Batuque no Quilombo

Claudia Rangel
Riqueza nas cores, nos sons e na devoção.
1
Ilhandarilha · Vit√≥ria, ES
31/3/2008 · 241 · 23
 

O Ticumbi, ou baile de Congo de S√£o Benedito, √© uma manifesta√ß√£o religiosa e cultural que acontece em Concei√ß√£o da Barra, Esp√≠rito Santo, nos dias 31 de dezembro e 1 de janeiro. Mas a festa come√ßa antes, com os ensaios que o grupo comandado pelo Mestre Terto (Tertuliano Balbino) realizam a partir de outubro at√© dia 30 de dezembro, √ļltimo e especial ensaio.

O √ļltimo ensaio do Ticumbi √© sempre especial: esse ano come√ßou √†s 18h, com a sa√≠da do velho √īnibus fretado da frente da casa do Mestre Terto, em Concei√ß√£o da Barra, rumo ao s√≠tio e casa de Ti√£o de Veio, √†s margens do Cricar√©. O s√≠tio √© cercado de mata e √°guas do rio. Em volta do galp√£o onde o ensaio se realizou os integrantes do Ticumbi, do Reis de Bois - comandado por Ti√£o de Veio - e os convidados disputam espa√ßo com vira-latas, perus, galinhas p√©-duro e porcos no quintal de ch√£o batido e areia.

O primeiro ensaio √© dos donos da casa, o grupo de reis de bois do Mestre Ti√£o de Veio. O ensaio de reis foi impressionante e emocionante para quem, como eu, nunca tinha visto ao vivo uma apresenta√ß√£o de reis e n√£o entendia o sentido da manifesta√ß√£o. O canto inicial, feito diante da porta fechada, √© de profunda beleza, quase um m√£ntra espiritual. Depois a porta √© aberta eles entram e ensaiam todos os c√Ęnticos e dan√ßas do reis. Embora eles n√£o estivessem paramentados, os cantos e dan√ßas impressionam.

Depois dos donos da casa √© a vez do Ticumbi de S√£o Sebasti√£o ensaiar. Foi tamb√©m meu primeiro contato com o auto. Todas as informa√ß√Ķes que eu tinha sobre o Ticumbi viraram poeira diante da for√ßa dos versos, das dan√ßas, da batida dos pandeiros e da representa√ß√£o falada dos reis, secret√°rios e embaixadores.

A hist√≥ria que se desenvolve no auto do Ticumbi √© a da disputa entre o Rei de Congo e o Rei de Bamba pela primazia de fazer a festa de S√£o Benedito. Essa disputa se d√° pela palavra (por meio dos di√°logos rimados entre os personagens), da coreografia (que simulam lutas) e das m√ļsicas. Nos di√°logos do auto, fatos contempor√Ęneos da pol√≠tica local e nacional se misturam aos fatos hist√≥ricos e √† devo√ß√£o de forma √†s vezes jocosa, fazendo rir os assistentes.

Ao fim do ensaio o galpão virou pista para um animado forró que durou até o dia amanhecer e os barcos chegarem para levar os participantes para Conceição da Barra. Durante a madrugada, além do forró e da pinga, os donos da casa serviram um farto jantar, muito café e biscoitos maria. E o papo rola solto: os contadores de causos sempre a postos para desvendar os segredos do Ticumbi para os visitantes ou para relembrar velhas histórias da comunidade. No Ticumbi de São Benedito todos os integrantes são descendentes diretos dos quilombos que se instalaram na região e velhas histórias é o que não falta para passar o tempo da longa noite de espera para cumprir a devoção ao santo.

Pela manhã, insones, os velhos senhores desceram a ribanceira do rio para um banho coletivo e a troca de roupa: a camisa suada do forró foi substituída pela camiseta branca oficial da festa. Agora é esperar os barcos. Os fogos avisam ao pessoal da comunidade de Barreiras, localizada rio acima, que logo o Ticumbi estará lá para pegar o santo, que está sob a guarda da comunidade e do jongo das Barreiras, e levá-lo de volta à sua igreja, em Conceição da Barra.

