Basaia: vitória do talento e do trabalho

Claudio Oliveira
Vitória: Trabalho muito, sou muito disciplinada. É daí que vem o crescimento.
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eduardo ferreira · Cuiabá, MT
16/11/2006 · 167 · 8
 

Ela nasceu no Rio de Janeiro, morou em Goiânia e atualmente reside em Várzea Grande, cidade vizinha da capital matogrossense, Cuiabá. Já ganhou inúmeros prêmios em diversos salões de arte. Vive do que cria e produz. Sua casa parece um museu de arte. Do Universo Inquieto de Vitória Basaia – Arqueologia Urbana, é o título de sua última exposição na UFMT.

O artista plástico, historiador e doutor em Comunicação e Semiótica (PUC/SP), Serafim Bertoloto, curador da Mostra, é parceiro de 12 anos e é assim que ele vê a casa de Basaia:“Na casa, nada escapa à sua interferência, que vai desde tapetes, sofás, móveis da cozinha, demais utensílios, até os lustres. Tudo tem o sabor, o odor, o bolor Basaia.”


Carregar a vitória no próprio nome há de imprimir uma certa responsabilidade em quem o leva, afinal nomes não são impunes, nomes mexem com as pessoas.Vitória Basaia é assim, vitoriosa, porque é uma artista que se entrega de corpo e alma. Calma, sei que isso é um clichê insuportável, mas ela é assim mesmo. Faz parte de um time de artistas que abraça seu modo de vida como quem se agarra à última tábua de salvação: se é que existe salvação nesse mundo louco.

Mas louco é quem me diz, que não é feliz, já cantou Arnaldo Baptista.


Mas esses artistas, (ben)ditos loucos, que vivem com tamanha carga visceral todos os momentos de sua vida é que tocam o imponderável, atingem um lugar especial na história humana. Quando é assim, tudo em volta se torna motivo e motivação. A casa da Basaia, por exemplo, é mais que uma casa, é suporte para suas criações também, é uma instalação em estado de mudança constante, é exposição permanente. A casa expõe sua vida, como ela é, como alimenta o cotidiano, que é totalmente entregue à arte como se tudo fizesse parte do divino. Parte dos seres que criam e recriam as coisas. Dá outras finalidades a objetos descartados. E por aí adiante. A cada passo nos corredores da casa, a cada transição de um ambiente para outro, um espanto! Em todos os recantos uma entidade surge como ser elemental – parece que ela só revela o que já está aí, como uma fotógrafa de almas – seres impressos nos suportes invisíveis que carregam marcas dos tempos.

Fala Basaia: “Dia a dia vamos aperfeiçoando. Aquilo que fiz ontem já não é mais nada. Aquele aprendizado de ontem possibilita uma coisa maior hoje.”


Conheci Vitória Basaia numa situação semelhante à que ocorre hoje, aqui, agora, ao elaborar essas linhas, onde tento filtrar seus assombros – vejo-a percrustando mundos silenciosos e fantasmáticos. Semelhança como espelho invertido, na época (por volta de 1996), ela estava como jornalista, ela me entrevistou a partir de uma obra conceitual (uma quase-escultura) que expus num evento coletivo na época. Ela saiu do jornalismo e mergulhou nas profundezas abissais da alma, da arte, do fazer, em constante ebulição, mudou de rumo, mudou de prumo, mudou a forma de se equilibrar no lodoso terreno da linguagem visual – pictórica, pois ela já estava produzindo pinturas e outras experiências. Sem retóricas, ela é uma espécie de bruxa aos olhos singelos dos mais simples dos mortais. Nada de fogueiras agora, a bruxaria agora é outra espécie de comportamento, mais inofensivo, menos capaz de abalar sistemas religiosos ou a moral baseada em valores conservadores e medrosos. Nem a vaidade ela cultiva, ela é bastante despojada, assim mesmo: simples, direta, tranquila – um olhar bovino comovente, uma paz interior que se expressa nesses olhos com verdade inabalável. Ela recebe as pessoas com o coração aberto, a mente tranquila, com o costumeiro despojamento, como se tudo fosse a coisa mais normal do mundo, e acaba que é.

O que o crítico, ensaísta e escritor José Castello diz: “Observamos os seres misteriosos de Vitória e podemos pensar em uma tela de Braque como o “Grande nu”, guardada no Centre Pompidou, em Paris. A aparência primitiva é a mesma. O esforço para se limitar ao essencial e ao mais antigo, também. O gosto solar, a falta de medo do infantil, a liberdade extrema de quem faz o que quer.”

Nada de misticismos. Mágico é quem vê, quem apura o olho – e todos os demais sentidos: a epiderme, o velho coração que bumba gravidades, o arrepio da arredia alma, as vozes que emitimos, os sintomas que revigoramos todos os dias quando a chama se acende para o novo. O mundo está aí com todas as possibilidades. Assim, vamos brincando de desvendar, vamos abrindo os brinquedos até suas entranhas e descobrindo que o grande barato é - o TAO (tal) d-o vazio, que não adianta buscar nada além das superfícies, dentro só cabe a semente para renascer um dia, mas ninguém consegue mergulhar nas profundezas mais abissais. Então é preciso morrer para nascer, morrer todo dia – nascer no dia seguinte, como o sol, como os sorrisos que emitimos quando sentimos o calor da vida se espalhando pela superfície rugosa de nossa pele exposta ao sol.

