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Batalhão de Bacamarteiros de Aguada/SE

Dayse Rocha
O Mestre no comando
1
Dayse Rocha - DonaDeusa · Pirambu, SE
6/7/2007 · 166 · 9
 

Diário de São João


Data: 24 de Junho de 2007
Destino: Povoado Aguada – Carmópolis/SE
O que: Batalhão dos Bacamarteiros

Antes de tudo demos uma rodada pelo “Povoado”, é bom
que se frise PO-VO-A-DO, organizadíssimo e com cara de cidade, parabéns a gestão pública do município de Carmópolis: Ginásio Poli- Esportivo, Mercado Municipal, Clube Social, Colégio, Unidade de Saúde ampla, em fim, tudo muito arrumadinho, ruas pavimentadas, estruturas pintadas, praça, igrejinha tudo no seu lugar.

Bom, mas vamos ao objetivo principal da nossa viagem, após anos e anos de convite do Mestre e Organizador do Batalhão de Bacamarteiros, Idelfonso, que atualmente também é Vereador, conseguimos chegar a Aguada, fomos bem acolhidos por D. Zuleide, esposa de Idelfonso e toda sua família, que também nos serviu um delicioso almoço com direito a camarão de água doce da região e canjica de sobremesa.

Nada de descanço, fomos para a rua acompanhar o percurso do Batalhão, e presenciar uma autêntica manifestação popular e folclórica do nosso rico Estado.
Os brincantes acompanhados pela batucada que envolve apenas os instrumentos percursivos: pandeirinho (pequeno mesmo), onças (lembra uma cuíca, mas não é) e ganzar, puxam uma “pá” de pessoas da comunidade e visitantes numa alegria só. Os comandos saem do apito do mestre que impõe seu cajado e aí de quem ousar desobedecer.
O apito possui diversas sonoridades, uma indica advetência, outra diz PARE, e outra diz: pode mandar brasa ou melhor fogo.

Nas localidades escolhidas por ele, o grande Mestre diz: “Vamos carregar”, traduzindo colocar pólvora nos Bacamartes e prepare os corações e saiam de perto, que o estrondo vai disparar até alarme de carro (aconteceu com o nosso); é muito forte esta manifestação, não só pelo tiro mas pela energia das músicas e dos passos que mexem com todo seu corpo, é gostoso está no meio deles.

A cada parada eles bebem muita cachaça, dançam nas casas escolhidas e na casa de Idelfonso recebem uma boa merende como ele diz, mas na verdade é uma grande panelada de carne; como agradecimento mais tiros de bacamarte.

Outra coisa interessante que existe é um código, ou melhor, uma penalidade aplicada a quem não consegue ficar em pé depois do tiro ou quem derruba o bacamarte no chão; para este desacerto paga-se 6 cerveja para o grupo.

E a caminhada continua pelas ruas da cidade. Eles entram na Igreja (ponto principal para eles) e soltam mais tiros; depois se encontram com a dissidência do grupo, os Bacamarteiros de Pinga Fogo, e a festa continua por muito tempo...

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Pedro Rocha
 

Oi DonaDeusa, legal seu relato, mas senti falta de algumas informações históricas sobre a manifestação cultural. Outra coisa que eu sinto falta é das palavras do seu Idelfonso ou de outros participantes da histórias, mas isso já é mais complicado de resolver depois da apuração.

No mais, é só acrescentar um espaço entre os parágrafos para ajudar na leitura.

Parabéns pela colaboração.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 4/7/2007 15:49
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Priscila Silva
 

Parabéns, obrigada por nos apresentar esta maravilha!

Priscila Silva · Vila Velha, ES 5/7/2007 10:26
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André Teixeira
 

Dona Deusa,

estéticas literárias aparte, o que importa é a alma 'estampi(a)da no texto como os tiros do bacamarte.

Parabéns pelo registro,

GRANDE abraço!!!