A chegada dos barcos atrasou um pouco. Na beira do rio Mestre Terto fitava a dire√ß√£o da barra com ar preocupado. Mas a chegada deles, enfeitados de bandeirolas coloridas, desfez toda preocupa√ß√£o e todos embarcaram, inclusive os visitantes e curiosos que tinham enfrentado com eles a madrugada de festa e f√©, rumo a Barreiras, rio acima, onde o pessoal do Jongo espera na margem para tamb√©m embarcar com o santinho preto de ‚Äúoinho miudinho‚ÄĚ, como eles costumam se referir ao santo.

Em Barreiras todos saem dos barcos e vão cantando e dançando até a igrejinha da comunidade, onde o santo está hospedado. Voltam com a imagem e o povo da comunidade canta:

S√£o Benedito vai simbora
Vai visitar Nossa Senhora

Assim, o povo do Ticumbi, do Jongo, os moradores e visitantes desembarcam no cais de Conceição da Barra e são acompanhados pela multidão, reunida à espera do santo, até a igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, onde o Ticumbi vai buscar outra imagem do santo para levar até a igreja de São Sebastião, do outro lado da cidade.

Essa caminhada foi feita já debaixo de um quente sol de verão. Eu, cansada e sem dormir desde a manhã anterior, não conseguia parar de pensar em como aqueles velhos senhores conseguiam forças para uma maratona daquelas, que estava apenas no início, já que festa duraria ainda até o final do dia 1 de janeiro. Durante todo o dia 31 os integrantes do Ticumbi cumprem as visitas às casas dos festeiros, que são moradores da cidade que recebem o Ticumbi com almoço, lanche e jantar.

No dia seguinte, primeiro de janeiro, a maratona recomeça. Logo cedinho os congueiros estavam na igrejinha de São Sebastião, desta vez paramentados com as roupas típicas do Ticumbi, que é branca e muito rica em rendas, fitas e flores coloridas.

Dia primeiro de janeiro é o grande dia para o Ticumbi de São Benedito. A missa na igreja é dedicada ao santo e tem participação efetiva dos congueiros. A apresentação é de gala. A TV está lá gravando e os congueiros são os astros. O povo em volta faz roda para o início da apresentação, que dura mais de uma hora.

Na hora do almoço perguntei ao Mestre Terto: de onde vocês tiram tanta força para tudo isso? Ele apontou para o céu e me olhou nos olhos: de lá, disse. Eu pensei cá comigo que só mesmo uma força divina pode manter esses senhores com idade média de setenta anos de pé, cantando e dançando, durante três dias seguidos, sempre com a alegria no rosto e disposição para responder às perguntas bobas como a minha.

A festa seguiu pela tarde adentro, com o Ticumbi indo de casa de festeiro em casa de festeiro e culminou num animado forr√≥ na casa da √ļltima festeira a receber o Ticumbi, dona Rosa Dealdina. Mas dessa parte eu n√£o participei: apesar de estar hospedada na casa de dona Rosa, quando o forr√≥ come√ßou o sono j√° havia me vencido e nem mesmo a sanfona e o arrasta p√© na varanda me despertaram.

(quer ver mais fotos do Ticumbi?)

compartilhe

comentŠrios feed

+ comentar
Helena Arag√£o
 

Lindo relato, Claudia! Já tinha visto o vídeo, que dá uma amostra de uma pequena parte disso tudo que você conta. Deve ser uma experiência inesquecível. Só não ficou claro pra mim se é uma manifestação que já foi descoberta pelo turismo (pelo seu relato e pelas fotos, parece que não). Imagino que vá gente do Espírito Santo para ver, mas tem gente de outros estados também?