Palavras de Ludmila Brandão, arquiteta e historiadora, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP: “Basaia está entre aqueles que se lançam no projeto de inventar o mundo, do começo ao fim. Como máquina de criar universo (o único paralelo que temos é o divino), concebe seus elementos, forja criaturas, constrói-lhes moradas e, ao fim de tudo, sopra-lhes no rosto, instintos e narrativas. É assim que compreendemos o projeto poético de Vitória Basaia.”

Nada de novo no front, tudo de novo no nada de novo no front, as mesma coisas todos os dias em seu estado bruto, o olhar é que muda, o jeito de ver, de sentir, de viver. Vitória Basaia me interessa, aguça meu olhar, aguça meus instintos, emoção, razão, causa espanto e admiração. Suas inquietações são nossas inquietações de ver um mundo tão perdido em conturbações. Nada se resolve, tudo se esvai como matéria morta. Parece que sentimos uma urgência em fazer as coisas quando nos deparamos com sua obra. Ela transmite essa urgência como uma mensagem cifrada, impressa em cada objeto que transforma: seja esculpindo, montando, torcendo e retorcendo ao fogo; cortando com tesoura; moldando; sempre com as mãos, nossa primeira ferramenta, extensão básica, natural demais. Ela utiliza metais, plásticos de garrafas pet, bonecas velhas, trapos, mouses inutilizados, periféricos de diversos aparelhos eletro-eletrônicos, latas, enfim, de todo tipo de material, de onde vai tirando formas, (re)criando seres do lixo cotidiano produzido pela sociedade contemporânea que exacerba em consumismo desenfreado.
Ela parece dizer: “Gente, calma, pra quê essa pressa toda?...”

Ela diz: “Acho que tudo é passível de se tornar arte. É uma questão de aguçar o olhar, é o encontro que reside daí. Me fascina muito poder trazer beleza da desordem de todo caos.”

Para ela, não existe limites, a imaginação pode transportar para infinitas formas e conceitos. Com sua aguçada criatividade, tudo pode se revelar à luz da arte, tudo pode se transformar em formas belas, grotescas, mágicas, carregadas de sentido e sentimentos. O mundo é o próprio suporte, pois sobre toda superfície cabe um conceito artístico, uma forma de transcendência. Esse é o ponto em que Basaia supera qualquer desconfiança: será arte? Aposto que ela não está nem aí. Sabe o que faz, faz o que não consegue deixar de fazer, faz por que sua arte se afirma com tranquilidade nesse mundo ultra poluído e que sofre com a banalização da imagem. Ela baliza de outra forma: suas inquietações dialogam com os mundos ditos invisíveis.

“O suporte não tem limite. Na verdade a minha arte acontece, ela não é pré-elaborada. De repente eu estou aqui fazendo, está acontecendo. Um material está ali, jogado há anos e de repente aparece outro, então rola um encontro, o lugar exato onde ele pode ser encaixado. Agradeço a Deus todo dia que eu possa ser esse canal, energético, de comunicação com as pessoas, de comunhão. Isso, pra mim, é criação.”

Ponto final? Não! De repente ela está lá, agora, em sua casa mágica, fazendo, fazendo, fazendo...

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Claudiocareca
 

Extraordinário! Visitar a casa da Basaia devia estar no guia de Cuiabá, ou melhor, de Várzea Grande. ehehe.
Só fiquei triste porque cabem apenas seis fotos, e eu acho que fiz umas 40!

Claudiocareca · Cuiabá, MT 16/11/2006 19:19
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eduardo ferreira
 

careca, para sua informação a Casa da Basaia está no Guia 4 Rodas. abs.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 17/11/2006 11:18
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Rodrigo Teixeira
 

que beleza de matéria manu! Basaia é a 'figura necessária' neste mundo louco! A arte liga o homem a Deus, por isso o artista é um veículo e tem de saber disso. Fico pensando quanta arte sai destes Matos... aliás, como diz Geraldo Espíndola: 'ARTE AQUI É MATO!'... abs rodtex

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 18/11/2006 00:06
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eduardo ferreira
 

Arte Aqui é Mato é o título do último livro da querida Aline Figueiredo. Geraldo deve estar citando a velha guerreira...valeu rodtex. nossos Matos se unem através da arte...abs

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 18/11/2006 18:52
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Jota Cesar
 

Pô! Eduardo, parabéns. A arte inspira arte; que matéria velho!
E o movimento continua; nós e o mundo; só assim o caldo encorpa.
Abração

Jota Cesar · Várzea Grande, MT 28/12/2006 16:24
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eduardo ferreira
 

esse caldeirão tá fervendo jota, fervendo...

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 29/12/2006 16:44
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linney
 

Belo texto,belas imagens.

linney · Canoas, RS 19/6/2007 13:37
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MERIREU
 

Oi, Faz tanto tempo...
Coloquei duas elucubrações no Overmundo e supreso fiquei de ver tantos conhecidos e amigos, de tempos de ontem e do tempo de hoje. Você como sempre uma grande artista. Eu simplesmente dei uma brecada e nunca mais desenhei e nem pintei, não sei ficou tudo sem côr. Eu só vendia cansei e fui pro meu sitio no pé do Morro Torári(Stº. Antonio) e deixei o mundo passar. Tenho um site: www.merireu.net e assim vou rolando o tempo e dando um apoio ao Museu Rondon. Qdo tiver tempo dá uma "espiada" no Merireu da overmundo. A Valéria minha querida amiga é sua Super fã. Abração
Antonio João-Merireu

MERIREU · Cuiabá, MT 30/4/2010 11:36
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