mesmo, a visão que todos temos colocada em palavras muito bem escolhidas.
Parabéns!!
Lila · São Paulo (SP) · 15/8/2007 21:36
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Um texto absolutamente maravilhoso, que me fez lembrar dos cronistas clássicos do Rio de Janeiro, (Antonio Maria, Paulo Mendes Campos).
Parabéns e mande mais crônicas!
esoares · Rio de Janeiro (RJ) · 16/8/2007 17:23
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Baduh: é verdade, a realidade supera a ficção no quesito bizarro. Certa vez, vi um conhecido que exagerou nas louras geladas cair no chão com cadeira e tudo em câmera lenta. Como ele fez isso, até hoje não sei, hahaha. Abraços, obrigado pela leitura!
Marcato Pereira · Rio de Janeiro (RJ) · 16/8/2007 23:49
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Soterio: Quando postei a crônica, pensei em acrescentar uma imagem, mas como tinha pouco tempo e não achei o que eu queria, optei por publicar apenas o texto. Mas é curiosa a força do apelo visual. Nada contra, adoro fotografia, pintura, desenho, mas aqui, especificamente, não acho que deveria influenciar tanto a escolha do texto a ser lido e comentado. Abraços, obrigado pela leitura!
Marcato Pereira · Rio de Janeiro (RJ) · 16/8/2007 23:54
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Geralgomes: Ah, os botecos são grandes mananciais de estórias engraçadas. Tive que escolher entre algumas que eu conhecia, de modo que o texto não ficasse extenso demais. De repente, faço num outro momento um "Azulejos II- a missão", com mais estórias, hahaha. Abraços, obrigado pela leitura!
Marcato Pereira · Rio de Janeiro (RJ) · 16/8/2007 23:57
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Lila: Depois que pus o ponto final, pensei: será que consegui passar o que eu queria?, será que não transformei o boteco em algo que ele não é, por ter carregado algumas imagens de elementos ficcionais? Legal que tenha gostado! Obrigado pela leitura, abraços!
Marcato Pereira · Rio de Janeiro (RJ) · 16/8/2007 23:59
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Esoares: Bondade sua! Tenho que tomar muitas colheradas de sopa de letrinhas pra chegar perto de uma dessa grandes figuras que você citou, hahaha. A crônica é um gênero fascinante; estou dando meus primeiros passos nesse terreno fantástico. Abraços, obrigado pela leitura!
Marcato Pereira · Rio de Janeiro (RJ) · 17/8/2007 00:03
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