3º Baile de Danças Circulares faz desconhecidos darem as mãos e proporciona um mosaico cultural
Tá certo.... o final de todo baile é o silêncio. Mas o desse baile foi diferente. Não foi somente a música que acabou. Era um silêncio diferente, daqueles que faz a gente olhar para dentro, refletir. Vamos rodar a roda do tempo... antes do fim... vamos ao começo.
Findou que num sábado1 à noite, entre opções culturais noturnas de Aracaju – é possível citar bandas de rock independente no pub do Capitão Cook ou comer crustáceos e bater papo com os amigos nos barulhentos bares da Passarela do Carangueijo – surgiu uma curiosa: um Baile de Dança Circular.
O Baile foi organizado pelo pessoal da ong Ação Cultural e tinha como um dos objetivos arrecadar contribuições para a revitalização do Projeto ECARTE – um projeto que possui como principal objetivo trabalhar oficinas de arte e direitos humanos com jovens de dois bairros periféricos da região metropolitana de Aracaju.
Formas de expressão de sentimentos, de religiosidade, de louvor à vida as danças circulares rodam o mundo e carregam uma bagagem ancestral. Desde a celebração de colheita em um país do Leste Europeu à pisada na areia acompanhando as pancadas das ondas do mar, como nas cirandas praieiras do nordeste. Um coreógrafo alemão, sujeito estudioso, chamado Bernhard Wosien foi um dos principais difusores
das danças circulares pelo mundo. Além de compilar diversas danças folclóricas e começar a ensiná-las a partir da década de 70, Wosien deixou um legado a que chamou de “Danças Sagradas” que, além de um saber ancestral possuem em si fins terapêuticos.
Vamos ao 3º Baile... Naquela noite a dinâmica foi a seguinte: aqueles que possuem mais experiências e conhecimento das danças circulares vão ensinando os passos. São os focalizadores. Eles não só ensinam os passos e fazem uma espécie de ensaio antes de soltar o som, como também contam a história da dança que será executada pelo grupo. ... Contar a história de uma dança... mostrar sua cultura.. Assim é mais fácil entrar nela e senti-la. Na noite do Baile, Irene Smith e Maxivel Ferreira estimularam várias vezes todos a dançarem. E sempre que possível outros participantes mais experiente também trazia uma dança circular diferente para a roda. Vale destacar também a participação de Gilcenir Ramos e Vera Martha como as outras focalizadores da noite que trouxeram ótimas histórias e passos para o grupo.
O funcionário público Luis Joacy não foi focalizador na noite do Baile. Mas como entusiasta das danças circulares desde 2007 explicou o significado da dança israelita Od Lo Ahavit Dai “Essa música é israelita e diz que o anjo da morte viria pegar alguém e essa pessoa diz que ainda não poderia morrer. Então a morte pede para dar uma boa justificativa. A pessoa diz que precisa criar os filhos. A morte responde que isso não é um bom motivo. A pessoa diz que precisa acumular um bom patrimônio para passar aos filhos para que não fiquem desamparados. A morte também não acha um bom motivo e diz: ‘você só tem mais uma oportunidade de dizer porque você não pode morrer ainda’. Aí a pessoa pensou e disse: ‘Eu não posso morrer ainda porque não amei o bastante, não amei o suficiente’. Por isso a morte a poupou”. Frase essa última que é a tradução do título da música.
Em certos momentos alguns passos mais complicados provocavam situações descoordenadas e risadas. Além da descontração criada, era possível perceber que o ato de dar as mãos e formar um círculo também ajudam na integração dos participantes no conjunto. Clara Bezerra é assistente social. Ficou sabendo do Baile pela internet. “É muito bom você conhecer diversas culturas sem precisar viajar. E você dançar com pessoas desconhecidas é algo muito interessante”.
Lá para o final do Baile, os organizadores escolheram algo especial. Foi apresentada aos “dançarinos” estreantes uma menousse.. um tipo específico de dança circular . Essa menoussis foi desenvolvida por Anna Barton uma disicipula de Bernard Wosiehn. Os passos acompanhavam uma música cantada por uma bela voz feminina. Uma canção lenta e relaxante. Zezito de Oliveira (no momento de focalizador) ensinou: dois passos para a direita, três ao centro (ida e volta) e um a esquerda. E depois explicou o sentido: os passos da direita são nossas vitórias, os passos para o centro, os momentos de encontro com a nossa força interior, à esquerda representa os momentos difíceis, os obstáculos.
Nem precisa informar... que o momento de introspecção foi geral. No filme da mente vinham algumas cenas de minha vida momentos que os passos evocavam. O Baile noite encerrou... o silêncio e a experiência... deixaram sua marca.
1-Devido a diversas circunstâncias quebrei “o ineditismo” do jornalismo...o baile aconteceu no sábado 06 de março, mas acredito que certas histórias mesmo já passadas algum tempo merecem ser contadas.
muitas vezes a procura pelo "ineditismo" estraga o jornalismo... os eventos são anunciados e quase nunca ouvimos o relato não apressado sobre o que aconteceu... valeu Thiago! peço mais: há vídeos? queria ver o Zezito ensinando a dança!
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 19/3/2010 07:07
É verdade... Hermano muitas impressões ficam só guardadas internamente ou nas conversas do ciclo da amizade. E às vezes o relatos pós-eventos são muito ricos.
Quanto ao vídeo.. fiz alguams imagens e Seu LA Cierva, um dos colaboradores da Ação Cultural, também captou outras. Estamos tentando editar o vídeo, mas devido a atribuições ambos e a inexperiência em edição ainda não postamos aqui.. Mas assim que tiver pronto colocaremos no Overmundo..
Abraço.
Também adorei o relato. Uma contação de dança! Confesso que volta e meia via o Zezito falar da dança circular aqui no Overmundo, ficava com curiosidade, mas não tinha a dimensão da coisa. Também acho uma ótima ideia a postagem de vídeos para que possamos ver a brincadeira. :) Abraços
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 19/3/2010 14:03
Valeu Helena....!!
O vídeo será apenas um tira-gosto.. assim que der estaremos postando.
Abração
Thiago
Que legal!
Nesse inicio de tarde de sábado, ouvindo a querida e saudosa Nara Leão, através do studio F (canal funarte), me deparo com o teu excelente post.
Agradável surpresa. Pelo fato de ter entrado aqui para pegar o link de um artigo que postei para enviá-lo a um amigo
P.S.:
Quanto a me ver focalizando passos de dança, como disse o Hermano, é esperar mais um pouco. Também estou na expectativa de assistir as imagens do 3º baile de danças circulares aqui no overmundo.
Helena: Quando eu puder ir ao Rio de Janeiro me comprometo em focalizar algumas danças. No encontro do Overmundo Sampa, do qual participei em 2009, a experiência foi muito gratificante.
Já participei de danças circulares no espaço de Marcos Freire em Olinda,é muito legal,pena não ter mais tempo de praticar.Achei ótima a ideia do baile,queria um desses todo mês aqui em Pernambuco.
polla · Bezerros, PE 22/3/2010 20:08Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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