Após 43 anos no quase anonimato nacional, o festival de Parintins passou a ser transmitido para todo o Brasil pela Band. Como já era de se esperar erros grotescos referentes aos nomes de sÃmbolos da festa foram vários. E ainda, a empolgação do apresentador Datena foi tanta que gerou crÃticas no site da Globo Online. Mas, tudo isso era previsÃvel. Afinal, quem nunca viu o festival de Parintins de perto sempre se emociona com as várias coisas apresentadas no “desfile†(como se escreveu no site Globo Online) dos bois Garantido e Caprichoso. Já vi, ao longo dessas décadas, vários gringos deixarem seus queixos quedarem-se frente a grandiosidade das alegorias, da dança e garra das torcidas que ficam horas sob o sol e chuva para evoluir e ganhar pontos para seus bois. Mas, tudo isso era previsÃvel.
Dos males o menor, a empolgação de Datena e as trocas de nomes, maioria indÃgenas, são coisas realmente aceitáveis. Mas, como se não bastasse, para fazer tremer qualquer folclorista, o folguedo do boi-bumbá (herança negra e nordestina, festa profana que na Amazônia era comemorada junto a datas de santos pela classe pobre) virou o carnaval carioca na Amazônia. Porta-estandarte se travestiu em porta-bandeira. A apresentação na arena virou, como bem disse o site Globo Online, desfile (leia-se que desfile ocorre de modo contÃnuo, nele as coisas passam e não se montam cenários e se fazem encenações tal qual em um palco). As tribos indÃgenas são agora “blocos de boiâ€, batucada e a marujada são bateria. Pelo amor de Deus boi-bumbá é uma coisa e carnaval é outra, com histórias e estruturas diferenciadas, entendam. Sei que a analogia fica jornalisticamente bonita, mas entendam as diferenças e parem de comparar. Isso fere as raÃzes caboclas! Mas, tudo isso era previsÃvel. Eu credito muito dessa comparação as alegorias de ambas as festas, que aqui nem chamamos de carro alegórico, pois uma única alegoria de uma encenação pode conter 20 carros juntos. Só para fazer uma ressalva há alguns anos os carros são feitos por artistas de Parintins, não foi o Rio que ensinou o boi, embora muita gente pense assim.
Quanto à audiência da Band, segundo ouvi falar, foi mediana, afinal o IBOPE não mede e nunca servirá para medir a real audiência no Brasil, mas não vamos entrar nesse mérito. Apenas me bastam os telefonemas, e-mails pessoais e recados nos sites sobre o assunto, enviados por pessoas de todo o paÃs. Esse é o melhor termômetro. Mas, tudo isso era previsÃvel.
O que não era previsÃvel era ouvir a apresentadora PatrÃcia Maldonado (de modo particular a considero ótima profissional independente de qualquer coisa) falar que em Parintins as moças que encenavam as sinhazinhas do boi precisavam pintar os cabelos de louro, pois todos aqui são descendentes indÃgenas. Uma visão etnocêntrica dela. Mas, tudo isso, mesmo assim, era previsÃvel. A palavra Amazônia soa distante dos ouvidos de nossos co-irmãos brasileiros.
O que realmente não era previsÃvel é que, saindo de nossa condição periférica – de seres colonizados, menores em valor –, uma jovem cabocla chamada Ana Paula Ianuzi, que acabou de assumir o tÃtulo de sinhazinha do boi Garantido, fosse em rede nacional dar uma “aula†sobre a formação étnica amazônica. A moça, com toda a razão, não gostou de ser tida como indÃgena, não por vergonha, mas pelo simples fato de que ela é parintinense, de pele e cabelos claros, descendente de europeus, japoneses, indÃgenas e uma gama de outros povos que, como bem escreveu Darcy Ribeiro, compõe o “povo mais miscigenado do Brasilâ€. Se fosse comigo, um "Ãndio", nascido em Manaus, com quase 1 e 80 de altura, pele branca, cabelos anelados e pelos no corpo eu também não aceitaria ser chamado de Ãndio pois fisicamente não posso ser considerado indÃgena, a não ser pelo fator consangüÃneo, mas assim sendo poderia eu ser considerado europeu, japonês, negro. A idéia de região de Bourdieu precisa ser revista. Pena que o próprio Brasil não saiba disso. Só me fica a pergunta: melhor não seria se o Festival Folclórico de Parintins continuasse a ser como antes, apenas dos amazônidas e de antecedentes estrangeiros de Ana Paula? Eles pelo menos nos chamam de caboclos.