Helena Arag√£o · Rio de Janeiro, RJ 28/3/2008 18:24
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Ilhandarilha
 

Helena, realmente, o Ticumbi √© mais conhecido pelo pessoal daqui. N√£o existe muita divulga√ß√£o da manifesta√ß√£o fora do estado. Mas alguns estudiosos da m√ļsica j√° descobriram os caras. √Č o caso do Stasi, do Duo Ello, de S√£o Paulo, que estava l√° no ensaio e na festa e vem fazendo isso durante anos.
Os turistas que estavam veraneando em Concei√ß√£o da Barra (a maior parte mineiros do interior) parece que nem ouviram falar do Ticumbi. Acho que a cidade fez uma op√ß√£o de turismo bem estranha, oferecendo aos turistas trios el√©tricos e ignorando as in√ļmeras manifesta√ß√Ķes culturais do munic√≠pio. A festa de S√£o Sebasti√£o e S√£o Benedito em Ita√ļnas √© um exemplo disso: mais de 15 grupos folcl√≥ricos festejando pela Vila de Ita√ļnas durante 3 dias e pouqu√≠ssima divulga√ß√£o dessa riqueza toda. V√° entender isso!

Ilhandarilha · Vit√≥ria, ES 28/3/2008 21:59
3 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Saramar
 

Emocionante e belo.
Obrigada por nos contar.

beijos

Saramar · Goi√Ęnia, GO 31/3/2008 08:12
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Spírito Santo
 

Grande Ilha! Grande!

Estava também, mesmo sem cobrar, esperando ansioso esta matéria. Tinha visto o material que você mandou, assim, aos capítulos. Sou completamente apaixonado por estas coisas, você já sabe. O mais engraçado que é uma paixão assim meio esquisita porque, mesmo sendo filho de capichaba, nunca fui ver o Ticumbi daí de perto. Ficava só lendo e vendo vídeos.
Esta de ler, contudo, vai me servir para alguma coisa agora porque, vi num livro angolano que tive (sumiu!) do etn√≥logo angolano-lusitano √ďscar Ribas que o Ticumbi acontece em Luanda, quase como ocorre aqui. Ele fala de uma origem africana bem remota de um rito de passagem no qual os homens se vestem de noivas (vi uma foto com aqueles mesmos lencinhos enfeitados na cabe√ßa do Ticumbi da√≠)
Li também (no livro do Luiz Edmundo 'No tempo dos Vice Reis') que Ticumbis praticamente igualzinhos a este daí, ocorriam na Corte do Rio já quando D.João VI chegou, em frente ao Paço, ali na Praça XV.
No seu texto uma boa novidade pra mim foi o enredo deles, que eu não sabia que era o mesmo, até hoje, aliás, como algumas congadas dali do 'nariz' de Minas, entrando em Goiás também fazem.

Me animei. Vou catar o livro do √ďscar Ribas na internet. Vai que reencontro o fio da meada deste tema t√£o candente para quem √© brasileiro.

Abs

Sp√≠rito Santo · Rio de Janeiro, RJ 31/3/2008 09:21
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Ilhandarilha
 

Spírito, segundo o que consegui pesquisar sobre o Ticumbi, esse nome, aqui no estado, foi dado pelo pesquisador e historiador Guilherme dos Santos Neves, que o tirou de uma das partes do auto (não sei se exatamente da parte em que eles cantam o verso: "Aruê, meu Ticumbi". Originalmente o nome da manifestação era baile de congo de São Benedito.
Não entendo todas as referências dos versos, mas me parece que tem a ver com a luta de Mouros e Critãos, assim como o Alardo, outra manifestação cultural da região.
Aproveito para consertar um erro no texto, que s√≥ agora vi: a igreja onde √© realizada a festa √© a de S√£o Benedito, e n√£o de S√£o Sebasti√£o, como escrevi. Fa√ßamos justi√ßa ao Santo! A igreja de S√£o Sebasti√£o fica em Ita√ļnas, distrito de Concei√ß√£o da Barra onde se realiza a festa de S√£o Benedito e S√£o Sebasti√£o e o festival de folclore, em meados de janeiro.

Ilhandarilha · Vit√≥ria, ES 31/3/2008 15:01
3 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Spírito Santo
 

Ilha,

Muito curiosa a sua informa√ß√£o sobre o nome da manifesta√ß√£o. N√£o conhe√ßo as alega√ß√Ķes do Historiador Guilherme dos Santos, mas, receio que elas tenham algum outro fundamento, al√©m deste que voc√™ citou. O assunto √© muito complexo mesmo, mas, algumas coisas est√£o j√° perfeitamente comprovadas e estabelecidas. O baile de Congo de S√£o Benedito da√≠ do Esp√≠rito Santo, por exemplo, tecnicamente, pode mesmo ser chamado de Ticumbi - e n√£o s√≥ por causa do verso do ponto n√£o.

