Bali

(C)Ricardo Yamamoto 2004
Educação física numa manhã em Canggu. Bali, 2004.
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ricardo yamamoto · São Paulo, SP
17/1/2007 · 118 · 2
 

Uma das vantagens de se morar bem longe do Brasil, como no Japão por exemplo, é que lugares também distantes e quase inace$$íveis acabam fazendo parte da vizinhança, a poucas horas de viagem. Um deles é Bali, na Indonésia.

Com uma cultura acumulada de praticamente cinco mil anos, esta ilha que já sofreu a invasão dos holandeses e japoneses, tem sofrido nas últimas décadas mais uma invasão por parte do homem branco - a turística, claro.

E eu, após anos sem ver um sol decente (o do Japão chega a esquentar muito mas tem uma luz de péééssima qualidade) nem preguiçosos cenários paradisíacos, avistei a costa da ilha extasiado - a paisagem tropical sempre enaltece o espírito que clama por dias de vagabundagem. E esses dias passei no vilarejo de Canggu (pronuncia-se "Changu"), hospedado na casa de caridosos amigos, uma casal de brasileiros com duas lindas filhas pequenas. Aluguei uma pequena moto e adotei, sem muita escolha, a rotina do meu anfitrião surfista, que começava seu dia às cinco da manhã e se recolhia às dez da noite. Perfeito para a fotografia.

Procurado por alguns por causa de suas ondas, ditas perfeitas em certas condições, e por outros pelos seus preços e beleza natural, Bali é mais um dos vários lugares do leste asiático que, diante de tamanha demonstração de tecnologia, poder aquisitivo e exuberância física por parte de seus invasores, teve a parcela mais jovem de sua gente simples se descobrindo miserável. E esta consciência eu vi por vezes refletida na atitude de alguns vendedores de rua, que vendiam por "encheção de saco" e chegavam a fazer, em alguns casos, acusações de hipocrisia do tipo "Isso pra você isso não custa nada, então leva logo a porra do cartão postal, pô!".

Pelo que percebi, os nativos e os estrangeiros residentes vivem de forma completamente diferente. Enquanto que mesmo na modesta geladeira da casa de meus amigos só havia produtos importados, incluindo o indefectível creme de basil para o café da manhã, na casa dos balineses em geral parecia mal haver geladeira. E no único dia em que precisei alugar um carro, Ketut, meu guia, usou a viagem de ida para fazer a social e a de retorno para me propor mil negócios no melhor estilo sacoleiro. Ele também sonhava em ser turista um dia, enquanto muitos turistas acabam abrindo mão de seu mundo moderno para sempre ao descobrirem os encantos de Bali.

Devolvi a moto, guardei as câmeras, bebi meu último suco de goiaba com menta e vim embora com a cara mais corada. Nas lembranças desse paraíso, o olhar sonhador dos vendedores e a simplicidade muito digna do pessoal dos vilarejos. Na cabeça, o pensamento de que este mundo é mesmo muito esquisito.

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Luiz Carlos Garrocho
 

Ricardo,

Impressionante a foto que abre o texto. Com esta foto você nos encontramos diante do que separa o olhar estrangeiro do olhar turista.
O texto procura nos trazer esse estranhamento. Porém, se me permite, em alguns momentos penso que você poderia ir mais fundo - apostar mais - nas suas percepções estrangeiras (e anti-turísticas). Gostaria que você falasse um pouco mais do que significa essa simplicidade digna que você viu nos moradores. Enfim, sinto que sua imagem principal e muitas partes do texto expõem um olhar estrangeiro, uma percepção de mundo. São essas potencialidades que, ao meu ver, poderiam ser bem exploradas.

Luiz Carlos

Luiz Carlos Garrocho · Belo Horizonte, MG 17/1/2007 11:01
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ricardo yamamoto
 

É isso Luís. Esse ponto de encontro turista/auto-crítico (considerando que quem faz crítica à sociedade critica a si mesmo, necessariamente) é legal, mas evito levantar uma bandeira pois não pesquisei sobre o assunto e não quero passar uma imagem errônea. Então coloco somente como minhas impressões pessoais.

Porém poderia sim colocar mais coisas, por há mais coisas. Mas, como tenho talento limitado para escrever, receio que a coisa fique monótona, sei lá... Mas obrigado pelo valioso toque.

abs!

ricardo yamamoto · São Paulo, SP 20/1/2007 22:34
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Numa manhã voltando de Tanah Lot. Bali, 2004 zoom
Numa manhã voltando de Tanah Lot. Bali, 2004
Tanah Lot, esculpido pelo tempo e erosão. zoom
Tanah Lot, esculpido pelo tempo e erosão.
Templo hindu em Ubud. Bali, 2004 zoom
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