Banquete musical sem colher de chá

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Wellington Reis (em carne e osso)
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Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ
17/4/2008 · 185 · 5
 

Prestem muita atenção
Neste meu sábio latim.
É ouvir e apreender,
Tintim por tintim,
O segredo e a magia
Desta comedoria,
Que começa bem assim:


Nos idos de 2002 para 2003, estava eu jantando animadamente na casa de meu pai quando o tradicional Arthur Moreira Lima interpreta Ernesto Narazeth foi subsituído sem que eu me desse conta por um som que não identifiquei de imediato. Quando abocanhei o primeiro pedaço de peixe, ouvi uma voz que parecia brincar(ou brindar) comigo:

De curvina ou pescada,
Peixe-pedra ou camurim
Ou um peixe à sua escolha
Por melhor dizer assim
Se bem frescos, muito bem;
Congelados, bom também
Pelo menos para mim


Prestei muita atenção.

O importante é o preparo
Desta iguaria popular
O famoso escabeche
Das bodegas do lugar
Que com mimos e carinhos
Em ambientes bem limpinhos
Oferecem esse manjar


Tive certeza de que eu estava ouvindo alguém dando o passo-a-passo de uma receita. A poesia das músicas que se seguiam me fez querer emprestado o álbum, que meu pai havia ganhado do pessoal da Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão em uma de suas andaças pelo Brasil. Ouvi dia e noite todas as canções, com prejuízo do meu estômago, que se remoía a cada acondimentada. Provavelmente, o grande problema do álbum Sotaque maranhense na arte de cozinhar, de Wellington Reis e José Ignácio, é justo o problema de te fazer salivar.

O tempero ou condimento
É a mão de quem cozinha.
Diz o dito popular
Por Sinhá Maricotinha.
O restante é ingrediente:
Uma planta, uma semente
Lá da horta da vizinha


Os anos se passaram e aquele sotaque não me saía da cabeça. Fiquei curioso para saber se por acaso eu não estava perdendo outras delícias marenhenses de ouvir. Então, aproveitando a deixa do Overmundo, resolvi procurar Wellington e José Ignácio para saber se havia algum projeto em banho-maria. Wellington me respondeu prontamente, e fiquei feliz em saber que ele não estava me cozinhando, quando vi as respostas às perguntas que eu lhe havia feito por e-mail já na minha caixa postal.

Segundo o site que a dupla montou para divulgar o cedê, José Ignácio é ator, cantor, dançarino, pintor, compositor, designer gráfico e “performer” poético. Wellington Reis é não menos que isso: compositor, músico, poeta, produtor cultural, produtor de cinema, roteirista e fundador dos corais São João e da Universidade Federal do Maranhão (lê-se úfma). Também criou o bloco Vagabundos do Jegue, “na linha irreverência versus anarquia”, segundo ele próprio. Como se bastasse, ambos são gourmets, sendo que Wellington se define pela seguinte tirada: “Não existe carne de segunda! E, sim, cozinheiro de primeira”, lugar em que ele modestamente se enquadra.

Segue a entrevista para ser saboreada pelos bons de garfo:


Overmundo: Como é que foi que surgiu a idéia do cedê Sotaque maranhense na arte de cozinhar? Você e José Ignácio já se conheciam? De onde?