uma tristeza...é como o Rock in Rio, já nao é rock...
Cintia Thome · São Paulo, SP 3/7/2008 20:03naum concordo muito com vc nesse ponto Cintia. O boi ainda é boi mesmo com a transmissão querendo transformar a festa em carnaval. Não estou criticando a festa, ou até mesmo a Band, pois os erros como escrevi várias vezes eram previsÃveis, mas a falta de conhecimentos sobre as coisas da Amazônia.
TAPAJÓS_Leandro · Manaus, AM 3/7/2008 21:09
olá tapajos? Jà TINHA LIDO SUA MATERIA E ATE Jà TINHA COLOCADO COMO TEMA DE DISCURSÃO AQUI EM ARACAJU, POIS TEMOS UM GRUPO DE DANÇA QUE TEMOS ALGUNS MOMENTOS DE DISCURSÃO SOBRE CULTURA DE FORMA GERAL, POIS ACREDITAMOS QUE PRECISAMOS ENTENDER MELHOR ESSE PROCESSO CULTURAL PÓS MODERNO...
CONCORDO PLENAMENTE COM VC SOBRE A INRRESPONSABILIDADE DAS EMISSORAS DE TRANSMITIR TODO EVENTO CULTURAL COMO SE FOSSE O CARNAVAL DE SALVADOR... NÃO EXISTE MAIS RESPEITO PELO DITO BEM INMATERIAL. A TELEVISÃO É UM DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO QUE AGRIDE TODO MANIFESTO TIPICO DE UMA LOCALIDADE, DIANTE DE MUITOS FATOS, MAS PRINCIPALMENTE PELA FORMA INRESPONSAVEL DE NÃO RESPEITA O POVO.
NÃO QUERE CONHECER NA FESTA DE PARENTINS AS LOIRAS MAIS LINDAS, OU OS HOMENS MAIS GOSTOSOS, QUEREO PELO MENOS ENTENDER O POR QUE DO BOI, DAS FIGURAS, O QUE LEVA O POVO A IR PARA RUA VESTIR SUA HISTORIA E CANTAR SEUS CANTOS.
É POR ISSO E POR OUTRAS QUE SIMPLISMENTE DESLIGO A TV, E TENTO O MÃXIMO POSSIVEL VIAJAR PARA CONHECER NOVAS HISTORIAS.
MAS FELIZMENTE O OVERMUNDO É UM MEIO DE COMUNICAÇÃO QUE AGREGA A CULTURA .
PARABENS
Muito pertinente tua inquietação, Leandro.
Na verdade, a falta de informação dos apresentadores da Band, seja pela falta de trabalho da produção, ou do desinteresse dos apresentadores, mostra que a emissora pousou no Amazonas com uma suposta "auto-licença mental" do tipo: "Vamos transmitir esta festa pela primeira vez para o Brasil inteiro e todos do lugar ficarão gratos".
Só não contavam com um povo local que leva sua cultura à sério -tão à sério que transformou a festa na sua grandiosidade atual - com a espetacularização via de regra submetida às tematicas da cultura amazônica.
Claro que todos de Manaus e Parintins iriam entupir caixas de e-mail da Band reclamando do despreparo em termos de conteúdo.
