Meu conhecimento sobre Vitor Ramil se limitava a pouco mais que a informação corriqueira: "é irmão do Kleiton e do Kledir". Quando recebi seu CD "Longes" no jornal onde trabalhava, ouvi uma vez e pensei: "Caramba, esse cara é denso". Na correria de jornal acabei não encarando tamanha densidade de novo, mas fiquei com a pulga atrás da orelha ao ler críticas bem positivas. Aí veio a oportunidade de cobrir a caravana do Projeto Pixinguinha onde ele era o principal artista.
Fui para Natal preocupada. Seria ele tão denso quanto o CD me pareceu na primeira ouvida? Seria um sujeito difícil, pouco disposto a papear? Logo descobri que não. Pelo contrário. De primeira, ele já me passou o livro "A estética do frio" e o CD “Tambong”, que eu ainda não conhecia. Ficamos de conversar mais depois, já que teríamos tempo (passaria três dias com ele e a galera na estrada). Tratei de correr atrás do prejuízo e descobri um artista impressionante. Fiquei com aquela sensação: "Que otária, como não tinha ouvido o som desse cara até agora?!" Confessei o crime e me diverti com a resposta dele, sem nenhuma pinta de bolação ou pretensão: "Você não é a primeira a me dizer isso..."
Depois de ouvir e curtir a música, meu segundo levantar de sobrancelhas foi pelo fato de nunca ter conhecido um músico que refletisse tanto sobre a carreira e sua relação com o lugar de origem. E o mais curioso era ter contato com tudo isso, com todo aquele pensar sobre o papel de um artista do Rio Grande do Sul, em pleno calor do Nordeste, nas horas que ele e o povo voltavam da praia. Nossas conversas se estenderam por almoços, ônibus e saguões de hotel (no de Mossoró, com direito a mosquitos me devorando e interrupções para ver uns sapos enormes que passavam por lá).
O livrinho “A Estética do Frio” é um dos principais resultados de tanta reflexão. Escrito para uma conferência que ele deu em Genebra em 2003, o texto trata da distância que o sulista sente dos estereótipos do Brasil tropical (o Sul, temperado, também não pode ser abençoado por Deus?). No trecho que foi para a quarta-capa do livro, ele define: "Precisamos de uma estética do frio, pensei. Havia uma estética que parecia mesmo unificar os brasileiros, uma estética para a qual nós, do extremo sul, contribuíamos minimamente; havia uma idéia corrente de brasilidade que dizia muito pouco, nunca o fundamental de nós. Sentíamo-nos os mais diferentes em um país feito de diferenças. Mas como éramos? De que forma nos expressávamos mais completa e verdadeiramente?" (um trecho maior do texto pode ser lido aqui).
Desde que escreveu isso, ele segue em busca de respostas para essas perguntas através de sua própria obra. Nada a ver com correntes separatistas do sul, música gauchesca e coisas do tipo (ele tem uma certa alergia a tudo isso). É um caminho bem pessoal, como ele contou:
"A Estética do Frio vem gerando muito interesse, não é novidade para muita gente, muitos me dizem que sempre sentiram isso e nunca chegaram a formular. No começo teve gente achando que eu estava tentando ditar regras. É coisa minha, não há pretensão de criar movimento. Mas o tempo mostra que minha expressão individual encontra eco. Quem tem uma paisagem de planície, no frio, dificilmente vai compor uma música como Caymmi ou um axé. Ele se volta mais para dentro de si. Agora, tudo isso é opinião minha, e só."
Durante a conversa, parei para pensar em alguns textos que tenho lido aqui no Overmundo. Será que só o Sul é que se sente "meio out" do país? Talvez não seja uma característica de estados de fronteira com outros países latino-americanos? Externei minha indagação e ele respondeu que até poderia ser, mas certamente não no mesmo nível... Será? Ele continuou:
"Quer ver uma coisa? Quem saía do Nordeste para fazer carreira no Rio era visto como vencedor, para os gaúchos era considerado traíra. Kleiton e Kledir foram crucificados por isso numa época. Hoje os tempos são outros, ainda bem. Não existe mais o papo separatista e nem essa idéia de traição por sair do estado. Ainda assim, o Sul continua muito peculiar no quesito 'refletir sobre si próprio'."
Para o próprio Vitor, foi fundamental sair de lá por um tempo e viver o "Brasil" (aspas dele, feitas com os dedos no vazio enquanto falava). De 85 a 91, morou no Rio de Janeiro, e foi em plena Copacabana que teve o insight para formular a "Estética". Depois (choque térmico!) voltou direto para Pelotas, sua terra natal, onde a carreira como compositor de fato tomou rumo. "Graças a esse retorno me livrei da possibilidade de me prender ao mercado. É verdade que dei sorte, porque isso aconteceu na época em que surgiu o CD, a internet... Dava para levar a carreira no interior".
