Banda de Congo de Piabas e Irundi – Ibiraçú-ES.

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Natureza · Vila Velha, ES
13/5/2010 · 24 · 2
 

Banda de Congo de Piabas e Irundi – Ibiraçú-ES.
As bandas de congo, para não deixar desaparecer a cultura do negro, têm resistido às dificuldades e a falta de apoio dos pequenos municípios em que se encontram. Uma das bandas, que é exemplo disto, é a de Piabas/Irundi de Ibiraçú. Segundo o vice-presidente das bandas de congo de Ibiraçú, Hipólito Monfardini Neto, “Neto” como é chamado pela comunidade, esta festividade retrata a história do negro e é dividida em quatro etapas: a cortada, a roubada, a fincada e a derrubada do mastro.
A cortada simula a escolha e o corte de um tronco de árvore para servir de instrumento de castigo para os escravos. No tronco fincado na fazenda do senhor, os escravos apanhavam quando não obedeciam ou quando não produziam por motivo de doença. A roubada representa o furto do tronco para que não fosse fincado no dia seguinte e não acontecesse a tortura dos colegas. A fincada retrata um momento de tristeza, pois é quando o tronco é achado e fincado, para dar inicio aos castigos. Na derrubada o mastro é deitado abaixo representando a libertação dos escravizados. Essa passagem é vinculada à assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, na qual proporcionou a liberdade dos negros no Brasil.
De acordo com Neto, a banda de Piabas/Irundi se uniu às demais bandas de Ibiraçú para registraram-se como uma associação, intitulada “Bandas de Congo de Ibiraçú”, desta forma as bandas conseguiram legalizar e dar continuidade ao trabalho.
Esta união das bandas de Ibiraçú é também uma estratégia de não permitir que a festa e a história do negro se acabem no município; caso alguma banda venha a se desintegrar, os congueiros que desejarem continuar, mas que não pode mais dar continuidade em sua comunidade, têm a liberdade de migrar para outra banda.