Congadas (ou Congos) como j√° sabemos, √© um nome gen√©rico que se d√° a uma manifesta√ß√£o s√≥, composta por um sem n√ļmero de Dan√ßas 'de preto'(como se diz) espalhadas por este Brasil. Do pouco que sei, estas dan√ßas s√£o todas aparentadas, variantes que s√£o de uma matriz cultural localizada, exatamente, num lugar que hoje chamamos de Rep√ļblica Popular de Angola (e adjac√™ncias). A raz√£o √© √≥bvia: A maioria esmagadora dos escravos do Brasil, vieram desta regi√£o.

Pouco se fala disto porque existe na Academia o que chamo de ‚Äėreducionismo Nag√ī‚Äô que atribui tudo da cultura negra brasileira ao Candombl√© bahiano-nigeriano, desvio fruto dos equ√≠vocos racistas de Nina Rodrigues e quejandos, fazer o qu√™?

Historicamente, a origem social desta manifesta√ß√£o das Congadas (caracterizada pelos seus diversos tipos de dan√ßa) guarda talvez (eu acho), de um lado, uma forte liga√ß√£o com pr√°ticas diplom√°ticas africanas muito antigas e comuns nas culturas do continente, notadamente, na regi√£o etnoling√ľ√≠stica conhecida como '√°rea bantu' (embaixadas guerreiras ou diplom√°ticas marcadas pela curiosa utiliza√ß√£o protocolar de m√ļsica e dan√ßa). Pois √© desta primeira vertente, ao que parece, que nasceu o auto teatral africano (por ser o enredo, t√≠pica e literalmente, africano) 'Ticumbi', descrito por Luiz Edmundo (exatamente, com este nome) no livro que citei acima.

Por outro lado, esta pr√°tica das Congadas 'africanas' (Ticumbis) parece, pelo que se diz por a√≠, ter sido utilizada (ou tolerada) pela igreja cat√≥lica, como instrumento de evangeliza√ß√£o e catequese (acultura√ß√£o), desde que sincretizada, misturada √† manifesta√ß√Ķes de rua t√≠picamente europ√©ias (como as prociss√Ķes e as quermesses, por exemplo).

√Č desta segunda vertente, digamos, 'cat√≥lica' que algumas Congadas (n√£o todas) assimilaram este enredo da Luta dos Mouros e Crist√£os que, pelo que pude constatar, vem do livreto medieval europeu denominado, se n√£o me engano, "Carlos Magno e os doze pares de Fran√ßa' (um √©pico popular em versos, sobre as Cruzadas) , muito usado pelos jesu√≠tas (ous eriam os capuchinhos?) como material did√°tico em sua evangeliza√ß√£o, pelo menos a partir do s√©culo 18. O livreto (que √© na origem, pura literatura de cordel) famos√≠ssimo no mundo colonial de ent√£o, virou um best seller, passando a ser o enredo deste tipo de Congada, enquanto o outro enredo, o ‚Äėafricano‚Äô, foi desaparecendo, sincretizando-se.

O Ticumbi angolano que citei (o do √ďscar Ribas, o das ‚Äėnoivas‚Äô), contempor√Ęneo que √© deste nosso a√≠ do ES, deve ser uma mistura parecida (mas nunca igual) pois, a influ√™ncia da cultura portuguesa em Angola (em Luanda), √© tanta (ou at√© maior) quanto a que ‚Äėsofremos‚Äô aqui no Brasil. Curioso √© que o figurino do Ticumbi de l√°, √© id√™ntico ao da√≠. Impressionante.
Complexa ‚Äďe esperta- a nossa diversidade, como podemos ver.

