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Batidas e planos

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André Maleronka · São Paulo, SP
6/3/2006 · 148 · 5
 

Munhoz é um produtor e MC de São Paulo. Ano passado, acumulando participações em coletâneas e um disco independente com seu antigo grupo Ascendência Mista, investiu novamente no esquema As próprias custas S.A. pra colocar na rua Batidas e rimas vol 1. O CD conta com instrumentais, que ele assina como Prof. M.Stereo, e raps, aliado a vários novos talentos da rima. No meio tempo ele produziu bases prum monte de gente, e em dezembro de 2005 se deu bem no The Freestyle Mix Contest, promovido pela revista estadunidense de tecnologia Wired. O concurso de remixes era baseado em um CD encartado na revista, com músicas de 16 artistas, entre eles Beastie Boys, David Byrne, Gilberto Gil, Dan The Automator e DJ Dolores. Todas eram licenciadas através de Creative Commons, mas com diferentes restrições. Veja a faixa aqui. O remix que Munhoz produziu, usando elementos de canções dos grupos Spoon e Matmos, foi um dos 11 escolhidos pra figurar no CD The Wired - Ripped. Mixed. Sampled. Mashed. Shared. Você pode escutar todas as outras a versões selecionadas aqui. Depois de sacar a notícia na rede dei uma olhada no Orkut. Com uma rápida troca de e-mails estabelecemos contato via MSN, e perguntei a ele sobre o estado das coisas.

O rap nacional tem um circuito próprio, estruturado e tal. Como você se vê dentro dessa história?

Mano, já freqüentei mais, já fui mais envolvido. Hoje em dia, o circuito que eu faço é praticamente nas casas underground, que tocam a maioria das bandas, mas numa minoria delas, que são as que são um pouco mais abertas. Putz, velho. Você sabe que em cada cena existem cisões. No hardcore mesmo, existem milhões. Porque já que vão colocar a gente na prateleira como produtos em algum momento, que seja com os produtos certos. Velho, mas separação não existe, minha preocupação não é essa. É fazer música e ouvir as pessoas. São mundos diferentes, mas a força da inércia nunca deve ser desprezada. Você criar uma transformação na mente e no comportamento das pessoas demanda tempo. A gente tá tentando repensar, porque a cena tá realmente muito fraca pra gente. E o circuito maior do rap nacional tem vínculo com rádios etc..., também não anda muito bem. Mundialmente 2005 não foi um ano bom pro rap. Foi um ano de entressafra, não saiu nada de realmente significativo. 2006 já tá prometendo ser muito melhor.

Até pra você? Porque em 2005 você lançou um CD mixtape com produções suas, fez shows, tava na final do Banda Antes MTV, e rolou essa parada da Wired.

Começando pela Wired. Ah. Sei lá. Eu fiz porque achei que podia ser interessante. Aí, fui selecionado, me mandaram 10 CDs e pronto. Na Wired é uma parada instrumental, muito mais pro trip hop. Eu fiz muitas coisas, trabalhei duro durante o ano, aconteceram coisas pra mim, só que, no geral, foi um ano ruim na verdade. A gente vive querendo que as coisas se solidifiquem, que apareçam grupos novos de qualidade, que os eventos continuem acontecendo. E isso até tá rolando, mas é tudo muito incipiente, na minha visão. Alguns avanços tão rolando: tão saindo vinis nacionais, o Parteum ganhou artista revelação no Hutúz, eu fiz o especial do Banda Antes. É trabalho - a gente ainda tá na época da semeadura.

MP3 ajuda?

Como diria o saudoso Vicente Matheus, isso aí, de baixar música de graça, é uma faca de dois legumes.

Mas nessas de disponibilidade, de construção do conhecimento deu um baita adianto, ou você acha que não?

Com certeza dá um baita adianto no acesso. Mas não ensina as pessoas a ouvir música. O vinil tinha uma relação diferente. Você colocava o disco e ficava ali, ouvindo uma parada por meia hora. Ouvia as músicas na seqüência. Tá cada vez mais difícil das pessoas se conectarem com a música. As pessoas têm muito menos paciência e atenção. Mas na real, a gente passou por duas mudanças de paradigma tecnológico e as anteriores persistem, então tudo coexiste: vinil, e aí, CD e aí os MP3 players e os iPods. Só que o lance é o seguinte, hoje um idiota bem informado baixa um milhão de músicas num laptop e vai tocar numa festa. E aí pode fazer um repertório com nenhuma coerência mínima.

E as licenças de Creative Commons?

Tem um problema sério, que é o seguinte: desloca a questão dos direitos autorais. Eu sei que ele está se desenvolvendo ainda, eu sei que, da época em que eu fiz as músicas pro momento atual, já houve até revisões nos tipos de licença e tal. Mas eu acho falho esse argumento que artista não ganha dinheiro com o disco. Os independentes ganham sim. No mínimo custeia a produção do mesmo e coisas do gênero. Baixar música que não tá mais em catálogo ou difícil de achar, ou então um lançamento pra ver se gosta, é uma coisa. É uma questão muito paradoxal tudo isso. Os meios de produção musical foram democratizados, então agora vai ter um inchaço na quantidade, e isso acaba deixando as pessoas cansadas. E vai ter muita coisa ruim, então as pessoas tão cada vez mais com preguiça de novidades. Não sei onde isso pára não.

Tá, você começou a fazer batidas usando o quê?

