Bar do Tião: um retrato da história do samba

Arquivo do Bar.
Mestre Tião: músico e compositor dentro do bar em que criou junto com sua esposa
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Phelipe Janning · Florianópolis, SC
28/10/2008 · 131 · 7
 

Um dos pontos mais tradicionais de samba raiz, seresta e choro, se prepara para ser tombado como Patrimônio Histórico Artístico e Cultural de Florianópolis. O espaço que já foi morada de João Batista de Almeida, Tião, diverte e encanta os apaixonados pelo ritmo boêmio desde 1991. O repertório vai de Cartola, João Nogueira, Chico Buarque e Lupicínio Rodrigues a compositores da Ilha, como o próprio Tião, Rolando Mello, Jaisson Dias e o Neco, quem compôs uma música em homenagem ao bar do Tião.

Um dos primeiros bares a oferecer como atração principal o samba de raiz, nasceu da idéia de dona Ivonete, esposa de Tião (ambos já falecidos), para que pudesse segurar o marido em casa. Aos poucos, o encontro de amigos que acontecia sempre às sextas-feiras, ganhou projeção e virou referência na cidade. Tem como público alvo o mais diverso possível. Vão desde músicos e sambistas a universitários, políticos, intelectuais e moradores da comunidade. Dos 18 aos 80 anos, o objetivo está em unir apreciadores do samba de qualidade, o samba de raiz.

Além das apresentações, o bar cumpriu a função de formar uma nova geração de músicos. Muitos deles foram alunos de Tião, ou aprendiam nas rodas de improviso a arte do samba. Neta dos fundadores, Ana Cristina Furtado (Mika), 22 anos, cantora e percussionista, é quem atualmente administra o bar e aprendeu a música observando o avô a dar aulas. “Antes não havia músicos contratados, eles iam chegando e começavam a puxar as serestas, com canções de Cartola e Dorival Caymmi.” Hoje o bar tem músicos contratados, responsabilidade que divide com Walmir Sheibel, músico tradicional da casa.

Foi lá que a cantora Camélia Martins, 27 anos, cantou pela primeira vez em um microfone. Há quatro anos divide o palco com outros músicos e participa dos ensaios e das apresentações de sábado. Aprendeu a gostar do ritmo com o pai, mas foi no bar que conheceu o samba de verdade. “Eu sempre quis trabalhar com música, a influência veio da família, mas o incentivo, do próprio Tião.”

Freqüentador assíduo desde os 10 anos de idade, Luiz Sebastião, 32 anos, músico, aprendeu os primeiros acordes do violão no espaço, quando acompanhava seu pai nas rodas de seresta. “Toco no bar desde o tempo em que não tinha som eletrificado, era só para os boêmios. Músicos do país inteiro vieram para acompanhar o Tião.”

A tradicional “canja” sempre é oferecida pelos músicos que chegam e contribuem com o repertório. Figuras cativas como Glauco e Namã, Carlinhos do pandeiro, Celso do violão, Chico Camargo do cavaco, Luiz Meira do violão e a cantora Nice sempre estão presentes. Do cenário nacional, nomes como Almir Guineto, Noite Ilustrada e Yamandu Costa já passaram pelo bar.

Com um repertório diversificado, Mika garante que uma noite nunca é igual a outra. São quatro horas de música ao vivo, dois cantores por noite acompanhados de violão, cavaco, pandeiro e tantan. Fora os músicos que aparecem, a banda oferece “música boa e muita animação”, melhor mesmo, só apreciando ao vivo.

Projeto

A iniciativa de tombamento é um projeto de lei, de autoria do vereador Márcio de Souza, 49 anos, do Partido dos Trabalhadores (PT). Protocolado em 22 de setembro de 2008, na Câmara Municipal de Florianópolis, tem como objetivo, garantir a continuidade das atividades, preservando o movimento cultural que marca a história do samba no Estado. “Além de representar a nossa cidade, Tião foi responsável pela formação de muitos músicos. Pode ser considerado também como patrimônio imaterial, por toda a sua história.” O bairro também ganha uma função cultural mais abrangente, facilitando a vida de músicos e produtores locais, ressalta o vereador.

Texto publicado por Phelipe Janning no Jornal Notícias do Dia, em 07/10/2008 - Florianópolis/SC.

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Helena Aragão
 

Phelipe, já estive no bar do Tião (com ele ainda por lá, comandando a massa) e gostei bastante do clima caseiro. Literalmente, né, porque era a casa dele aberta para quem quisesse entrar e ouvir um samba. Para mim foi uma grata surpresa em Florianópolis, confesso que não esperava encontrar esse tipo de coisa por aí. Também achei bem bacana um que rolava numa garagem de barco (mas não vou saber te precisar o nome do bairro...). Será que ainda rola? Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 28/10/2008 13:26
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Higor Assis
 

Quando for ai será passagem obrigatória em minha agenda.

Higor Assis · São Paulo, SP 28/10/2008 16:10
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Felipe Obrer
 

O Bar do Tião é um bom lugar pra dançar. Um lugar ótimo. Cerveja e samba.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 29/10/2008 21:45
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Carlos Mota
 

mais uma dessas pérolas que habitam o grande cenário brasileiro,
perdido em sua imensidão
parabéns Pheelipe Janning e, saúde...!
abraço,

Carlos Mota · Goiânia, GO 13/11/2008 11:12
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Renato Turnes
 

O Bar do Tião é o reduto da boemia e do samba em Floripa. As noites são animadas, com música boa, o clima é de fundo-de-quintal e, totalmente na paz. Parabéns pra Mika, que toca o projeto dos avós com tanta dedicação e pelo Phelipe, meu amigo, pelo texto.

Renato Turnes · Florianópolis, SC 17/2/2009 22:35
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Dayse_floripa
 

Entrei e me cadastrei para parabenizar vcs pela linda homenagem ao meu querido Tião. Vou ser muito breve, pois não tenho muito espaço para tanta história.
Meu pai, Willy Langn Filho (gaucho do pandeiro) era afilhado do Tião. Eu cresci em minha casa na Lagoa da Conceição com o Tião fazendo samba lá em casa e me ensinando a tocar violão ( tempos maravilhosos). Subi muito morro com os dois, cantando e tocando pandeiro (porque violão eu não me atrevia na frente do meu mestre). As filhas do Tião estudavam na mesma escola que eu, tínhamos muitas coisas em comum.
A Ivonete (esposa do Tião) era uma pessoa maravilhosa. Eles nem moravam no Monte Verde ainda ( aliás, meu pai ajudou a fazer a mudança para lá). Coincidência ou não, minha mãe faleceu e logo em seguida faleceu a Ivonete. O Tião faleceu e logo em seguida foi meu pai (acho que eles combinaram).
O tempo passou, hj sou professora da rede Municipal de Florianópolis, coordeno uma sala informatizada, muitas coisas aconteceram em nossas vidas, mas a saudade é imensa.
Muito bom, que pessoas como vocês, resgatem um pouco da história do samba em Florianópolis, e principalmente a memória do meu querido Tião.
Há, meus quinze anos e os meus dezoito anos foram regados a muito samba do Tião no pátio da minha casa.
Um abraço
Dayse Castilhos Langn

Dayse_floripa · Florianópolis, SC 8/7/2009 21:08
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Phelipe Janning
 

Obrigado Dayse,
Bom que histórias como esta acontecem, para que possamos, mesmo que brevemente, fazer parte delas.
Abraço!

Phelipe Janning · Florianópolis, SC 8/7/2009 23:25
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