(Desculpa a√≠...quase fiz uma outra mat√©ria. √Č que j√° tinha estas reflex√Ķes prontas, no meu livro)

Grande abraço

Sp√≠rito Santo · Rio de Janeiro, RJ 31/3/2008 16:06
3 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Sinvaline
 

Que bela manifestação cultural, fiquei com vontade de conhecer quem sabe um dia! Belo, belo, votado com muito prazer
bjs
sinva

Sinvaline · Urua√ßu, GO 31/3/2008 20:22
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Denis Sen@
 

Muito bom!!!

Viva a pluralidade cultural!

http://www.overmundo.com.br/overblog/graffiti-na-galeria-do-conjunto-cultural-da-caixa

Denis Sen@ · Salvador, BA 1/4/2008 00:50
1 pessoa achou ķtil · sua opini„o: subir
Hermano Vianna
 

oi Ilhandarilha: adorei o relato de todos os momentos da festa - acho que seu texto poderia ser o início de várias coberturas nacionais: uma sobre festas para São Benedito e Nossa Senhora do Rosário (já vi várias, e muito diversas entre si, em todo o país: o marambiré do quilombo do Pavocal no município de Alenquer (perto de Santarém, Pará) ou no maçambique da cidade de Osório no Rio Grande do Sul) - mas formidável mesmo seria uma série (quase infinita, por certo) descrevendo todas as festas de santos que acontecem pelo Brasil afora!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 1/4/2008 01:51
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Andre Pessego
 

Ilha, que bom, duas vezes bom
a) a receptividade - demorou tão pouco na fila de votação;
b) as solicta√ß√Ķes de mais e mais.
E assim nos convence de que nenhuma guerra acabou crença alguma, que a beleza, a vontade, o desejo do belo vai triunfar.
um abraço, andre

Andre Pessego · S√£o Paulo, SP 1/4/2008 05:38
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Regina - poesia em volta
 

Relato muito interessante, assisti ao Congo na Barra do Jucu há alguns anos, coisa de apaixonar. Este de Conceição da Barra que você conta nos detalhes deu água na boca. Abraço.

Regina - poesia em volta · Volta Redonda, RJ 1/4/2008 09:37
1 pessoa achou ķtil · sua opini„o: subir
Ilhandarilha
 

Sp√≠rito, isso do nome do Ticumbi ter sido introduzido por Guilherme Santos Neves eu tirei desse texto do Rog√©rio Medeiros. O Rog√©rio √© jornalista e fot√≥grafo que recebeu tamb√©m o t√≠tulo de vassalo do Ticumbi, devido ao seu trabalho de pesquisa e divulga√ß√£o da manifesta√ß√£o, que j√° dura anos. √Č dele quase todo registro fotogr√°fico do Ticumbi at√© os anos 90, quando outras pessoas come√ßaram a se interessar pelo baile de congo.

Hermano, acho a idéia de fazermos aqui uma espécie de levantamento e registro de relatos das festas de santos "dos pretos" que ocorrem no Brasil muito boa. Aqui tínhamos, até meados do sec. XX, uma irmandade do Rosário muito forte. Os relatos das festas antigas realizadas pela irmandade são muito ricos. Pena que essa tradição acabou, ou pelo menos se tornou inexpressiva. O forte aqui hoje é a festa da Penha (que aliás terminou ontem), padroeira do estado.
√Č a grande festa religiosa do estado. Apesar de ser totalmente comandada pela igreja, h√° manifesta√ß√Ķes em comunidades isoladas, como a de Roda D'√†gua, em Cariacica, onde a padroeira √© festejada com o Congo de M√°scaras. Dizem que a tradi√ß√£o do Congo de M√°scaras veio do fato dos escravos fugidos quererem prestar sua homenagem √† santa e inventarem as m√°scaras para n√£o serem reconhecidos durante a festa. As m√°scaras e uma estranha indument√°ria de folhas de bananeira tornavam imposs√≠vel a identifica√ß√£o dos participantes do congo. At√© hoje roupas e m√°scaras s√£o usadas em Roda D'√Āgua na ocasi√£o da festa da Penha. A banda do Congo de M√°scaras tem ainda um outro diferencial em rela√ß√£o √†s bandas de congo do estado que √© o fato do Mestre usar uma esp√©cie de megafone artesanal feito de folha de flandes para "puxar" a cantoria. √Č bem bonito de se ver.