Wellington Reis: A idéia surgiu assim: quando criança, sempre escutava a minha mãe cantarolando musiquetas e, dentre as musiquetas, uma inventada por ela para fazer um mingau de araruta, por sinal, uma das minhas primeiras incursões na cozinha. Mas, foi em um dos momentos etílicos sociais com amigos de praia, lá pras cinco da tarde, em que o meu apetite mandou recado, que pedi um tira-gosto. Quando me chega, especificamente, um sururu no leite-de-coco, me passei com vontade até a primeira e última garfada, com o conteúdo vindo a areia. Estava tão ruim que fiz uma música, in loco, nominando-a “Sururu fuleiro”. Era o gancho que faltava! Como bom maranhense, mas com jeito baiano na morosidade, aproveitei a maré de quarto e compus a primeira música sobre o Cuxá, aproveitando a idéia latente de fazer músicas com receitas. Tão cedo não saí da metade daquela que seria a segunda música, utilizando o Caruru. Deixei a idéia dentro da minha “caixa de sapatos”, uma espécie de cofre aberto das minhas intenções artísticas, aguardando, quem sabe uma boa parceria.
Decorrido algum tempo, Dona Zelinda Lima, maranhense e pesquisadora de mão-cheia, lança o livro Pecados da Gula – comeres e beberes das gentes do Maranhão. Cá com os meus botões, eu disse: “Eis a parceira”. Conversei com a minha amiga escritora, e, quando já havia esquecido do convite feito, ela me apresentou três letras. Busquei melodias e acertos nos poemas, mas debalde foram os meus esforços: não encontrei a veia popular nas canções. A caixa de sapatos estava ali mesmo.
Convidado para compor a trilha sonora do espetáculo teatral Viva El Rei Dom Sebastião, do teatrólogo Tácito Borralho, na primeira reunião, dei de cara com o Zé Ignácio. Na época, fazíamos parte da equipe da Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão. Eu, como coordenador de Ação e Difusão Cultural e ele como Chefe de Gabinete. Em comemorações aos aniversariantes do mês, já me deliciava com as saborosas iguarias preparadas pelo competente ator maranhense. Eis que surge a primeira pesquisa de campo com o elenco do El Rei... até a distante Cururupu, mais precisamente à Praia do Lençol. Uma aventura em desventura: onze pessoas, embarcação pequena, baia do tubarão, mês de setembro, vento e maresia fortes faz todo o elenco provar do desprazer de um naufrágio. Mas, com El Rei e toda a sua corte de encantados ao nosso favor, conseguimos chegar ao nosso destino. Na volta, o medo e o respeito nos fazem aumentar o caminho e nos obriga a pegar um ônibus em um lugarejo, beira de braço de mar. Eu e o Zé, sentados no mesmo banco, começamos a trocar figurinhas. Em pouco mais de duas horas, já sabia que ele gostava de cozinhar, inventar pratos, tocava violão, teclado e, às sabidas, arriscava composições musicais. Claro, falei dos meus projetos e soube que o meu amigo, dublê de compositor, tinha uma intenção similar. O espetáculo acontece e, algumas luas após, final de tarde, o meu novo e grande parceiro adentra a minha sala de trabalho e joga uma folha de papel sobre a minha mesa, dizendo: “Tomas... é isto que tu queres?” Era uma letra com o título Mocotó. Pra quem nunca tivesse preparado essa iguaria era ler o poema, ir pra cozinha e sair pro abraço.
Não. Na verdade, faltava uma coisa: música. Eu disse: “É e não é!” Naquele sublime momento, falei dos nossos ritmos - que ele tão bem conhece - da possibilidade de compor cada prato em um gênero musical, etc. No dia seguinte, mesmo horário, a letra de Cuxá estava em minhas mãos e, juro, passe de mágica a melodia veio à minha cabeça:

Cuida, menina,
Vai pro pilão,
Tem que socar com a mão.
Se não tiver
Pilão, meu amor,
Vai no liqüidificador!
(Vai no liquïdificador!)



Overmundo: Como é o processo de composição em cima de uma receita? Você conhece outros trabalhos semelhantes?

Wellington Reis: Então, como já citei anteriormente, solicitava ao Zé Ignácio uma letra - por exemplo, “torta de camarão” - para ser musicada no sotaque de zabumba. Ele, sabendo preparar a comida, e conhecedor do ritmo, já versificava pensando, e, até mesmo já ia compondo, na marcação solicitada. Às vezes uma letra não se encaixava numa linha melódica que eu vinha desenvolvendo, aí então eu tinha que efetuar aquela cirurgia necessária, mas, tudo dentro do pensamento do parceiro. E se eu não soubesse cozinhar, como iria fazer?! Difícil, né?!
Talvez por esta razão, eu desconheça outros trabalhos semelhantes. Apenas músicas isoladas compostas por monstros sagrados do quilate de Dorival Caymmi, Vinicius de Morais, Chico Buarque... as quais não deixaram de servir de estímulo ao nosso pensamento.


Overmundo: Quem foi que selecionou as receitas para as composições? Foi você mesmo?

Wellington Reis: Eu selecionei as receitas baseado no que seria um banquete maranhense. Portanto, não se trata de um álbum de comidas típicas maranhenses. O cuxá, em vias de ser tombado patrimônio imaterial, é o único prato típico maranhense como eu o considero.


Overmundo: Você cozinha?

Wellington Reis: Minha mãe se aposentou no quadro do Estado como cozinheira - das melhores! - do Palácio dos Leões. Meu pai, na mesma instituição, encerrou suas atividades funcionais como copeiro. Desde criança, na década de 1960, com meus oito anos de idade, já freqüentava e desfrutava dos quitutes preparados para o deleite dos governantes. Festas e mais banquetes, sempre tinha tortas de camarão, peixadas, os cuxás da vida, cremes de bacuri e cupuaçu, doces de espécie e tudo o mais capaz de acariciar o mais fino paladar. Em casa, a festa era menor, mas o prazer era incomensurável, devido às altas doses de carinho que a minha mãe, ainda hoje, coloca na comida. Só não aprendeu quem não quis. É como costumo dizer: “Não existe carne de segunda; existe, sim, cozinheiro de primeira”, que é como me considero.


Overmundo: Qual a faixa do cedê que você mais gosta de comer?

Wellington Reis: Gosto de comer todas, inclusive o estojo como sobremesa. [rsrsrs]


Overmundo: Alguém já veio dizer a vocês que uma receita ficava melhor assim e não assado?