A comissão é formada pelas seguintes bandas:
São Cristóvão: localizada no bairro urbano São Cristóvão da cidade de Ibiraçú, a banda leva o nome do bairro. Com o apoio das demais bandas, gravou seu primeiro CD. Também é a única banda que possui uma escola e uma banda mirim de congo dentro do município.
São Pedro: localizada numa comunidade quilombola na zona rural de São Pedro/Ibiraçú, é considerada pela comissão, a mais original das bandas. Os integrantes, em sua maioria, são descendentes de escravos e as rainhas, as “Bastianas” como são conhecidas, confeccionam o estandarte e a bandeira da festa do mastro. A banda era regida pelo mestre Manoel Casimiro, que com seu falecimento foi assumida por Jaci Vicente.
Boa Vista: assim como a Banda de São Cristóvão, localiza-se na zona urbana de Ibiraçú e também leva o nome do bairro em que se encontra.
Piabas Irundi: é formada por duas comunidades rurais, a comunidade de Piabas que pertence a Ibiraçú e a comunidade de Irundi que pertence a Fundão. A união se deve a proximidade e ao expressivo número de famílias que possuem parentes em ambas as comunidades. É regida pelo capitão Albino Casimiro dos Reis, mais conhecido como Seu Bino. Em seu uniforme branco, com seu kep e um apito de mais de 60 anos, esse senhor de 82 anos de idade e mais de 60 anos de congo, é o segundo mais velho e mais antigo capitão em atividade no estado do Espírito Santo. Lidera, juntamente com o apoio de Neto, uma banda miscigenada por negros e brancos. Duas, das quatros rainhas da banda de Piabas/Irundi são jovens brancas. Há também um número expressivo de crianças que integram e acompanham a banda.
Na última festa da fincada do mastro que ocorreu nos dias 09 e 10/01/2010 foi possível registrar alguns nomes que são promessas futuras desta cultura. Exemplos de promessas como o menino Fabiano Zanoni, de apenas 4 anos de idade que acompanhou a banda com sua casaca infantil feita pelo pai, Sebastião Zanoni, especialmente para a festa. Outro menino que está seguindo o mesmo caminho é Sávio Salles Cazotto de 3 anos de idade, que está aprendendo a tocar casaca com o pai Silvano Cazotto, integrante da banda. Sua irmã Sandy Salles Cazotto, 8 anos, é uma das princesas do congo. O grande destaque das promessas é o sobrinho de Neto, Erly Monfardini Zanoni de 8 anos de idade, que acompanha batendo tambor na banda desde pequeno . Seu pai José Carlos Zanoni, músico autodidata, faz parte do coral da Igreja de Piabas e toca vários instrumentos musicais na banda de congo. Outro detalhe importante de ser ressaltado é que estes instrumentos tocados por eles possuem mais de 50 anos de uso. São instrumentos fabricados a partir de couro e de barris de vinhos trazidos nos navios pelos bisavôs dos congueiros. Os imigrantes italianos, austríacos e alemães transportavam os barris em tropas; eram colocados dois barris carregados de vinho no lombo de cada burro. É possível ainda ver as marcas das tampas dos barris nos tambores. A responsabilidade de armazenar e zelar pelos instrumentos da banda de Piabas/Irundi foi encarregada a Neto, que há pouco tempo restaurou alguns tambores, trocando a cor azul e branca por verde e branca. A cor verde também foi adotada nas camisas do uniforme e nos bonés da banda que foram patrocinados por Danilo Blanck, conterrâneo de Piabas que tem muito apreço pelo congo apesar de não fazer parte diretamente da banda, mas que tem apoiado financeiramente. A banda também conta com apoio do presidente da associação de congo de Fundão.
A banda tem um histórico interessante a respeito dos idealizadores e coordenadores dessa manifestação folclórica e religiosa. O curioso é que as maiorias dos nomes é de descendentes de italianos alemães e austríacos, já uma vez que o congo, na sua origem, integra a cultura do negro, índio e português. Isto mostra que Piabas vem há tempos interagindo com várias culturas. Diferente de muitos municípios, Piabas se destaca na valorização e no respeito da cultura negra de tal forma que a participação dos brancos desta comunidade no congo é maioria.
Não se tem certeza, mas há rumores que a matriarca na realização da festa de São Benedito e São Sebastião, seria Branca Pedrini; descendente de italianos que fundaram Piabas. Seu sucessor foi Pedro Pirchiner, descente de austríacos que cavava com as mãos e tirava no prato a terra do local da fincada do mastro. Junto com o então amigo José Casotto e capitão Bino administrou por um bom tempo o congo de Piabas. Foi sucedido pelo pai de Neto, Natalino Monfardini, que influenciou o gosto do filho pelo congo. Porém Natalino faleceu e ninguém se propôs a assumir a tesouraria da banda, após seu falecimento. Sozinho, capitão Bino ficou impossibilitado de dar continuidade. Com a possibilidade de não haver festa nos anos seguintes, devido à falta de um líder administrativo, Neto assumiu a tesouraria da banda administrando até os dias atuais.
Ele relata que a banda tem passado por muitas dificuldades, mas tem resistido a todas elas. “Não há verba e os apoios da prefeitura são escassos. Trata-se de trabalhadores rurais que não podem largar sua lavoura quando convocados para fazer o que amam sem nada em troca. Quando não há patrocínios para o transporte e a alimentação somos obrigados a bancar do próprio bolso. Nem mesmo capitão Bino com tantos anos de atividade não tem o devido reconhecimento e recursos para realizar o trabalho no congo. Ele caminha durante duas horas para chegar à comunidade, saindo de Alto Piabas onde mora, até Piabas, onde os ensaios ocorrem. Na idade dele fica difícil”.
Seu Bino completa:
“Muitas vezes os meninos me trazem de carro ou meus filhos vão me buscar em Piabas, mas já andei muito a pé para puxar congo”.
O grande desejo desta banda é o reconhecimento de seu trabalho e de sua história, principalmente o reconhecimento do Capitão Bino.


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jose vicente
 

parabens pelo trabalho!
sempre acredito que tenho conterranos talentoso assim como vcs,
parabens mesmo!!!!

jose vicente · Brasília, DF 15/5/2010 09:57
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Andre Pessego
 

E nesta ordem, cabe-nos muitas perguntas. Cabe ao Mundo Inteiro muitas perguntas. Vejamos a ordem.
a) A história do Congo é a mais adulterada História da Humanidade.
b) As terras do Reino do Congo foram (e são) as terras mais cobiçadas, mais disputadas da História da cobiça do homem.
c) Lendo este descritivo fiquei a me perguntar.
c.1 - Onde entra a historia do Congo nisto? A não ser a persistência do negro de não esquecer este nome, não esquecer aquela imagem: O Reino do Congo.
c.2 - Não caberia ao intelectual do Brasil, perserguir esta história tira-la das hostes das forças armadas, tira-la do interior monástico dos departamentos de Estatudos Avançados das Universidades Públicas?
Valeu, não podemos perder de vistas que um dia, na África houve o mais belo, o mais brilhante imperio da Terra - O Reino do Congo.
Abraço
andré

Andre Pessego · São Paulo, SP 15/5/2010 17:54
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