Ilhandarilha · Vit√≥ria, ES 1/4/2008 13:00
3 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Ilhandarilha
 

Em tempo: entrei agora no link do marambiré e não é que as roupas e enfeites são muito parecidas com as do Ticumbi? Interessante isso, não? Como já disse o Spírito, essa conexão deve ser mesmo via Ticumbi Angolano.

Ilhandarilha · Vit√≥ria, ES 1/4/2008 13:10
3 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Jo√£o Everton da Cruz
 

Que coisa linda essas fotos e as manifesta√ß√Ķes religiosas dos Quilombolas. Esses espa√ßos s√£o importantes para divulgar e sensibilizar as pessoas quanto as comunidades afrodescendentes.
Um abraço cheio de nuito axé.
Jo√£o Everton

Jo√£o Everton da Cruz · Nossa Senhora das Dores, SE 1/4/2008 14:01
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Felipe Obrer
 

Já tinha visto as fotos e ouvido relatos esparsos diretamente de ti, nos e-papos em tempo real, Ilha, mas agora fiquei contente ao ver tudo condensado nessa colaboração...
Além disso, pude ver que gerou comentários bem mais relevantes que este meu.

Beijo e até já,
Felipe

Felipe Obrer · Florian√≥polis, SC 1/4/2008 14:54
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Roberto Girard
 

Ilha,
Que beleza este seu trabalho de divulgação de "O Ticumbi, ou baile de Congo de São Benedito", tudo o mais já foi dito nos comentários acima.
Excelente!
Abs
Beto

Roberto Girard · Rio de Janeiro, RJ 1/4/2008 17:45
1 pessoa achou ķtil · sua opini„o: subir
Spírito Santo
 

Fui lá no texto do Rogério Medeiros que você linkou citando a versão sobre o nome do Ticumbi.
Permita que eu volte ao asunto porque ele, embora não pareça, tem uma importancia fundamental neste caso.
Ticumbi, Cacumbi e Cucumbi s√£o, na verdade a mesma palavra para denominar aquelas dan√ßas 'aparentadas' sobre as quais eu falei. Etmologia √© uma das chaves principais para o estudo destas coisas. A palavra origem de tudo √© Nkumbi, que vem de uma l√≠ngua angolana (preciso conferir se √© Kimbundo, Mbundo ou Benguela). Todas estas l√≠nguas, gramaticalmente semelhantes costumam ser declinadas com prefixos, dos quais o 'Ka' √© o diminutivo e 'Ku' o infinitivo. o 'Ti' √©, certamente, um destes prefixos(posso verificar). No caso do 'Ka', observei que toda manifesta√ß√£o original, recebe aqui o prefixo diminutivo, como uma esp√©cie de chancela de que 'suced√Ęneo' do original (√© o caso de Ka-Ndombe, que deu em Candombl√© aqui no Brasil)
O importante da hist√≥ria, como sugeri acima, √© que neste campo, praticamente tudo est√° a ser pesquisado sobre o assunto por culpa de um formid√°vel equ√≠voco, muito recorrente em nossas ci√™ncias sociais que √© desconhecer que a hist√≥ria e a cultura do negro brasileiro n√£o se inicia quando ele chega aqui, escravizado, ela √© muito anterior a isto, anterior at√© √† pr√≥pria exist√™ncia do Brasil. Sem estes nexos com a cultura negra l√° na √Āfrica, n√£o se conseguir√° compreender absolutamente nada, virando tudo estas vagas suposi√ß√Ķes e especula√ß√Ķes espalhadas aqui e ali por honestos, por√©m (nem sempre, √© claro) equivocados estudiosos.
Desculpe insistir neste ponto, mas, considero necessário e urgente que aspectos de nossa cultura tão importantes, como este que você tão bem levantou, se encaminhem para um rumo, cientificamente mais lógico.