André Teixeira · Aracaju, SE 6/7/2007 14:12
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Hermano Vianna
 

DonaDeusa: muito obrigado pelas notícias desse povo maravilhoso de Carmópolis. Aqui vai uma entrevista que fiz - acho que em 1998 - com Seu Manoel e Dona Zuleika, do Batalhão do Bacamarteiros, para o projeto Música do Brasil:

Seu Manoel tira versos no Batalhão de Bacamarteiros de Aguadas, município da Carmópolis, Sergipe. O nome diz tudo: o batalhão é formado por amantes do bacamarte, aquelas espingardas do tempo da Guerra de Canudos (alguns bacamartes do batalhão foram realmente usados nessa guerra). Eles saem pelas ruas, no tempo das festas juninas, atirando para todo lado e ensurdecendo todo mundo. E, como não bastasse tanto barulho, os bacamarteiros ainda são acompanhados por por músicos que tocam uma espécie de coco, em instrumentos construídos por seu Manoel, que também é carpinteiro. Essa conversa (minha atuação mais provocante como entrevistador) foi registrada na casa onde ele vive com dona Zuleica, sua principal mulher na atualidade:

eu – O senhor foi muito namorador?

ele – É a minha profissão. Pra namorar eu sou profissional. Hoje não posso mais porque já tô velho. Mas quando eu era novo, eu não deixava escapar não. Eu adorava.

ela – Mas ainda namora...

ele – Mas agora mais devagar...

ela – Ele já nasceu namorador.

eu – Vocês são casados?

ele – Não. Eu nunca me interessei pelo casamento. Porque eu vivi com muitas pessoas ao meu lado. Aí acostumei. Quando aquela pessoa não tava de acordo, se eu não mandasse chegando, ia chegando eu mesmo. Aí eu procurava outra e já ia vivendo. Continuando a vida...

eu – Com quantas mulheres o senhor casou?

ela – Ave Maria!

ele – Êh, meu irmão, seis mulheres. São seis famílias que eu tenho.

eu – E a senhora conhece as outras famílias?

ela – Conheço tudo.

eu – E não reclama não?

ela – O que é que eu vou fazer? Eu não quero deixar ele.

eu – As outras mulheres, a senhora conhece?

ela – Conheço.

eu – É amiga?

ela – Não. Mas os filhos dele tudo vêm na minha casa.

eu – Mas ela não pode namorar com outro, pode?

ela – Ó...

ele – Aí complicou um pouquinho, né?

eu – Por que?

ele – Sei lá, é o hábito da gente...

eu – Qual a diferença entre o homem e a mulher?

ele – Tem muita. A mulher é que nem um pano branco. Qualquer coisinha mancha. Pegou uma manchinha já não tá branco. O homem como qualquer outro selvagem. (ela ri) Nada pega nele. Ali ele se suja de visgo de jaca, mas passou o gás, tirou o visgo, pronto, tá limpo. E a mulher, não existe como limpar ela de jeito nenhum.

eu – A senhora concorda com isso?

ela – Ô, tem que concordar.

eu – Por que?

ela – Porque é.

eu – Eu acho que a senhora devia se revoltar.

ela – O que é que eu vou fazer?

eu – Dar uma surra nele.

ela – Mas eu não posso namorar, eu não posso...

eu – Mas por que não?

ela – Eu não posso namorar.

ele – Veja só como é, né? O homem tem um direito sagrado.

ela – Eu já tenho minha filha com quatorze anos, outro com vinte, outra com vinte e quatro. Tenho um em São Paulo com vinte e dois. Eu vou fazer o quê?

eu – E por que vocês não se casam já que estão morando juntos há vinte e cinco anos?

ele – Não... Vamos ver adiante, né?