A Band reinventou o jornalismo (ou acabou mesmo com o conceito). Digo isso por que sempre soube nas primeiras aulas na faculdade que devemos nos preparar antes de cobrir o que quer que seja, mas o que vi no único dia de transmissão que acompanhei (29.06), foi um surreal e recorrente pedido de desculpas durante toda a transmissão, dos apresentadores que deveriam justamente estar ali para DAR informações.
Perguntas que não querem calar diante deste quadro: onde vai parar o jornalismo no Brasil ? O que fez o setor chamado de Produção, da Band, durante todo o perÃodo pré-evento?
Não encontro outra explicação senão um certo menosprezo à complexidade da festa amazônica, de onde talvez os sulistas da emissora jamais esperavam algo do gênero, já que quem mora no Sul/Sudeste costuma cometer o pecado de se acomodar no parco conhecimento passado absorvido nos assuntos que a televisão brasileira em geral se dedica a explicar. Bem, poderiam ter acessado o Overmundo. Desde o ano passado existe um texto publicado aqui e construÃdo exatamente para desfazer a comparação com o Carnaval e ver a festa tal qual ela é.
Volto para comentar sobre os vÃcios carnavalescos das imagens e a insaciável vontade de falar do apresentador da emissora que acabava com uma das caracterÃsticas mais interessantes das apresentações dos bumbás : o fator surpresa.
De qualquer forma, fica a "novidade": O Brasil tem muito o que aprender com os amazônidas, sejam eles caboclos, Ãndios, brancos, orientais, negros, Garantido ou Caprichoso.
OLha concordo com o meu amigo Tapajos. A globo teve todos estes anos p transmitir e nao o fez. Nunca se interessou. Entao, num acordo maravilhoso, transmitindo em HDV, a Band aceitou o desafio e alcançou ate bons indices. Pena q as pessoas so vejam os defeitos. Parece q ficam olhando e procurando um fio de cabelo aqui, um pelo no ovo ali e uma pedalada grosseira p dizer: aeh, a Band e uma merda, se fosse a globo...
Puxa vida gente. Nos sabemos q a band naum tem nem 1/3 da estrutura da globo, mas fez, mas transmitiu p o Brasil todo, em horario nobre... Vamos dar um voto de louvor, confiança e ajudar a melhorar. Qtas vezes vc ja fez merda, eu ja fiz merda e ficamos tao mal na boca de quem nada fez.
Vamos parar com este espÃrito de destruição. Vamos criar em nossas mentes um clima de construção, de fazer, de crescer. Agora se a band daqui na terceira emissão nao quer ou nao aprendeu, aeh vamos falar com eles. Vamos opinar.
Um abraço a todos
É como já escrevi antes. Não toh criticando a Band em si. Mas a falta de informação sobre a Amazônia. Fico realmente grato pela transmissão, e penso que independente se ser a Band ou a Globo, os erros existiriam quase iguais.
E quanto ao fator surpresa concordo com o Yusseff a transmissão não conseguiu passar isso que é o grande diferencial de Parintins. mas nos outros anos eles melhoram e o povo começa a entender um pouco mais sobre a região. Assim espero!
Me desculpem se pareci um pouco raivoso, especialmente vc, Nic. (rs). Mas minhas observações são feitas para colaborar para esta melhora da transmissão do ano que vem.
Só não posso olhar por este viés da gratidão... isso tudo é negócio e a Band foi muito bem paga para tal com verbas do GOVERNO, então como CONTRIBUINTE e AMAZONENSE, me sinto no dever de publicar minhas análises sob o ponto de vista TÉCNICO. Se a Globo fizesse a transmissão terÃamos certamente vários problemas, mas infelizmente a Globo não ligou para a importância desta festa (azar o da emissora).