Abs

Sp√≠rito Santo · Rio de Janeiro, RJ 2/4/2008 07:30
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Ilhandarilha
 

Sp√≠rito, contribui√ß√£o bem rica essa sua. Por n√£o entender essas conex√Ķes √© que a gente acaba agindo e pensando com a √≥tica eurocentrista, esquecendo que outros possibilidades de civiliza√ß√£o existem.
Veja se acha esse material sobre o Ticumbi de Angola. N√£o fazia a menor id√©ia de que esses prefixos eram declina√ß√Ķes verbais (para n√≥s ocidentais os sufixos √© que s√£o declina√ß√Ķes, n√©?). Grande aula! Isso vai entrar no seu livro?

Ilhandarilha · Vit√≥ria, ES 2/4/2008 17:46
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Spírito Santo
 

Ilha,

Na verdade isto (esta cr√≠tica a √≥tica eurocentrista de nossas ci√™ncias sociais) √© o cerne do livro. Andei garimpando hoje e descobri coisas mais 'viajantes' ainda (o tema √©, como j√° disse, apaixonante e quase que totalmente virgem no Brasil). Achei a pista do livro na internet mas, do texto em, si, nada. Amaldi√ßoei mil vezes a pessoa que surrupiou o meu livro do √ďscar Ribas que, lembrei agora, se chama "Izomba".
O tema geral do livro - do qual me lembro bem- √© que me deu este insigth sobre esta dicotomia no estudo da cultura negra brasileira (que afinal , devia ser tratada como cultura brasileira, simplesmente, n√©?). Veja s√≥: "Izomba' √© um livro que trata de associativismo e recreativismo na cultura tradicional angolana, desde o s√©culo 19. Fala portanto da ancestral tradi√ß√£o angolana de se organizar em sociedades secretas (como o Jongo que -pasme- antes de tudo, na origem, √Č isto: Sociedade secreta). Fala tamb√©m de grupos culturais espec√≠ficos (feitos para praticar certos tipos de dan√ßa ou de m√ļsica), grupos de ajuda m√ļtua (como irmandades) e etc. Me lembro de ter visto no livro fotos de antigos carnavais em Luanda, da d√©cada de 40/50 (entre as quais vi este que se veste - e se denomina- igual ao nosso Ticumbi). O Gancho do meu racioc√≠nio √© simples: Izomba/Kizomba = Associativismo, sacou? Abrindo a cabe√ßa, abre-se um mundo de possibilidades de estudo. Do TiKunbi se pode descortinar um mundo cultural bem complexo. Over.
Bem. Parece que este é o caminho das pedras. Quem quiser seguir, é só abrir os olhos e o coração.
Abs

Sp√≠rito Santo · Rio de Janeiro, RJ 2/4/2008 18:23
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Ilhandarilha
 

Spírito, não consigo lembrar do nome dos autores, mas (não sei se já falei nisso também) li um livro chamado "Crítica da imagem eurocêntrica". Vale a pena procurar no google. Acho que tem muita a ver com sua pesquisa, embora fale mais da questão da imagem.

Ilhandarilha · Vit√≥ria, ES 14/4/2008 00:03
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Spírito Santo
 

Vou l√° agora mesmo.
A propósito, já aprontei o post 2 da série do 'Crioulo doido. Deve se chamar 'Jongo, Jinongo' ou algo assim. Quando ostar eu te dou o link.
Abs

Sp√≠rito Santo · Rio de Janeiro, RJ 14/4/2008 08:06
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Spírito Santo
 

Ilha,

Voltei - quest√£o de ordem! -:)
Revirando meus alfarrábios procurando não sei o que, achei um release do filme 'Ticumbi' de 1977/78 de um importante documentarista da época chamado Elyseu Visconti Cavalleiro (um especialista em curtas sobre folclore). Acho que você conhece.
Transcrevo parte (trechos interessantes) do texto pela curiosidade de se comparar com o seu, um relato de, exatos, 30 anos atr√°s:

