Quem é a artista que tem seu nome espalhado por toda a capital da Bahia?
Inquieto, andando de um lado para o outro, selecionando esculturas... As telas já estão nas malas. É véspera da viagem para Portugal, onde vai expor, e Bel Borba fala enquanto toma as últimas providências. “Traz um charuto de, no máximo, R$ 12”, pede para seu assistente. “Esse aqui custou R$ 3, mas a vendedora disse que um cubano que passou pela loja (no Pelourinho) disse que era muito bom”, responde o assistente, um minuto depois. Com o charuto na mão, Bel finalmente se senta. “Pode começar a entrevista”, diz. “Que charuto ruim!”, são as palavras seguintes.
Ver as obras “enclausuradas” em sua loja na Ladeira do Carmo, no Pelourinho, é no mínimo estranho. Bel é artista da rua. Artista pelas ruas. Suas obras estão espalhadas pela cidade de Salvador. Difícil não associar seu nome ao da cidade. “Quem é esse tal de Bel Borba que faz tanta coisa aqui na Bahia?”, perguntou, certa vez, uma amiga minha, de São Paulo. “Quem é Bel Borba?... Está aí. Boa pergunta”, respondi. Artista completo... pinta, faz esculturas, cria mosaicos, inventa cenários de teatro... Transforma. Assina o nome pelos quatro cantos de Salvador. Impossível ficar no anonimato. Ainda mais com o bigode a lá “Salvador Dali” que cultiva há mais de um ano.
Alberto José Costa Borba, soteropolitano, filho de advogados, nasceu em 23 de janeiro de 1957. Aos 8 anos, criou sua primeira obra em xilogravura. Vendeu para uma vizinha. “Desde aquele tempo, vivo da arte”, orgulha-se. O artista chegou a cursar Direito durante dois anos, mas logo se rendeu definitivamente ao talento. A Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA) foi o passo seguinte. Não chegou a concluir. Precisava viajar demais, levando sua arte para as mostras espalhadas pelo Brasil.
Antes, chegou a trabalhar em uma agência de publicidade. Com o primeiro salário, comprou uma prancha de surfe. Pegou onda em Bali e aproveitou como pôde os anos 70. Na arte, dedicava-se principalmente à pintura com spray. “Comecei a achar o spray comercial demais. Queria algo no estilo feito à mão”, conta. Pintura a óleo foi a solução encontrada para fazer “arte com cara de arte”.
Logo estava criando cenários para peças de teatro, principalmente as dirigidas por Márcio Meirelles. Dessa forma, aprendeu a trabalhar rápido. Para estreitar o abismo entre a arte e o público, levou suas obras para as ruas. “Tudo aqui é meio céu aberto. Salvador tem essa cultura de rua”, observa, com metade do charuto em mãos.
Conhecer – e reconhecer – seu trabalho não é tarefa difícil para quem circula por Salvador. Do viaduto que liga Ondina a Garibaldi surgem morcegos em mosaico. No Rio Vermelho, orixás no Largo de Dinha abençoam quem passa pelo bairro boêmio. A feia encosta na subida para a Fazenda Grande ganha forma de uma enorme tela onde pássaros feitos em mosaico tornam a paisagem admirável.
Das ruas, para os museus. A mostra Por Favor, Não Matem Raul Seixas! passou pelo Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) e agora viaja o mundo. Antes, duas personalidades já haviam sido homenageadas por ele: Pierre Verger e Glauber Rocha. “O próximo será Márcio Meirelles. Será a primeira pessoa viva que vou homenagear”, revela.
Enquanto isso, faz planos para construir uma praça em Itaparica, local onde está localizado seu ateliê desde o início deste ano. “Vou comprar um terreno, procurar apoio para colocar a luz e os bancos. Praça é isso: luz, bancos e algumas esculturas”, conta. Mais uma vez, o artista preocupa-se em levar a arte para a população. “Dessa forma, venho contribuindo para desmistificar o fazer e o apreciar a arte”, opina. “A arte é a coisa mais exuberante feita pelo homem. A natureza tem suas belezas, o homem tem a arte”, compara, enquanto apaga o charuto...
Há 5 anos vivo fora de Salvador e mesmo antes de sair de lá costumava ver e admirar a arte de Bel Borba a pipocar pelas pelas ruas. É, pipocar, pois elas surgem de "supetão" como se já chegasse prontas e repousassem nas paredes, muros e encostas de Salvador. Um fato que bacana é encontrar a arte de Bel não só no Centro da cidade, mas também vê-la pela Periferia. É sempre bom voltar a Salvador e ficar procurando pelas novidades que este inquieto artista espalha pelas nossas ruas.
[ds] · Recife, PE 27/4/2006 19:34
Uma coisa que me preocupa é como se dará a preservação da obra do Bel? Ou será que é esse o lance, uma obra para ser viva e transitória como a cidade?
andre stangl · São Paulo, SP 17/5/2006 02:58Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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