Eram 19h30, e aquela era a última matéria do dia, atravessei a cidade, mais de 8km até chegar ao Curiaú, numa quarta-feira de agosto, começavam os festejos para o padroeiro daquela comunidade. Tinha uma missão simples, pegar as informações, entrevistar algumas pessoas e fotografar o evento. Aprendemos na faculdade que temos que ser objetivos, sempre escrever na terceira pessoa e evitar as emoções. Bom, estou deixando tudo isso de lado, pois diante da cena que presenciei, não pude não me emocionar e não contar a minha impressão com tamanha beleza e riqueza da cultura de uma pequena comunidade que apesar dos tempos modernos, ainda busca manter sua tradição.
Chegando àquela igrejinha, toda pintada de branco, vejo um povo simples de sorriso no rosto. No meio deles, em destaque está um grupo de homens mais velho, vestidos de branco. Nas costas da camisa estava escrita a palavra “Folião”. Eles são os tocadores e cantadores da ladainha, são os guardiões da cultura do povo do Curiaú. Muito respeitados, não pela força, ou pelo status social, mais sim pela história, pelos seus conhecimentos.
Ao entrar na Igreja, vi as velhas senhoras, com suas saias rodadas, seus colares de balangandãs, seus rostos mostrando o tempo que passou, mas também a vontade de viver. “Não podemos morrer, pois nossa cultura não pode partir conosco” me dizem com aflição nas vozes. Na busca de manterem sua cultura, tentam convencer as mais jovens, a deixar o jeans e as músicas modernas para aprenderem a dançar o Batuque, a expressão maior de sua tradição, de seus antepassados. Será difícil (pelo que observo) as mais jovens largarem as mini-saias, que deixam a mostra a sua exuberante beleza, para adotarem as saias longas. Embora algumas jovens já se interessem pelo Batuque, como tocadoras. “Elas agora querem tomar o lugar dos homens”, disse um folião. Uma jovem rebate “E por que não?”. O impasse continua - tempos modernos, requer atitudes modernas também: “Se elas não querem dançar, que toquem então, pelo menos assim, continue existindo o nosso Batuque” diz uma dançadeira buscando uma saída para o problema.
Então me deparo com as crianças pequenas olhando com admiração para aqueles tocadores Foliões, lá na frente do altar. Quem sabe, a solução esteja neles? – me questiono.
Continuo minha observação, no altar os foliões tocam e cantam a ladainha para um jovem rapaz que sofreu um terrível acidente, ele está segurando São Joaquim, a emoção é visível em seu rosto, às lágrimas escorrem pelos olhos vermelhos, está em transe, compenetrado pela aquela cantoria, que ora é cantada em latim, ora em português. Os Foliões vão um a um até ele para beijar o santo e cumprimentá-lo.
Aquela capela parece um palco, onde está sendo encenada uma peça de teatro, ou uma cena cinematográfica, de tantos elementos cênicos que contém. É um espetáculo de cultura popular que acontece todo mês de agosto, a 8km da capital do Amapá, Macapá, no Curiaú, um resquício de quilombo, onde se pode dormir com as janelas abertas e as pessoas ainda se cumprimentam e os mais velhos são tratados como se deve, com respeito.
Quando se chega ao fim desta missa tão diferente, o povo vem até o Santo para rezar e pedir proteção para a noite que se iniciará, ao som do Batuque na Casa de dona Chiquinha.
Com tambores a posto e pandeiros na mão, os batuqueiros dão inicio a festa, a Casa de dona Chiquinha no dia 9 de agosto, serve de barracão para a Comunidade dançar a vontade, com comida e gengibirra, oferecido por ela.
E como é bonito ver as quebradas dos corpos no compasso da dança, a força das mãos dos batuqueiros, a graça nas letras do cantador e mais bonito ainda é presenciar isso tudo enquanto ainda existe. As festividades continuaram até o dia 19 de agosto, dia de São Joaquim.
Pérola, estive relendo este teu texto e vi o quanto ele é bom, espero que continue escrevendo para o Overmundo. Sei que tens coisas boas pra mostrar para nossos amigos internautas e agentes culturais de outros estados.
PauloZab · Macapá, AP 5/5/2007 15:40
Deu até vontade de ir numa onda dessas.
:)
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