Wellington Reis: Nunca ouvi nenhum comentário acerca do melhoramento e/ou aprimoramento das receitas contidas no Sotaque.... Minto. Certa vez, em uma fila de supermercado, fui argüido por um deputado federal maranhense - cozinheiro ocasional -, por ter colocado creme de leite como um dos ingredientes da Caldeirada de Camarão. Para encerrar a conversa, disse-lhe que aquela era a minha caldeirada, a mesma que turistas, como ele, gostam de comer! Fazendo uma perigosa analogia com o futebol, creio assim: no Brasil, cada torcedor se considera um técnico. Na cozinha, basta saber acender um palito de fósforo, diferenciar sal de açúcar; mel de limão, para se arvorar cozinheiro e sair inventando e mudando receitas.


Overmundo: O que você faz quando não está compondo? Você e o José Ignácio se apresentam em shows, eventos etc.?

Wellington Reis: Quando não estou compondo; estou criando formas de viabilizar as minhas criações. Funcionário público, afastado temporariamente das minhas funções, adianto os meus projetos de vida para quando a “famigerada” aposentadoria se fizer presente, não me encontre de calça curta, esperando a morte chegar.
No mais, temos recebido alguns convites para shows e realizado poucos, devido à mediocridade dos cachês apresentados. Só agora conseguimos arregimentar uma banda, com poucos músicos polivalentes, capazes de produzir um efeito sonoro parecido com o do álbum. Logo, temos que pagar razoavelmente essa turma, não gratificá-los.


Overmundo: O que você está fazendo agora? Quais são os projetos que você está desenvolvendo?

Wellington Reis: Pois é, Viktor, tenho trabalhado em outros projetos, senão vejamos: tenho um bloco de carnaval chamado Vagabundos do Jegue, na linha “irreverência versus anarquia”. Estou compilando algumas músicas temáticas (já gravadas), como Invejoso, Caloteiro, Amigos do Alheio, Fofoqueiro, o Chato, e compondo outras mais para reuni-las em um cedê, tipo Substantivos masculinos [rsrsrs], uma espécie de homenagem a essa turba especialíssima. Na mesma série estou compondo outras músicas na nossa “pegada” junina. Dois livros - Causos musicais maranhenses e Receitas perdidas nos Cafundós do Judas - sendo escritos. Com um parceirinho dos bons, estou compondo músicas para um cedê sobre meio ambiente, e, conversando com o Zé Ignácio sobre a possibilidade de compor um segundo álbum, talvez na mesma temática, utilizando outras receitas, completando o ciclo.
Atualmente, travo batalha com a edição do devedê/cedê do Sotaque.... Como sempre, querendo fazer um trabalho qualitativo e esmerado, o orçamento ficou salgado. Por conseguinte, o projeto foi elaborado por uma produtora da terra, que sempre busca o ótimo e o melhor para a realização dos seus trabalhos, e, completou a festa, deixando-o “incomível”. Em suma: aproveito as águas e as flores de abril para retemperar a idéia.


Overmundo: Você tem fome de quê?

Wellington Reis: Eu, particularmente, tenho fome de tudo que alimenta a alma. Sinto um apetite voraz por coisas que deixam o meu coração mais feliz.


Overmundo: Sua música alimenta o espírito?

Wellington Reis: E como! Especialmente o espírito apolíneo.

Abra o vinho e faça um brinde
Especial à boa mesa
Beba e coma com vontade
Inclusive a sobremesa
Eu que não fui convidado
Digo aqui muito obrigado
E vou saindo à francesa

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Tãnia Barros
 

Olá, Cultura Brasil!
Muito bom conhecer mais um compositor de nossa terra, nosso Brazilzão. Sorte ao Wellington Reis.

Tãnia Barros · Rio de Janeiro, RJ 16/4/2008 11:30
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Helena Aragão
 

"Se a língua agüenta por que não bota pimenta?... Ai!"
Você devia ressaltar no começo que não se deve ler este texto (nem ouvir esta música) se estiver com fome... É cruel!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2008 15:06
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Viktor Chagas
 

hehehe...


É caruru... É caruru...
É caruru...

O ponto dele é entre
O pirão e o angu


:)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2008 15:11
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Aepan
 

Votado... Airton Engster dos Santos...
Abraços

Aepan · Estrela, RS 18/4/2008 05:20
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ayruman
 

"Wellington Reis: Eu, particularmente, tenho fome de tudo que alimenta a alma. Sinto um apetite voraz por coisas que deixam o meu coração mais feliz".
*** Oi Viktor. Maravilha de texto. Revelações importantes, surpresas agradáveis e muita, muita riqueza Cultural.
Sucessos!!!
Um grande abraço Ayrumânico. jbconrado

ayruman · Cuiabá, MT 2/9/2008 14:21
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Sotaque maranhense... zoom
Sotaque maranhense...

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Cuxá Orquestrado, de Wellington Reis e José Ignácio

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