O principais pecados da Band foram:
1 - NARRAÇÃO DO EVENTO "POR CIMA" DOS APRESENTADORES - A festa de Parintins é auto-explicativa, não cabe cortar o apresentador da emissora, mas muitas vezes sua narração era feita no mesmo momento em que o apresentador do boi explicava o que ia acontecer, com um texto preparado para colocar os espectadores no clima da festa, isso quando não vinha uma entrevista com alguma celebridade nos camarotes. Ou seja, como as apresentações possuem uma seqüência, no retorno o espectador acabava descontextualizado. SUGESTÃO: 1- Há momentos em que as alegorias são desmontadas na arena para a entrada de outros módulos... este seria um tempo ideal para a entrevistas em camarotes. 2- O papel do apresentador da TV deve ser somente pontuar os momentos do espetáculo ao telespectador, estimular comentaristas e ler recados. Deixar a apresentação do que acontece na arena para os apresentadores dos bois é imprescindÃvel.
O APRESENTADOR DA BAND ESTRAGAVA O FATOR SURPRESA - Quando estamos no bumbódromo sabemos que não basta os modulos entrarem, tudo que está ali na frente vai mudar a qualquer momento e o apresentador do boi segue um roteiro que alimenta o clima de mistério e expectativa. De posse do roteiro dos bois em mãos, o que o apresentador da Band fazia quando mal uma alegoria entrava fechada na arena? "Essa alegoria está trazendo a cunhã-poranga, ela está ai dentro deste módulo que vocês estão vendo...". SUGESTÃO: Reitero que a apreentação de arena dos apresentadores dos bois seja aproveitada ao máximo.
IMAGENS-CLICHÊ CARNAVALESCOS - Onipresença de closes em rostos bonitos e imagens da sensualidade dos itens femininos em slow-motion (flashback). SUGESTÃO - O momento que uma alegoria abre e revela um item, que um torcedor se emociona e canta chorando nas arquibancadas (100% comum) podem ser somadas as outras imagens citadas de modo a traduzir a emoção diferenciada que a festa proporciona ao público presente.
E ae, Leandro? Concorda amigão? Um abração, Nic Nilson!
Muito boa suas colocações Leandro e Yussef, acredito que mesmo ocorrendo as derrapadas, a Band de uma forma ou de outra conseguiu transmitir o festival (esse não era o objetivo final?). E digo mais acompanhando outras transmissões que houveram do festival, e apesar dos erros e pecados culturais-sociais-raciais cometidos, esta transmissão foi boa. Se houver um cuidado e preparação maior ano que vem, coloco votos que possa estar por vim uma ótima transmissão em 2009. Abraços
Rafael D. · Belo Horizonte, MG 5/7/2008 19:04
Pois é - o problema de tudo isto, a se lamentar, é que o aspecto
comercial que deve constar é engolido pelos interesses comerciais que não deviam constar.
abraço
andre.
Oi, Tapajós! Parabéns por ter colocado o tema em pauta aqui no Overmundo.
A empolgação do Datena na transmissão, embora aparentemente espontânea, serviu apenas para encobertar a falta de profissionalismo dele nessa transmissão. Certo, como ele bem disse no ar, não conhecia o Festival e estava aprendendo sobre ele. Mas poderia (deveria, de fato) ter se preparado, assistido a algumas transmissões anteriores, lido algun(s) dos vário(s) livros escritos sobre os Bois de Parintins. Eu recomendaria a ele "Festas Amazônicas", de Wilson Nogueira, publicado pela editora Valer.
Para mim, ficou nÃtido o pouco-caso do apresentador (e da própria emissora) com a transmissão. Essa foi a maior prova de etnocentrismo: ignorar as 42 edições anteriores do Festival, seu histórico. "Antes não exisita, ou não tinha importância, simplesmente porque eu não conhecia". Bem tÃpico da grande imprensa!
É ThaÃs, como sempre "vÃtimas" desse etnocentrismo e dessa idéia de que somos a periferia...
TAPAJÓS_Leandro · Manaus, AM 17/7/2008 17:46Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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