Velho, desde moleque eu tinha piração em bateria eletrônica, mas nunca tive uma. Cheguei a fazer música usando o PC lá pelos idos de 95, nuns trackers via DOS, basicamente umas experiências. Aí eu comprei uma bateria eletrônica que fazia umas linhas de baixo, mais um sampler baratinho, e gravava nuns 4 canais. Comecei a fazer música no computador mesmo, mais ou menos na virada de 1999 pra 2000.

Atualmente, o que você tá usando de equipe pra fazer som?

Praticamente o computador. Um par de monitores de referência pra poder mixar, um controlador midi. Eu sou adepto da pirataria. Então uso basicamente o Logic Audio e o Fruity Loops. Dependendo do resultado o Reason. E VSTs a rodo. Um monte de vinis, samples e drumkits que eu fui colecionando com os anos.

Você fez batida pra uma pá de gente, né? O que saiu mais do seu agrado?

Putz velho, às vezes é complicado, porque poucas vezes eu fiz uma batida específica pra alguém. Eu faço e as pessoas escolhem. Na maioria das vezes é assim.

E como você começa? Pela batida, pela melodia?

Não tenho uma fórmula. Às vezes eu tenho uma melodia e aí vejo o que vou fazer com ela, tento programar as baterias. Às vezes acho um loop e aí monto a bateria em cima. Às vezes corto samples. Às vezes, me arrisco por terrenos bem diferentes, e cada vez é uma forma, cada sample oferece um desafio. O segredo é nunca perder mais de 30 minutos com uma idéia. Se não tá fluindo, ou pula pra próxima ou vai ler um livro, ver um filme.

O que você tá usando, que tipo de sample e peças?

Velho, isso varia também. Música negra, isto é, quase toda música que foi produzida nos últimos 100 anos. Do blues do delta, passando por vários estilos de jazz, rock, até Detroit techno nas suas origens, quando era gueto mesmo, era música de preto - eram pretos que faziam e pretos que ouviam.

Você se preocupa em deixar o teco inteiro do som original irreconhecível ou não?

Como eu não tenho ligação nenhuma com a indústria até o momento, posso samplear o que eu quiser, sem muitas preocupações. É legal sempre samplear de uma maneira pouco óbvia, cortar, rearranjar, mudar o tom, o tempo. Mas ? s vezes você acha o loop perfeito e é simplesmente uma burrice cortá-lo. Tudo depende da profundidade da pesquisa que você faz.

Som bom em São Paulo quem tá fazendo?

Hurtmold. Se eu for falar do rap, não paro mais. Mas no hip hop, é o Parteum. É o único cara que ainda me surpreende, tanto musicalmente quanto rimando. Porra velho, tem muita gente fazendo um som legal em Sampa. Cabe às pessoas simplesmente procurarem.


Queria saber do futuro também. Tem algum plano ou deixa rolar?

Planos eu tenho, só que tô numa fase de bloqueio criativo fudido. Mas é isso: minha nova mixtape Beats e rimas volume 2, minha estréia como MC solo ainda sem nome, um disco todo instrumental do Prof M.Stereo e um DVD registrando a cena de hip hop independente de São Paulo.

Tipo documentário? Você que tá fazendo?

Não sei ainda o formato desse DVD. Mas acaba sendo documentário porque provavelmente vão ser registros de shows e depoimentos. A gente tá captando imagens aos poucos.

O foco é nos artistas de rap indie ou tem rap nacional também?

Rap indie. Na verdade, é um esquema bem punk. Não tem equipe, não tem porra nenhuma. A gente pega os amigos que têm câmera disponível na época, vai filmando e já vai decupando o material. Eu vou tentar editar eu mesmo. Tá em fase bem embrionária. Ninguém faz nada, então o lance é arregaçar as mangas. Não adianta chorar depois.

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yve
 

é isso aí andré...

yve · Campinas, SP 8/3/2006 10:45
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Cervan
 

Munhoz,como sempre quebrando tudo,falando com propriedade,uns dos pricipais produtores/mcs da atualidade,representando ó rap subterrâneo.

Cervan · Piracaia, SP 18/3/2006 08:55
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lobisoman
 

Achu importante ter pessoas como munhoz, pois o rap precisa disso, e achu o trabalho dele muito bom como todos adeptos desse stylo aki no Espirito Santo.
E achu importante lança um trampo oficial, mesmo ki seja independente.
Pois precisamos suprir a carência do nosso mercado com trabalhos diferentes.
Muitos não conhecem, pois naum encontram,nem todos acessam a net, nem todos
conhecem esse mundo.
Mesmo ki seja dificil, tem que ter mais trampos nos postos de vendas, fico feliz do Parteum te colocado na rua seu trampo.
Mais tem ki ter mais ..muito mais..
Coragem irmãos...chego a hora..de se joga !!
Tem muita gente precisando ouvir nosso som.
Paz !! Sucesso...pra todos !!
De lobisoman e BSP .
lobisoman@hotmail.com

lobisoman · Serra, ES 3/4/2006 20:59
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achr
 

Vi esse cara num programa da MTV.
É genial o seu som, algo diferenciado.
Pena que foi uma pequena amostra do seu trabalho.
Alguém ai pode me indicar onde consiguo o trabalho dele?
Salve, salve Munhoz!!!
Paz pra todos.

achr · Porto Alegre, RS 8/4/2006 19:52
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André Maleronka
 

achr, tem um linkno próprio texto que leva a página do cara na tramavirtual, e ele tem uma comunidade no orkut também, onde ele mesmo costuma responder a perguntar coisas pra galera. abs!

André Maleronka · São Paulo, SP 18/4/2006 17:38
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