E então ele passou a estabelecer uma relação bem particular com o tempo: "Minha carreira está sempre no começo, enquanto muita gente da minha geração já considera suas carreiras esgotadas. As pessoas querem fazer as coisas quando jovens, e eu estou apostando no meu crescimento sempre. Eu era muito mais velho aos 18. Como comecei cedo, as pessoas ficavam curiosas, 'nossa, como ele é jovem'. Sou o sexto filho, o caçula, todos tocavam instrumentos, eu tinha muita coisa para provar para meu pai e para mim, e se bobear ainda estou tentando me provar coisas. Ninguém pode envelhecer criando? Eu posso. E depois que refleti e escrevi a Estética do Frio, entendi que minha carreira tinha um sentido. No começo eu queria fazer tudo, não tinha uma identidade. Hoje minha música é muito mais nova, smells like teen spirits".
E agora o desafio é este: fazer com que as pessoas se interessem em ouvir alguém de 44 anos. Aos poucos, está conseguindo. Seu público está consolidado no Sul. Mas vem crescendo em faixa etária (de jovens a senhores) e geográfica (ele considera Belém, por exemplo, uma segunda Porto Alegre: o lugar do Brasil onde ele sente maior identificação com o público depois, claro, do Sul). A turnê pelo Nordeste com o Projeto Pixinguinha foi valiosa para conhecer estados onde nunca tocara antes. João Pessoa e Maceió causaram especial boa impressão. O cidadão pelotense desabafa, meio brincando: "É reconfortante saber que meu público não me deixa sentir a carência da fama. Porque, sinceramente, acho que não tenho tempo para ser famoso".
Sim, ele quer tempo de sobra para criar. Fez isso à beça durante a viagem (um dia entrou num quarto onde estava a turma de músicos e mostrou uma canção que estava fazendo. A galera ficou tão passada, no bom sentido, que a farra acabou e todos foram dormir, pensativos. No dia seguinte contavam isso às gargalhadas no café-da-manhã).
Melodias e harmonias próprias são, portanto, os alvos da caça. Para ele, é preciso que as pessoas se libertem da harmonia da bossa, da vanguarda do tropicalismo. Mas não com o que é considerado novidade hoje. “Tem muita gente jogando as fichas no ritmo, a melodia fica em segundo plano. Joga-se um ritmo novo numa música velha, de letra velha e melodia velha. Nada contra a onda eletrônica, não mesmo. Minha crítica é só aos que dizem que isso é o novo. Em geral uma casca nova em cima de uma coisa velha. Eu poderia ter feito o 'Longes' mais eletrônico, para aproximar mais esse povo. Mas ele foi ficando tão rico com aquela simplicidade que ia estragar. Busco música e texto feitos de vazios. Senão fica igual a tudo."
Belos vazios os que Vitor tem encontrado...
***
Agradeço ao tecladista Marcos Cunha por ter cedido a foto, tirada em um dos palcos do Projeto Pixinguinha.
A lucidez com que Vítor nega as caricaturas de um Brasil monolítico, sem descambar num separatismo tosco, é, por si só, uma forma de propor outra leitura do país. Bem interessante por sinal.
Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 29/5/2006 17:45
A diferença entre a recepção dos nordestinos que migravam para o Rio para os sulistas que faziam o mesmo trajeto é, curiosamente, angularmente oposta quando se trata de outras categorias de trabalho - quero dizer não-artistas - em ambos os casos.
Em minha humilíssima opinião, isso tem a ver com o estereótipo de auto-suficiência que os (principalmente eles) gaúchos emanam em atitude - novamente - oposta ao dos nordestinos, que, no clichê, querem tentar a sorte (ora veja) no Sul (que aliás, no caso deles, se "resume" a São Paulo e Rio, na maioria das vezes).
Helena, sou fã deste gaúcho desde 1987, quando fui morar 1 ano em Porto Alegre e ele tocava em teatros as vezes a meia-noite! Desde então segui seus passos, tenhos TODOS os cds autografados. Ele é um dos compositores mais inspirados do Brasil. E junto a obra dele vem um Brasil invisível e que existe em outras regiões. Há vários artistas como o Vítor aqui em MS, com uma obra tão boa quanto e tão 'out' ou mais. Quem já escutou falar em Geraldo Espíndola? Com certeza o Vítor teve a sacada do Estética do Frio, mas são várias as estéticas esquecidas até pelos mais descolados jornalistas de música do Brasil... alow Alexandre Matias, Bruno Maia, Pedro Alexandre a bola está com vcs, olhem para outros lados, esqueçam a Europa um pouco... para mim o Vítor é um farol... um exemplo q me guia. Queria ser o Vítor Ramil, mas como é impossível tento ser o melhor q posso. Também fui pra Sampa e Rio, fiquei 14 anos no 'Brasil' e descobri q só no MS começaria uma obra musical. As aflições do Vítor (q tem público, não tem eco de outros músicos nesta estética do frio em RS) são tb parecidas com as daqui: estamos isolados! Acabaram os 1500 toques. Leiam Os Filhos de Humberto, não tem um mísero comentário e é sobre a história da música de MS. Parabéns Helena pela matéria! Vítor Ramil neles... pq o q faz sucesso hj no Brasil tem q ser música ruim? e pq o ganha destaque tem q ser uma música de péssima qualidade? todos estão surdos?
Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 19/7/2006 17:31Oi, eu ia escrever um comentário mas ficou tão grande que resolvi me dedicar ao assunto na forma de uma colaboração à parte. Ainda está na fila de edição. vamos lá:
Ricardo de Sampaio Dagnino · Campinas, SP 4/4/2007 13:11Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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