CONTINUA NO COMENTÁRIO ABAIXO

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 6/7/2007 14:29
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Hermano Vianna
 

CONTINUAÇÃO:

eu – Adiante quando?!!

ele – Eu sou honesto com ela...

eu – Mas o senhor namora...

ela – É honesto, mas já teve seis mulher... E filho? E neto?

ele – Mas bem pudera. Eu sou um homem que cumpro a minha palavra. Porque não sou casado, nada tenho que dar a ela. Mas eu já comprei um terreno, já fiz uma casinha, tá quase construída. Já entreguei a ela, é dela por título e papel.

ela – Ele registra os filhos todo.

ele – O que é meu, é dos meus filhos.

eu – Mas o senhor acha melhor ser livre?

ele – Livre. Porque ninguém reclama. Porque eu tenho muita família. Fica tudo igual.

eu – Mas a senhora queria casar...

ela – Claro. Eu não queria morrer solteira não. Eu queria morrer casada.

ele – Mas num casamento, o bom é a gente viver em paz, respeitar um ao outro. Faz o que precisa, dá assistência conforme seja o poder da gente. E o que eu posso fazer com ela eu faço, o que ela pode fazer comigo faz. Cuida de mim, eu cuido dela.

eu – mas como é que a senhora imagina que seria seu casamento? Vestida de branco?

ela – Isso aí eu não vou pensar porque não vai acontecer mais não. Mas era de branco. Entrava na igreja nós dois. Eu com o padrinho. Chegasse lá o padrinho entregava a ele. Olha que coisa linda, néra?

eu – Quem seria seu padrinho?

ela – Se você tivesse pelaqui, eu chamava você?

eu – mas eu quero casar com a senhora!
(Risos)

ela – Ê brincadeira. Mas eu já tô velha. Você sabe quantos anos eu tenho?

eu – Quantos?

ela – Já tenho quarenta e sete anos...

eu – E ele?

ela – Sessenta.

eu – Mas ele ainda segura o rojão?

ela – O quê?!!! Até demais!

ele (rindo) – Mas veja só...

eu – Dá pro gasto?

ela – Dá! Mas dá mesmo!

eu – Na hora H, ele...

ela – Oxente!!!

ele – Ah, não vai escapar não, né rapaz?

ela – Ele comeu muita carne, muita jabá, chupou muito caldo de cana nas usinas. Eu também como muita carne, só como muito, só gosto de comer muito, pra ficar muito talentosa.

ele – A gente tem que se manter forte. Se o cabra não passar bem, ele é fraco. Tem que passar bem para ser forte em todos os sentidos. É forte no trabalho, forte na viagem, forte na conversa, forte no tratar, forte no respeito, forte – agora que nem o ditado – forte no namoro, é forte em tudo. Tem que ser forte.

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 6/7/2007 14:30
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Zezito de Oliveira
 

Valeu Hermano!!!
E quando estará novamente disponivel o material gravado do projeto Músicas do Brasil?
Fui colega de universidade de um cara que esteve morando em Sergipe, no ano em que o trabalho foi produzido, o Alessando Amorim, o qual participou da produção local e assisti a um ou dois programas pela MTV.
Quanto ao material postado por DonaDeusa fiquei feliz porque sentia falta de matérias de Sergipe sobre a produção no campo das culturas populares tradicionais. Da minha parte sempre que posso, envio informações sobre a produção por parte da moçada da periferia.

Abraço

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 9/7/2007 19:54
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Hermano Vianna
 

oi Zezito: queremos colocar tudo na internet - estou batalhando para ver tudo no ar o mais breve possivel - abraços

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 9/7/2007 20:07
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Dayse Rocha - DonaDeusa
 

Poxa adorei todos os ocmentários, tentei colocar o que vivi naquele dia, pois sempre tive o Bacamarteiros realizando a abertura do Culturarte, encontro cultural de Pirambu, mas como estava na organização nunca dava para acompanhá-los e sentir isto no domingo foi muito legal, desculpem pois escrevo sob impulso e nem sou boa nisto, sei das minhas "limitações literárias"..Hermano falei com Idelfonso que esteve aqui como o batalhão no sábado e ele disse que lembra da entrevista! legal né!bom abraços em todos e sempre que puder estarie colocando algo que vivenciarei da nossa rica cultura. Zezito,Priscila, André e Pedro valeu os comentários

Dayse Rocha - DonaDeusa · Pirambu, SE 10/7/2007 19:03
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Labes, Marcelo
 

Caramba! Por onde eu andei enquanto essa matéria estava sendo publicada? Belíssimo texto, belíssima troca de informações nos comentários!

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 17/8/2007 00:53
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