"... Registro da festa do Ticumbi como se apresenta na cidade de Conceição da Barra, Espírito Santo, executada pelos remanescentes do quilombo local, notável pela pureza étnica... São 16 personagens e um violeiro, que cantam e dançam ao som de vigorosos pandeiros de influência árabe...A participação na dança é vitalícia e é regida por hierarquia no quilombo. Cada personagem só é substituido por invalidez ou morte, geralmente por seu filho ou parente próximo...O Ticumbi ou baile de Congo é uma dança dramática que só ocorre nonorte do Espírito Santo não se confundindo com nenhuma congada ou congo do resto do país (o que não é verdade). Sua origem remonta à época da escravatura quando o escravo Rogério fundou o Quilombo de Santana, nos arredores da atual Conceição da Barra...Os 17 membros participantes pertencem ao que resta deste quilombo, sendo interditada a participação de brancos e forasteiros... Postados à frente de Chico Dantas, o violeiro de 79 anos que há 62 anos brinca o Ticumbi"

O texto, ao que parece é de Ana Teresa Lemos Ramos e foram consultores do filme os folcloristas Hermógenes da Fonseca e Rogèrio Medeiros.
Seria uma boa resgatar este filme (tomara que esteja no acervo de alguma TV Futura ou Canal Brasil da vida)

Abs

Sp√≠rito Santo · Rio de Janeiro, RJ 19/4/2008 13:36
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir
Ilhandarilha
 

O folclorista Herm√≥genes (j√° falecido) era um estudioso entusiasmado das coisas da terra, especialmente do norte do estado. Tem estudos tanto na √°rea das manifesta√ß√Ķes folcl√≥ricas quanto da arte e do artesanato, bem como das comidas t√≠picas. Adoraria ver publicada parte do material que ele recolheu nos anos em que viveu. Tinha um s√≠tio √†s margens do Cricar√© onde recebia quem chegasse com seus casos sobre a tradi√ß√£o cultural de Concei√ß√£o da Barra. Rog√©rio Medeiros ainda est√° na ativa, √© fot√≥grafo dos bons e respons√°vel pela maior parte das imagens do Ticumbi que a gente encontra. √Č jornalista at√© hoje e edita o S√©culo Di√°rio, jornal online muito bom. √Č, tamb√©m, vassalo do Ticumbi de S√£o Sebasti√£o, esse a que o document√°rio se refere, e conquistou esse posto gra√ßas ao acompanhamento initerrupto que faz do Ticumbi.
Mas existem outros Ticumbis na regi√£o, o de Ita√ļnas e o do Bongado (tem fotos deles no post Benedito e Sebasti√£o). Enquanto que no Ticumbi de S√£o Benedito as coisas ocorrem exatamente como o document√°rio conta, nos outros j√° existe uma flexibilidade maior. O Ticumbi de Ita√ļnas, por exemplo, tem congueiro branco. Outra diferen√ßa √© no som deles: o de Ita√ļnas √© mais livre, mas cheio de influ√™ncias, conforme d√° pra sentir aqui. O de S√£o Sebasti√£o √© mais tradicional e parece n√£o ter sofrido modifica√ß√Ķes significativas.
Acho que j√° vi esse filme, mas n√£o tenho certeza. Valeu pela dica. Vou procurar.

Ilhandarilha · Vit√≥ria, ES 19/4/2008 14:31
2 pessoas acharam ķtil · sua opini„o: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. FaÁa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

Mestre Terto preocupado com os barcos. zoom
Mestre Terto preocupado com os barcos.
Tradição e modernidade: integrantes do Ticumbi  e do hip hop no mesmo barco. zoom
Tradição e modernidade: integrantes do Ticumbi e do hip hop no mesmo barco.
A caminho das Barreiras, vamos buscar S√£o Benedito! zoom
A caminho das Barreiras, vamos buscar S√£o Benedito!
Nas Barreiras, meninas do Jongo esperam os barcos. zoom
Nas Barreiras, meninas do Jongo esperam os barcos.
Chegada à igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição. zoom
Chegada à igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição.
Apresentação em frente à igreja: o dia de gala da festa. zoom
Apresentação em frente à igreja: o dia de gala da festa.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

VocÍ conhece a Revista Overmundo? Baixe jŠ no seu iPad ou em formato PDF -- ť grŠtis!

+conheÁa agora

overmixter

feed

No Overmixter vocÍ encontra samples, vocais e remixes em licenÁas livres. Confira os mais votados, ou envie seu průprio remix!

+conheÁa o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados